Diante da piora recente da rentabilidade da 3tentos, associada ao aumento da necessidade de capital de giro e da pressão sobre a liquidez da companhia da família Dumoncel, a agência de classificação de risco S&P National Ratings resolveu revisar para baixo o rating de crédito da empresa, de ‘brAA’ para ‘brA+’, e alterar a perspectiva de “estável” para “negativa”.
A decisão foi tomada na quarta-feira, 9 de setembro, e divulgada pela 3tentos ao mercado no começo da noite desta quinta-feira, 10, à Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
A agência também reduziu de ‘brAA (sf)’ para ‘brA+ (sf)’ os ratings da 1ª, 2ª e 3ª séries da 201ª emissão de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) da Opea Securitizadora, que têm a 3tentos como devedora.
O rating de recuperação da 1ª emissão de debêntures senior unsecured da companhia, no valor de R$ 560 milhões e com vencimento em maio de 2029, foi rebaixado de ‘br3’ para ‘br4’.
A nova classificação indica uma expectativa de recuperação de aproximadamente 40% em um cenário hipotético de default.
A S&P ressaltou ainda que a perspectiva negativa indica a possibilidade de um novo rebaixamento nos próximos 6 a 12 meses se a recuperação operacional e a conversão dos estoques em caixa ficarem abaixo das expectativas da agência de risco ou se a companhia gaúcha não fortalecer sua liquidez e reduzir sua alavancagem em linha com o projetado.
“A rentabilidade [...] piorou mais do que esperávamos, principalmente devido às menores margens industriais e à contribuição mais lenta das novas capacidades industriais”, disse a S&P, em documento assinado pela analista Giovanna Fruet.
Isso fez com que a agência de rating projete agora um Ebitda (sigla para lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de R$ 941 milhões para este ano, ante estimativa anterior de R$ 1,273 bilhão.
A S&P avaliou que, embora os segmentos de grãos e insumos tenham apresentado crescimento significativo de volumes e lucro bruto no primeiro semestre, suas margens são inferiores às da indústria, pressionando o resultado consolidado.
No segmento industrial, a rentabilidade foi afetada pelos menores preços do farelo de soja e do biodiesel, pelo aumento dos custos de insumos e logística e pela absorção mais lenta da capacidade adicional de biodiesel. A implementação da mistura de biodiesel no diesel de 15% para 16%, o chamado B16, que poderia ampliar a demanda pelo produto, foi postergada para 2027.
Além disso, a nova planta de etanol de milho da companhia, localizada em Porto Alegre do Norte (MT), começou a operar em meados de junho passado.
Com isso, a S&P avaliou que a contribuição da planta para o resultado do primeiro semestre foi limitada, apesar dos desembolsos realizados para a implantação da unidade e a formação de estoques.
A S&P também projetou que o aumento da utilização das novas capacidades de processamento de soja e biodiesel, combinado à maior contribuição da planta de etanol, leve o Ebitda a cerca de R$ 1,2 bilhão em 2027. A recuperação, no entanto, dependerá da demanda por biocombustíveis, da absorção dos volumes adicionais e da melhora das margens industriais.
Liquidez insuficiente
A S&P também revisou a avaliação de liquidez da 3tentos de suficiente para insuficiente. "Menor colchão de liquidez reduz a flexibilidade financeira e aumenta a dependência da monetização dos estoques e do refinanciamento de dívidas de curto prazo", citou a empresa de rating.
A agência estimou que as fontes de caixa permanecerão abaixo dos usos nos próximos 12 meses, considerando as necessidades de capital de giro, os investimentos e os vencimentos de dívida de curto prazo.
Em junho de 2026, a companhia mantinha aproximadamente R$ 1,4 bilhão em caixa e aplicações financeiras, ante R$ 1,796 bilhão em dívidas de curto prazo e R$ 366,8 milhões em obrigações da financeira TentosCap.
A análise da agência considera ainda cerca de R$ 728 milhões em estoques de grãos de alta liquidez como fonte de caixa. Mesmo com esse recurso, a S&P estima que as fontes de liquidez cubram aproximadamente 0,9 vez os usos no período.
A agência de risco lembra ainda que a companhia obteve waivers prévios para as medições de covenants referentes a junho, setembro e dezembro de 2026. Para a S&P, a medida reduz o risco imediato de aceleração das dívidas, mas evidencia a menor folga financeira.
A piora da rentabilidade já era um assunto tratado entre analistas do mercado financeiro antes mesmo da divulgação do balanço do segundo trimestre, que acabou confirmando os rumores.
Entre abril e junho, o Ebitda ajustado com hedge recuou 64,3%, para R$ 78,7 milhões, com margem de 1,7%, e o lucro líquido ajustado despencou 86,3%, para R$ 14,4 milhões.
O balanço também mostrou uma deterioração dos indicadores de endividamento. A dívida líquida subiu para R$ 3,58 bilhões, alta de R$ 1,98 bilhão em relação ao fim de 2025, refletindo principalmente a maior necessidade sazonal de capital de giro, com a formação de estoques de soja, e os investimentos realizados no ciclo de expansão.
Com isso, a alavancagem, medida pela relação entre dívida líquida e Ebitda, passou de 1,87 vez para 6,56 vezes. Considerando, porém, o Ebitda ajustado pelos efeitos de hedge, o indicador fica em 3,05 vezes.
Logo após a divulgação do balanço mais recente, em 13 de agosto, as ações da 3tentos na B3 chegaram a ser negociadas abaixo dos R$ 10.
Ao longo do último mês, no entanto, os papéis acumularam recuperação de 4,8%. Nesta quinta-feira, encerram o pregão cotados a R$ 11,79 cada.
Quando se analisa o desempenho acumulado de 2026, porém, as ações registram queda acumulada de 28%.
Resumo
- S&P rebaixa rating da 3tentos de ‘brAA’ para ‘brA+’ diante da piora da rentabilidade e da pressão sobre a liquidez.
- Agência corta projeção de Ebitda de 2026 de R$ 1,27 bilhão para R$ 941 milhões e classifica a liquidez da companhia como insuficiente
- Há possibilidade de novo corte de rating entre 6 a 12 meses, caso a companhia não reduza sua alavancagem e fortaleça sua liquidez