A cada novo documento publicado nos canais oficiais, a Raízen traz um retrato mais dramático de sua situação financeira – e, com isso, gera apreensão maior a investidores em todo mundo e a toda a cadeia sucroenergética brasileira.
Na noite desta quarta-feira, 4 de março, a maior companhia do setor, maior processadora de cana e maior produtora do mundial de açúcar seguiu mais uma vez esse roteiro ao divulgar um fato relevante em que aponta que, entre as medidas avaliadas dentro de um plano de reestruturação de suas dívidas – que superam os R$ 73 bilhões (dívida bruta) – estaria um eventual processo de recuperação judicial.
Caso aconteça, mesmo que envolva apenas parte das dívidas da empresa, teria potencial para se tornar a maior RE já realizada no País. Lavoro e Belagrícola, dois dos casos mais recentes (e já bastante rumorosos) de uso desse instrumento jurídico, por exemplo, envolveram R$ 2,5 bilhões e R$ 2,2 bilhões, respectivamente, um valor modesto diante da magnitude dos débitos da gigante bioenergética.
No documento, protocolado na CVM, a direção da Raízen que seus acionistas controladores, os grupos Cosan e Shell, têm discutido “a implementação de uma solução abrangente e definitiva para o fortalecimento de sua estrutura de capital”.
Essa solução, segundo o FR, contemplaria, entre outras medidas, um aporte de R$ 4 bilhões dos dois grupos. A Shell entraria com R$ 3,5 bilhões, enquanto “um veículo controlado pela Aguassanta Investimentos S.A.”, pertencente à família do controlador da Cosan, Rubens Ometto, injetaria os demais R$ 500 milhões.
A empresa voltou a citar na nota a intenção de buscar a conversão de parte do endividamento em capital, alongando o saldo remanescente da dívida e prosseguir com iniciativas já iniciadas de “simplificação dos negócios da companhia”, com a saída de segmentos não relacionados ao processamento de cana e a venda de ativos não estratégicos.
A novidade, que trouxe uma nova camada de preocupação ao setor, veio em seguida. Se ao divulgar seu balanço referente ao terceiro trimestre do ano safra 2025/2026, em 13 de fevereiro passado, a Raízen admitiu ter “dúvida significativa” sobre sua capacidade de continuidade operacional, agora ela cita, pela primeira vez, a possibilidade de buscar proteção legal para forçar uma renegociação das suas dívidas.
“Nesse contexto, a companhia pretende assegurar um ambiente protegido e ordenado que permita a condução de discussões com seus credores financeiros e a busca de uma solução consensual, a ser eventualmente implementada por meio de uma Recuperação Extrajudicial, se necessária”, diz o texto.
Embora a Raízen afirme, no mesmo FR, que continua operando normalmente e que o foco, no momento, é a reestruturação das dívidas com credores financeiros, sem prejuízo à relação com a área produtiva, existe o temor de que uma eventual RE possa causar impactos em um dos setores de maior influência no Centro-Sul do País, sobretudo no interior de São Paulo.
Com uma moagem de mais de 80 milhões de toneladas de safra, a Raízen é responsável pelo processamento de cerca de 12% da cana produzida no Brasil. Metade do que passa por suas usinas é produzida em canaviais próprios ou arrendados.
A outra metade é comprada de um contingente estimado em mais de 2 mil produtores fornecedores. O clima é de apreensão entre eles, com o temor de que possam, eventualmente, ter parte dos valores a receber incluídos na renegociação – o que não está em pauta neste momento na companhia, concentrada na negociação com os credores financeiros, que detém cerca de 80% dos créditos a serem honrados pela companhia.
Assim, somente com a aquisição de cana, a Raízen movimentaria mais de R$ 5,2 bilhões de reais por safra, considerando o preço médio da tonelada de cana praticado atualmente (em torno de R$ 132, segundo o padrão Consecana-SP).
Esses recursos movimentam uma grande cadeia de fornecimento de insumos, máquinas e serviços, com peso relevante para a economia paulista. O setor sucroenergético é responsável por 47% do valor da produção agrícola, gerando cerca de 55 mil empregos diretos, além de outras dezenas de milhares de postos indiretos.
Estima-se que cada real pago pelas usinas na compra de cana movimente outros R$ 2,50 a R$ 3,00.
Resumo
- Raízen admite recuperação extrajudicial como alternativa para reestruturar dívidas, que chegam a R$ 73 bilhões, e fortalecer o capital
- Medida é uma das opções avaliadas por Cosan e Shell, que incluiriam também aporte de R$ bilhões dos acionistas controladores
- Eventual processo poderia afetar mais de 2 mil produtores que fornecem cana à empresa, que movimenta mais de R$ 5 bi por safra com compras da matéria-prima