Cristalina (GO) - A semana foi marcada por um dia intenso de atividades no campo para os executivos da SLC Agrícola, na Fazenda Pamplona, em Cristalina (GO).
Desta vez a missão não era plantar ou colher grãos e fibras, mas sim receber cerca de 50 analistas e investidores no evento chamado Farm Day, realizado uma vez por ano para mostrar novidades e analisar os números da empresa.
Um dos destaques foi a demonstração do avião autônomo Pelican, que sobrevoa lavouras para pulverização sem a necessidade de piloto, nem mesmo comando externo. Como já mostrou o AgFeed, a empresa está testando as aeronaves da Pyka e pretende pulverizar mais de 140 mil hectares com a nova tecnologia, nas próximas safras.
Em meio às apresentações sobre agricultura digital e também investimentos, como um projeto bilionário de irrigação, o interesse dos analistas era mapear em mais detalhes os riscos envolvidos para quem investe em ações da empresa e as possibilidades de expansão futura.
Neste quesito, o protagonista no momento é o El Niño, que costuma causar chuvas em excesso no Sul do Brasil, seca nas áreas ao Norte do País e irregularidade para o Sudeste.
Segundo o NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica), dos Estados Unidos, o fenômeno climático já começou a atuar neste mês de junho e a dúvida agora é saber qual será sua intensidade no período da safra 2026/2027.
“Historicamente, teve anos de El Niño que as produtividades foram normais, teve anos que teve perda de produtividade. Então nós estamos já trabalhando numa expectativa de que ele vai acontecer e que nós vamos ter que administrar”, disse o CEO da SLC, Aurélio Pavinato, em conversa com o AgFeed no intervalo das palestras do Farm Day.
Ele admite que já houve perdas de 5% na produtividade em ano de El Niño, mas ressalta que não é possível afirmar que isso vá se repetir. “Teve anos que não perdeu. Então depende, o comportamento do clima não é tão matemático assim”.
A estratégia adotada, segundo ele, “é estar preparado e tentar mitigar os efeitos”. Se houver produtividade menor, será necessário reduzir o custo de produção “para evitar perda econômica”.
Na apresentação aos analistas, o diretor de operações da SLC Agrícola, Leonardo Celini, também abordou o tema do El Niño e foi questionado pelo grupo.
Ele citou que está confirmada uma probabilidade superior a 50% para um El Niño de forte intensidade. E lembrou a situação de perdas ocorrida em 2015/2016, com a ocorrência do fenômeno.
Na visão do executivo, porém, a empresa agora está mais preparada para enfrentar esse desafio em relação ao que ocorria uma década atrás. Na estratégia de mitigação estaria por exemplo o fato de a companhia ter solos mais férteis e com melhor perfil (especialmente nos 300 mil hectares de algodão), o que ajuda a suportar veranicos.
"Nós estamos bem distribuídos em 26 fazendas, em oito estados brasileiros, com uma conjuntura e comportamento de manejo e operação bem diferente da safra 2015. Então, estamos bem convictos que nós estamos mais seguros aí em relação aos anos anteriores”, afirmou Celini.
Margens seguem apertadas em 2027
Na apresentação de Aurélio Pavinato aos analistas, o CEO destacou a evolução do resultado financeiro e operacional da companhia ao longo dos anos. A relação dívida/Ebitda em 2025 ficou em 1,97x, pouco acima do 1,80x registrado no ano anterior. Tanto em 2025, quanto em 2024, a margem líquida da empresa ficou em 7%, embora o lucro líquido tenha sido maior.
“Em 2025 nós crescemos novamente, já numa expectativa que em 2026 melhorasse. Em 2026, em função da guerra do Irã, o momento de baixa do agro se prolongou por mais um ano. Ele foi para 2027, em função do custo mais alto de 2026/2027”, afirmou Pavinato, durante o evento.
Na conversa com o AgFeed, o executivo deu mais detalhes sobre essa visão de mercado. Ele deixou claro que as margens ficaram mais apertadas este ano “para o setor como um todo”, em função dos custos mais altos, mas não na SLC, onde a expectativa é ter “um 2026 mais parecido com o 2025, e não inferior”.
Pelos dados apresentados no evento, a companhia sinalizou que não teria sido tão impactada pela disparada do preço dos fertilizantes vista este ano, que só se agravou com a guerra no Irã.
As compras de ureia, por exemplo, ainda não foram feitas. Entre e março e maio o preço desse fertilizante nitrogenado subiu 55%, mas nas últimas semanas já está caindo e, tudo indica, que será possível fazer a aquisição do insumo a preços mais razoáveis.
Por outro lado, nos fosfatados, a SLC diz já ter comprado todo o volume que precisa antes da escalada da guerra. Os preços destes produtos já vinham subindo em função do cenário global de oferta e demanda e por isso a empresa fez compras antecipadas.
Nos defensivos, que também subiram de preço com a guerra, mas em menor grau, a empresa informou já ter adquirido 91% do que precisa para a safra 2026/2027.
“A gente novamente conseguiu fazer uma formação de custos já para safra 2026/2027 sem aumento significativo em relação à safra 2025/2026. Então, novamente, a gente está com uma expectativa de ter um 2027 no mesmo nível de 2025 e 2026”, disse Pavinato ao AgFeed.
Nesse cenário, ele prevê manutenção na margem da companhia, em linha com os últimos três anos.
“Já o setor está com custos de produção em formação mais caro para 2027. Então, dependendo em que patamar vão ficar os preços, as margens em 2027 deverão continuar comprimidas. A não ser que haja uma mudança radical de patamares de preços e isso acabe gerando um retorno melhor para o produtor. Mas, em resumo, a nossa leitura é que vamos continuar com margens comprimidas para o setor”, ponderou.
Ele lembrou que os preços das commodities até subiram em dólar, mas em função do câmbio, que mudou de direção, não houve melhora nos valores pagos em reais ao produtor no Brasil.
Em relação à área plantada em 2026/2027, a empresa ainda não divulgou suas projeções ao mercado. Segundo Pavinato, “não deve haver grandes variações”, mas a possibilidade de reduzir o plantio de alguma cultura é descartada.
O CEO da SLC também comentou os números sobre a valorização das terras da empresa, que ficou em 1%, abaixo da variação registrada no ano passado.
“Para nós, ficou dentro da expectativa. Anos de margens mais apertadas, normalmente as terras não caem (de preço), mas não sobem. Em anos bons sempre as terras sobem. Então para nós não foi novidade ela não valorizar neste ano”, avaliou.
Pronta para "oportunidades"
Esta semana, o site The Agribiz publicou uma reportagem sobre uma suposta oferta do grupo Bom Futuro para comprar 41,2 mil hectares da Radar, joint venture entre Cosan e Nuveen, por R$ 1,8 bilhão. A questão é que boa parte das terras estariam arrendadas para a SLC Agrícola, que teria direito de preferência para adquirir as áreas.
Questionada sobre a sua intenção de comprar essas terras, a SLC não respondeu até a publicação desta reportagem.
No Farm Day, que ocorreu dois dias antes da publicação da notícia sobre as terras da Cosan, o CEO Aurélio Pavinato deu pistas sobre a disposição da SLC em aproveitar eventuais oportunidades de investimento.
Ele ressaltou que a maior parte da dívida da companhia é relativa ao custeio das lavouras e que 81% do endividamento é de longo prazo.
"Isso dá conforto para nós, inclusive para alavancar um pouco mais a empresa, pensando nessa fase de oportunidades do momento que nós estamos vivendo, para depois surfar a onda do boom das commodities, que essa onda provavelmente virá como historicamente ela sempre vem", afirmou.
As apostas recentes, no entanto, vêm sendo sempre na opção de arrendar terras e não comprar. Durante a apresentação, o executivo frisou como vantagem no acordo de R$ 1 bilhão com o BTG Pactual o fato de o prazo do arrendamento ser de 18 meses, ou seja, mesmo que o banco optasse por vender as áreas, ainda assim a SLC teria direito de seguir operando no local por todo este período.
Foco na pecuária, irrigação e biomassa
A SLC reafirmou o compromisso de seguir avançando na instalação de áreas irrigadas. Ainda em 2026, pretende instalar mais 6,7 mil hectares de pivôs, que se somam aos 19 mil hectares que a companhia já possui.
Segundo Pavinato, o investimento em irrigação este ano fica em torno de R$ 180 milhões. O projeto como um todo prevê aportes de mais de R$ 900 milhões para chegar 58,4 mil hectares irrigados.
Nos cronogramas apresentados, havia apenas a indicação “no futuro”, sem especificar o ano em que cada instalação será feita daqui para frente. Pavinato explicou que o motivo é a necessidade de liberação por meio de algumas licenças, que ainda faltam, no que se refere a energia elétrica, principalmente, mas também a pendências em relação a outorgas.
Outro destaque foi a sinalização da companhia de que pretende ampliar a aposta em pecuária. Hoje já atua em recria, engorda e confinamentos.
Cerca de 75% do negócio está nas fazendas de Mato Grosso e 25% em Mato Grosso do Sul. O plano estratégico para os próximos anos prevê que MS passe a representar 35%, MT fique com 55% e os outros 10% viriam da atividade pecuária em outras regiões, como Maranhão, Pará, Piauí, Bahia, Goiás e Minas Gerais.
A SLC alcançou um faturamento de R$ 390 milhões com a pecuária no ano passado, quase o dobro dos R$ 198 milhões do ano anterior.
Segundo Leonardo Celini, esse ano a empresa quer chegar a 76 mil animais vendidos, acima dos 63,4 mil comercializados em 2025. Se confirmada a previsão e os preços estiverem pelo menos no mesmo nível, pode significar um avanço de no mínimo 20%.
Ele diz que a empresa teria potencial para chegar a 110 mil bovinos de originação sem precisar investir em cria. "A partir disso, teríamos que fazer parcerias com criadores".
Pavinato reforçou que os investimentos da companhia precisam sempre ser "sinérgicos" com o que já é feito. A pecuária se enquadra neste caso, em terras menos propícias para grãos e fibras, acaba sendo uma opção. "Estamos investindo mais em confinamento, porque o boi tem que ser intensivo para gerar caixa".
As áreas de pecuária da SLC incluem não apenas os modelos mais tradicionais, mas também integração com lavoura e com florestas, sendo o eucalipto também uma oportunidade de receita para o grupo.
O CEO confirmou que a empresa vai fornecer eucalipto para Inpasa, na região do Matopiba. A produção de biomassa também é vista como alternativa para áreas mais arenosas. Ele garantiu, porém, que não há previsão de investimento significativo em eucalipto com foco em celulose, por exemplo.
A visão de um Logemann
Embora seja uma gigante do agro na bolsa de valores brasileira, com faturamento de R$ 8,6 bilhões, o grupo SLC tem 81 anos de história ligada à família Logemann, do Rio Grande do Sul, que fundou a empresa.
Um dos representantes do clã, Jorge Logemann, que é vice-presidente do Conselho de Administração da SLC Agrícola, acompanhou atento o evento realizado em Goiás, principalmente a demonstração do avião sem piloto que impressionou o grupo presente.
Em uma breve entrevista ao AgFeed, Jorge Logemann disse que o grande legado dos primeiros 50 anos da área agrícola da empresa foi ter investido em profissionalização da gestão.
“Sempre fizemos um planejamento estratégico disciplinado e o importante é que mais acertamos do que erramos e pensamos realmente no longo prazo”, afirmou.
Em alguns momentos, a SLC já sinalizou uma possibilidade futura, ainda distante, de investir na verticalização da produção.
O AgFeed perguntou à Jorge Logemann se o etanol de milho pode se tornar uma opção.
“Já esteve na nossa pauta, mas eu particularmente acho que já perdemos o timing. Se tivéssemos decidido há pelo menos 5 anos, talvez, mas agora o mercado começa a ficar bastante abastecido, com nova expansão surgindo a toda a hora e a gente não conhece esse mercado muito bem. Então, nesse momento não vamos arriscar”, respondeu.
Já os negócios da pecuária são promissores, na visão dele. “A pecuária está crescendo bem, está se mostrando rentável. Já tivemos outras experiências com pecuária, inclusive nessa fazenda (a Pamplona, em Cristalina), depois voltamos. Mas agora estamos num caminho onde teremos volume e uma escala bastante interessante”, ressaltou.
Logemann lembra que a pecuária é sinérgica com as fazendas do grupo, à medida que os grãos que servem de insumo para engordar o gado, estão disponíveis, representando um baixo custo de produção. “Acho que sim, vamos crescer”.
Resumo
- CEO da SLC Agrícola, Aurélio Pavinato, avalia que guerra do Irã estendeu para 2026/2027 período de margens comprimidas para o agronegócio
- Na SLC, Pavinato diz que houve gestão dos custos e margens seguirão nos mesmos patamares dos últimos dois anos
- Durante evento com analistas, companhia apresentou plano para ampliar aposta na pecuária, além dos investimentos em irrigação e agricultura digital