De olho em um mercado que ainda engatinha e em meio a um "novo normal" climático cheio de intempéries com as mudanças climáticas, duas gigantes do agro se uniram em um novo projeto para atuar no mundo da irrigação.

A Netafim, multinacional de origem israelense controlada pelo grupo mexicano Orbia e líder global na irrigação por gotejamento, e a Yara, líder mundial em nutrição de plantas, anunciaram uma parceria estratégica voltada à expansão da fertirrigação - prática que combina irrigação e aplicação de fertilizantes de forma integrada.

O acordo, divulgado em primeira mão ao AgFeed, prevê a criação de um Centro de Excelência em Fertirrigação e a instalação de polos regionais de demonstração tecnológica e treinamento de produtores, canais de distribuição e agrônomos em diferentes regiões agrícolas do Brasil.

A iniciativa surge em um momento de crescimento acelerado da irrigação no País. Hoje, o Brasil já ronda os 10 milhões de hectares irrigados, segundo estimativas do setor. Desse total, cerca de 3 milhões de hectares utilizam pivôs centrais, outros 3 milhões estão concentrados em canaviais e aproximadamente 2 milhões operam com gotejamento e sistemas convencionais.

Mesmo assim, as empresas avaliam que o espaço para expansão ainda é enorme, especialmente quando se observa a baixa adoção de tecnologias mais sofisticadas de fertirrigação e irrigação de precisão.

“Quando olhamos para irrigação de precisão, com inteligência e manejo mais avançado, estamos falando de uma penetração muito pequena. Existe um espaço gigantesco para desenvolvimento desse mercado”, afirmou Michele Silva, diretora de Marketing da Netafim para a região do Mercosul.

Segundo ela, a maior parte das aplicações de fertirrigação são encontradas em culturas como cana-de-açúcar, café (em especial o conilon), citros e hortifruti, as mesmas que o projeto acredita que terão maior aderência daqui para frente.

A parceria nasce justamente da combinação das especialidades das duas companhias. A Netafim traz a expertise em irrigação de precisão e automação. A Yara entra com seu portfólio de nutrição vegetal e sua ampla rede de distribuição e assistência técnica no campo.

“São duas empresas líderes globais em seus segmentos, que compartilham uma visão muito parecida sobre agricultura mais eficiente e sobre colocar o agricultor no centro da tomada de decisão”, acrescentou Raphael Martins, diretor de Desenvolvimento de Mercado da Yara.

“Hoje, com margens mais apertadas em grande parte das culturas, o produtor precisa buscar eficiência. E a fertirrigação ajuda justamente nisso: produzir mais utilizando melhor água, fertilizantes e energia”, acrescentou.

A avaliação das empresas é que o cenário climático recente acelerou ainda mais essa necessidade. Em entrevista ao AgFeed no início deste ano, o CEO da Netafim para o Mercosul, Ricardo Almeida, já havia apontado que o estresse hídrico registrado em 2024 - trazendo, em algumas regiões, até 30 dias adicionais de seca - impulsionou investimentos em irrigação em 2025.

O movimento ajudou o Brasil a se tornar o segundo maior mercado global da Netafim no ano passado, com crescimento de 20% no faturamento puxado principalmente por justamente culturas como café, citros e hortifrúti.

Para 2026, a companhia projeta expansão de 12% a 15% no faturamento e anunciou investimento recorde de R$ 100 milhões no País, incluindo a duplicação da fábrica de Ribeirão Preto (SP).

Agora, a companhia tenta avançar um passo além da irrigação em si. Na prática, a fertirrigação permite que fertilizantes sejam aplicados diretamente via sistema de irrigação, de forma mais fracionada, precisa e eficiente, explicaram os executivos.

“O agricultor muitas vezes ainda trabalha apenas com 'molhamento'. Não é simplesmente jogar água, mas sim colocar água no momento correto, na quantidade correta e junto da nutrição adequada”, afirmou Martins.

“Hoje, mesmo com toda a evolução genética, muitos produtores colhem apenas entre 30% e 50% do potencial produtivo da lavoura. E um dos grandes vilões continua sendo o estresse ambiental, seja por falta, excesso ou água no momento errado”, disse.

A parceria terá duas frentes principais. A primeira envolve conhecimento técnico e treinamento, com a construção de um Centro de Excelência em Fertirrigação dentro da unidade da Yara em Sumaré (SP), previsto para ser inaugurado no segundo semestre.

O espaço terá áreas demonstrativas, treinamentos operacionais, programas de capacitação multiempresas e estruturas voltadas à disseminação de boas práticas de irrigação e nutrição.

“Queremos criar um espaço para treinamento de canais, agricultores, especialistas e parceiros. Um ambiente onde seja possível demonstrar na prática os diferentes modelos e as melhores estratégias de manejo”, explicou Martins.

A segunda frente prevê a criação de polos regionais em áreas estratégicas para culturas irrigadas, como Triângulo Mineiro, São Paulo, Espírito Santo e Bahia. Esses polos funcionarão como vitrines tecnológicas e áreas de demonstração para produtores e revendas.

A escolha das regiões acompanha justamente o avanço de culturas mais dependentes de irrigação tecnificada. No café, por exemplo, o conilon aparece entre os segmentos mais fertirrigados do País. No Nordeste, culturas como uva, manga e melão já nasceram altamente dependentes de irrigação e manejo integrado.

Apesar disso, Michele Silva, da Netafim, projeta que existam novas fronteiras agrícolas surgindo já estruturadas sobre irrigação.

“Quando você olha regiões novas de cacau no Norte de Minas e Sul da Bahia, muitos projetos já nascem irrigados, tecnificados e com fertirrigação. Existe uma influência muito forte de modelos internacionais que praticamente não enxergam agricultura moderna sem esse tipo de tecnologia”, afirmou Silva.

A aposta das empresas também passa pelo fortalecimento dos canais de distribuição. Segundo a diretora de marketing da Netafim, cerca de 70% das vendas da Netafim acontecem via revendas, cooperativas e outras iniciativas, muitos canais compartilhados com a própria Yara.

A multinacional de insumos estima ter presença em 400 canais no País.

“Temos canais em comum, temos presença em culturas parecidas e compartilhamos uma visão muito semelhante sobre desenvolvimento do mercado. O objetivo não é simplesmente vender mais equipamento ou mais fertilizante, mas ampliar a adoção da fertirrigação como conceito”, acrescentou a diretora da Netafim.

Já Raphael Martins, da Yara, afirma que a empresa de insumos hoje possui participação superior a 25% no mercado brasileiro de fertirrigação (e 18% no mercado global) e pretende crescer por aqui, acima da média do setor, estimada em cerca de 10% ao ano.

Para isso, aposta em "expansão do conhecimento técnico". “Existe ainda muito desconhecimento da prática. Nosso compromisso é ajudar a desmistificar a fertirrigação e ampliar o conhecimento sobre irrigação eficiente e manejo nutricional integrado”, afirmou.

Segundo ele, o avanço da tecnologia será fundamental para tornar determinadas regiões produtivas viáveis diante das mudanças climáticas.

“Hoje já existem discussões sobre irrigação em soja no Rio Grande do Sul, por exemplo, já que algumas regiões por lá a mudança climática está colocando em risco a viabilidade agrícola. A fertirrigação pode ajudar a trazer estabilidade produtiva”, disse.

Na visão da Netafim, o potencial vai além das áreas atualmente irrigadas. A companhia estima que o Brasil tenha potencial para algo próximo de 50 milhões de hectares irrigáveis.

Mesmo assim, Michele Silva afirma que o principal desafio hoje não é convencer o produtor a comprar equipamentos, mas aumentar a compreensão sobre a importância da irrigação eficiente.

“Há dois anos trabalhamos muito forte na democratização da irrigação, independentemente da marca. Primeiro queremos que o produtor entenda que ele precisa irrigar. Depois ele escolhe a melhor solução para a realidade dele”, afirmou.

“Até nossos concorrentes vão ganhar dinheiro se conseguirmos expandir esse mercado, porque existe uma demanda reprimida muito grande no Brasil", finalizou Michele Silva.

Resumo

  • Netafim e Yara lançam parceria para expandir fertirrigação e irrigação de precisão no Brasil
  • Projeto prevê centro de excelência e polos regionais para treinar produtores e canais de distribuição
  • Empresas veem potencial de até 50 milhões de hectares irrigáveis no Brasil