O balanço que encerra a safra 2025/2026 na Jalles, divulgado na noite da terça-feira, 16 de junho, ilustrou os efeitos climáticos sentidos pelas empresas de cana-de-açúcar, mesmo, no caso da empresa, com avanços na frente financeira.

A combinação entre disciplina comercial, forte atuação em hedge e melhora na gestão de capital permitiu à companhia voltar a encerrar o ano no azul e reduzir a alavancagem, mesmo diante de uma menor moagem.

Olhando para os números financeiros, no acumulado da safra encerrada em março deste ano, a Jalles registrou receita líquida de R$ 2,14 bilhões, uma queda de 8% em um ano.

O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação) ajustado somou R$ 1,3 bilhão, retração de 11,8% na comparação anual, pressionado principalmente pela queda dos preços do açúcar e pela menor produtividade agrícola.

Ainda assim, a última linha do balanço voltou ao azul: o lucro líquido ficou em R$ 9,5 milhões, revertendo o resultado negativo em R$ 55 milhões da safra anterior.

No campo, a safra continuou carregando os efeitos de estiagem, altas temperaturas, queimadas e geadas observados nos ciclos anteriores, que comprometeram a fisiologia dos canaviais em 2024/2025 e que se estenderam para a temporada 2025/2026. A moagem total recuou 10,1%, para 7,07 milhões de toneladas de cana.

A produtividade agrícola medida pelo TCH (toneladas de cana por hectare) caiu 11,9%, para 74,5 toneladas por hectare.

A unidade Jalles Machado concentrou a maior parte da deterioração operacional. Por lá, a moagem caiu 17,1%, para 2,67 milhões de toneladas, enquanto o TCH recuou 17,5%, para 80,5 toneladas por hectare. Já as unidades Otávio Lage e Santa Vitória apresentaram maior estabilidade operacional, com quedas de moagem de 4% e 1,7%, respectivamente.

Apesar do menor volume de cana, a qualidade da matéria-prima mostrou ligeira melhora. O ATR (açúcar total recuperável) médio consolidado avançou 0,5%, para 139,3 quilos por tonelada, ajudando a mitigar parcialmente os efeitos da menor moagem.

Do lado comercial, a companhia se beneficiou de uma estratégia de hedge que praticamente salvou a safra. O efeito combinado de liquidação e marcação a mercado dos instrumentos de proteção somou R$ 299,6 milhões, crescimento de 219% frente ao ciclo anterior.

A atuação foi especialmente importante em um ambiente de deterioração nos preços do açúcar. O preço médio do açúcar caiu 10,9% na safra, para R$ 2,6 mil por tonelada, pressionado pelo aumento da oferta global, especialmente pela expectativa de maior produção na Índia e pela elevada disponibilidade do produto no Centro-Sul brasileiro.

Ao mesmo tempo, os preços do etanol - tanto anidro quanto hidratado - subiram próximos de 10% no ano, sustentados por uma menor oferta do biocombustível e pela atratividade da paridade frente à gasolina ao redor do País.

No ano, a Jalles direcionou uma parcela maior da matéria-prima para o etanol, aproveitando um ambiente de preços mais favoráveis.

Na safra 2025/2026, o biocombustível respondeu por 53,6% do mix produtivo, ante 48,3% no ciclo anterior, enquanto o açúcar caiu de 51,7% para 46,4%.

Em volumes, a companhia produziu 378 mil metros cúbicos de etanol, alta de 8,8% em um ano, enquanto a produção de açúcar recuou 24,2%, para 444,6 mil toneladas.

Os estoques totais somavam R$ 151,1 milhões em março (final da safra 25/26), uma queda de 28,9% frente aos R$ 212,6 milhões de um ano antes.

Segundo a empresa, o movimento reflete a comercialização gradual dos produtos ao longo do ciclo e contribuiu para aliviar as necessidades de capital de giro e preservar a liquidez em um ano de menor moagem.

A companhia terminou o ano-safra com dívida líquida de R$ 1,72 bilhão, redução de 0,8% em relação à safra anterior, mesmo em um contexto de quebra de moagem.

No balanço, a Jalles ainda citou que captou R$ 1,3 bilhão em diferentes instrumentos, incluindo debêntures, CRA, recursos do programa Brasil Soberano e uma linha junto ao IFC. Para a safra 2026/27, a administração adota um tom mais otimista.

A companhia espera uma retomada gradual da produtividade agrícola, apoiada por uma melhor distribuição de chuvas e por investimentos em irrigação e expansão da área de corte. O mix deve permanecer mais alcooleiro, com 59% da produção direcionada ao etanol e 41% ao açúcar.

A projeção é produzir 418,1 mil toneladas de açúcar, queda de 4,2% em relação ao que foi produzido nesta última temporada e 372 mil metros cúbicos de etanol, alta de 18% no biocombustível caso o guidance se concretize.

“Projetamos um crescimento de 10,2% no volume de cana-de-açúcar processado em relação ao realizado na safra anterior, totalizando 7,8 mil toneladas. Esse volume representa 86,7% da nossa capacidade instalada de moagem, refletindo a expectativa de recuperação operacional após os impactos climáticos observados na safra 2025/26”, pontuou a Jalles, em seu balanço.

Ainda para a nova safra, o TCH deve apresentar avanço de 8%, atingindo 80,4 toneladas por hectare. A alta é esperada por uma melhora das condições climáticas, maior volume de chuvas e por “ganhos agronômicos decorrentes dos investimentos realizados nos últimos ciclos”.

O mercado olhou para o quarto trimestre

O recorte de janeiro a março foi significativamente mais fraco. A receita líquida caiu 25,4%, para R$ 487,8 milhões, e o prejuízo líquido foi de R$ 50 milhões, quase cinco vezes maior que o visto no mesmo período da safra anterior. A margem bruta mergulhou de 9,4% positivo para 12,7% negativo.

Esse desempenho mais fraco no trimestre parece explicar a reação negativa das ações hoje na B3. Mesmo com o guidance projetando recuperação operacional para a nova safra, as ações JALL3 recuavam 6,30% no iníco desta tarde.

Para o Itaú BBA, os números vieram em linha com as expectativas. O banco destacou que o principal ponto positivo do balanço foi justamente o guidance para a safra 2026/2027, que prevê uma necessidade de investimentos ligeiramente menor do que o esperado e compensa uma pequena revisão negativa nas estimativas de Ebitda.

Os analistas liderados por Bruno Tomazetto escreveram que a alavancagem de 1,3 vez e o perfil dos vencimentos são "confortáveis".

Ainda assim, o Itaú BBA vê um ambiente setorial menos favorável, com o potencial de alta do etanol limitado por medidas de alívio tributário nos combustíveis e preços do açúcar abaixo do custo de caixa em diversas regiões produtoras.

Na XP, a leitura também foi de um trimestre fraco, mas sem grandes surpresas. O analista Leonardo Alencar destacou a estratégia da Jalles de priorizar as vendas de etanol, enquanto posterga parte da comercialização de açúcar, movimento que levou os volumes de açúcar a recuarem 53% em um ano, para 86 mil toneladas no trimestre enquanto os volumes de etanol cresceram 5%, alcançando 87 mil metros cúbicos.

A instituição também ressaltou a geração de caixa livre acima do esperado e avaliou que o guidance para 2026/2027 veio ligeiramente abaixo de suas projeções, principalmente pela expectativa de menor produção de açúcar e um mix mais direcionado ao etanol.

Resumo

  • Jalles voltou ao lucro na safra 25/26, reduziu alavancagem e se apoiou em hedge para compensar menor moagem
  • Seca, calor, queimadas e geadas derrubaram a moagem em 10% e a produtividade agrícola em quase 12%
  • Para 26/27, companhia projeta recuperação operacional, vê TCH maior e prevê ampliar a produção de etanol em 18%