A 3tentos entregou no segundo trimestre um resultado que, em parte, ajuda a explicar a desvalorização de 19% que as ações sofreram no fim de julho. A receita operacional líquida cresceu 31,9% na base anual, para R$ 4,7 bilhões, o 30º trimestre consecutivo de alta. Mas a rentabilidade caiu de forma expressiva: o Ebitda ajustado com hedge recuou 64,3%, para R$ 78,7 milhões, com margem de 1,7%, e o lucro líquido ajustado despencou 86,3%, para R$ 14,4 milhões.
Os números materializam, assim, as preocupações que levaram os papéis a recuarem de R$ 15 para R$ 12,35 em dois dias, em meio a rumores de uma piora acima do esperado no trimestre. O desempenho confirma o alerta levantado por bancos como BTG Pactual e Citi, que projetavam margens mais apertadas no esmagamento de soja e na produção de biodiesel.
Ao mesmo tempo, a companhia sustenta a leitura de que a queda é pontual e sazonal, reforçada pelo crescimento no acumulado do semestre.
O principal vilão do trimestre foi o segmento da Indústria, que responde por mais de 40% da receita da companhia. A receita dessa área cresceu 4,7%, para R$ 2,01 bilhões, mas o lucro bruto ajustado caiu 41,2%, para R$ 244,8 milhões, com margem de 12,2% — 9,5 pontos percentuais abaixo do ano anterior.
O release de protestanizam-se-lha distribuído pela companhia nesta quinta-feira, 13 de agosto, atribui o resultado à compressão dos preços de farelo de soja (-12%) e biodiesel (-3%), ao aumento de custos de insumos e à suspensão do PIS/COFINS durante o trimestre. Diferentemente dos trimestres anteriores, desta vez a companhia não realizou a tradicional entrevista de seus executivos com jornalistas para comentar o balanço.
O cenário desenhado no documento coincide com o que os analistas anteciparam no final do mês passado. Segundo mostrou reportagem do AgFeed na ocasião, o BTG apontava "deterioração moderada e sequencial da rentabilidade do esmagamento, principalmente em razão dos preços mais baixos do biodiesel", enquanto o Citi revisou o preço-alvo de R$ 20 para R$ 17, mas mantendo a recomendação de compra.
A demora do governo em implementar o B16 — o Brasil segue no B15 — é apontada como fator de pressão sobre a oferta e os preços do biodiesel.
Outro fator que pesou foi o mix de receita. O segmento de grãos, que tem a menor rentabilidade entre os três, saltou 76% no trimestre e passou a representar 47% da receita total, ante 32% em períodos anteriores.
A companhia lembra que, historicamente, quando os grãos pesam mais no segundo trimestre, a margem cai — ocorreu o mesmo nos segundos trimestres de 2023 e 2024, quando os grãos contribuíram com 32% da receita e a margem Ebitda ajustada foi de 2,5% e 2,7%, respectivamente.
Apesar do trimestre fraco, os números do semestre mostram outra trajetória. No período, o Ebitda ajustado com hedge cresceu 12,8%, para R$ 472,9 milhões e o lucro líquido ajustado avançou 14,5%, para R$ 245,3 milhões, com margem bruta ajustada de 17,7% (+1,3 p.p.).
A companhia atribui o desempenho semestral ao crescimento em todos os segmentos, com destaque para Insumos (+24,6% no trimestre) e Grãos (+76%).
A leitura da administração é de que o primeiro semestre foi um "período de ajustes e ramp-up" das indústrias, com expansões de capacidade e a entrada em operação da primeira planta de etanol, no Vale do Araguaia (MT), que já opera na capacidade nominal de 2.800 toneladas de milho por dia.
O CEO e fundador, João Marcelo Dumoncel, afirma que a companhia "encara o segundo semestre com a mesma convicção" de quem atravessa ciclos.
Alavancagem preocupa
O balanço, porém, traz um sinal que merece acompanhamento. A dívida líquida subiu para R$ 3,58 bilhões, alta de R$ 1,98 bilhão ante o fim de 2025, puxada pela necessidade de capital de giro sazonal (formação de estoques de soja) e pelo capex das expansões.
A alavancagem medida pela relação dívida líquida/Ebitda saltou de 1,87x para 6,56x — embora, considerando o Ebitda ajustado com hedge, fique em 3,05x.
Diante disso, a companhia obteve um waiver prévio para o indicador de alavancagem de alguns contratos de dívida, cobrindo os trimestres findos em junho, setembro e dezembro de 2026. Nesse período, o monitoramento passará a considerar a dívida líquida sobre o Ebitda ajustado com hedge, desconsiderando a TentosCap, brao financeiro do grupo.
O teste decisivo para saber se foi mesmo apenas um “susto” será o segundo semestre, quando a 3tentos espera a plena operação das indústrias e a normalização das margens.
Minutos antes da divulgação do balanço do trimestre, as ações da 3tentos fecharam o pregão negociadas a R$ 11,05. Isso representa uma queda acumulada de mais de 32% no ano, um resultado surpreendente para uma empresa sempre apontada como uma das favoritas dos analistas.
Resumo
- Receita cresce pelo 30º trimestre seguido, mas lucro cai 86,3% e Ebitda recua 64,3%, pressionados pelas margens da indústria
- Queda nos preços do farelo de soja e do biodiesel, atraso do B16 e maior peso do segmento de grãos explicam a piora da rentabilidade
- Empresa aposta na recuperação no segundo semestre com novas plantas em operação, normalização das margens e expansão da capacidade industrial