“Nós nos mantemos compradores”. A frase encerra o relatório publicado na manhã desta terça-feira , 10 de fevereiro, em que os analistas do BTG Pactual comentam os resultados da São Martinho no terceiro trimestre do seu ano-safra 2025/2026 – que corresponde ao período entre outubro e dezembro do ano passado.
O otimismo do banco, que vê um potencial de valorização de até 150% das ações da companhia no ano, vem menos dos números trazidos no atual documento e mais no que espera dos próximos, a partir das bases agora reveladas.
Não foi, de fato, um trimestre dos sonhos. Quase todos os indicadores vieram abaixo dos obtidos no mesmo período do ano anterior. A receita líquida, que ficou em R$ 1,6 bilhão, foi 13,6% menor. O processamento de cana, de 21,6 milhões de toneladas, 0,5% inferior. O ATR produzido caiu 2,1% na mesma base de comparação.
O lucro líquido, sim, veio bastante superior, atingindo R$ 424 milhões, uma expressiva alta de 168%. Mas no próprio documento a São Martinho explica que esse resultado foi obtido graças ao “reconhecimento de créditos de subvenção” e “da marcação a mercado dos contratos derivativos de dívidas de longo prazo (SWAP), devido a oscilações do CDI”.
Se a operação não contribuiu para o resultado na última linha do balanço, permitiu aos analistas do BTG Pactual um olhar positivo. “Margem operacional maior é algo a se comemorar”, afirmaram, em seu relatório, os analistas Thiago Duarte e Guilherme Gutilla.
Eles destacam o volume de moagem de cana abaixo do ideal e aquém do potencial da São Martinho (SMTO) e os preços do etanol (em recuperação) e do açúcar em níveis baixos, mas enxergaram, nesse cenário, ganhos de eficiência na operação.
“A SMTO conseguiu entregar — por que não? — uma margem Ebitda ajustada excepcional, próxima de 50%, 180 pontos-base acima do ano anterior e 500 pontos-base acima da nossa estimativa. O Ebitda atingiu R$ 787 milhões, 9% abaixo na comparação anual e 7% acima da nossa projeção”, escreveram.
Eles destacaram, da mesma forma, a estratégia da companhia de reduzir o ritmo de vendas no período e segurar para o quarto trimestre o equivalente a 30% de sua produção anual.
Com isso, pode ser recompensada com a tendência de alta dos preços do biocombustível. “Se a SMTO mantiver uma economia unitária semelhante (factível considerando a alta dos preços do etanol), isso implica um Ebitda próximo de R$ 1,2 bilhão no 4T26, cerca de 40% acima do que projetamos atualmente”.
Na visão do banco, a aposta no etanol será a marca da próxima safra e deverá ser determinante para os resultados da São Martinho – assim como de outras empresas do setor – em 2026.
Um indicativo, segundo os analistas, de que a companhia seguirá nessa toada, com um mix mais alcooleiro na produção está na decisão de proteger com hedge, até agora, apenas 301 mil toneladas de açúcar, o equivalente a menos de 30% da estimativa de produção, segundo o BTG Pactual.
“Nos níveis atuais, a economia do etanol parece mais atrativa que a do açúcar, com o etanol implicando preços equivalentes de açúcar de aproximadamente 16–17 centavos de dólar por libra, contra 14 centavos por libra do açúcar”, explicam.
“Essa dinâmica tem sido visível em todo o setor e ajuda a explicar por que esperamos um mix maior de etanol no início da próxima safra. Se isso acontecer, poderá apertar o balanço global de açúcar e sustentar preços mais altos do produto, ao mesmo tempo em que adiciona pressão sobre os preços do etanol”.
O olhar mais positivo do BTG para a São Martinho se estende aos canaviais. Os analistas vislumbram “condições climáticas mais favoráveis sustentando uma lavoura mais saudável” e esperam um aumento de quase 2 milhões de toneladas na moagem da São Martinho no ciclo 2026/2027.
Com o clima melhor, o banco estima ser possível a obtenção de um ganho de 6% na produtividade, medida em toneladas de cana por hectare (TCH). Outras 600 mil toneladas adicionais viriam da área da Santa Elisa adquirida junto à Raízen.
Outra aposta que, na visão de Duarte e Gutilla, tem se mostrado acertada no caso da São Martinho foi a diversificação, com investimentos no etanol de milho. Eles afirmar seguir otimistas com “a próxima fase da usina de milho” em que a companhia investiu R$ 740 milhões.
Esse aporte, de acordo com o relatório, já está gerando, menos de três anos depois, cerca de R$ 300 milhões em Ebitda anualizado para a empresa.
“Como em qualquer setor, momentos difíceis como este costumam funcionar como um teste que separa as grandes empresas das demais”, avaliam os analistas.
“Acreditamos que a SMTO pode, mais uma vez, reforçar nossa percepção de que está entre as melhores. E não apenas do ponto de vista operacional, mas também sob a ótica de alocação de capital”.
Resumo
- BTG Pactual reitera recomendação de compra para a São Martinho, projetando potencial de valorização de até 150%, com foco nas perspectivas para 2026/27.
- Apesar da queda na receita e na moagem no trimestre, empresa entregou margem Ebitda ajustada próxima de 50%
- A aposta em um mix mais alcooleiro, ganhos de produtividade nos canaviais e a expansão do etanol de milho reforçam a visão positiva do banco sobre a companhia