Enquanto diversas empresas do agronegócio vêm cambaleando nos últimos anos na bolsa, em meio a recuperações judiciais e condições muito adversas no mercado, a 3tentos se acostumou a navegar em mares bem mais tranquilos.
A empresa gaúcha que reúne atividades de trading de grãos, processamento de soja e biodiesel, além da comercialização de insumos agrícolas, seguiu crescendo mesmo no período em que os preços das commodities baixaram e o produtor ficou mais cauteloso.
O IPO da 3tentos ocorreu na “onda agro” de 2021, junto com outros nomes conhecidos. A Boa Safra Sementes, por exemplo, acumula queda de quase 60% no valor das ações nos últimos cinco anos. A Agrogalaxy, que também abriu capital no mesmo ano, mas entrou em recuperação judicial em 2024, viu suas ações caírem de R$ 150, para meros R$ 1,73, atualmente.
No mesmo período de cinco anos, a 3tentos acumula alta de 9%, indicador que estaria bem melhor na foto se não fosse o tombo dos últimos dois dias.
A maré desfavorável começou na terça-feira, com queda de 16% nas ações da empresa. Hoje o mercado seguiu desvalorizando os papéis da companhia, que recuaram mais 3,52%. Em dois dias a queda acumulada é de 19%, com a ação deixando o patamar de R$ 15 na segunda-feira, para R$ 12,35, nesta quarta.
Mas quais seriam os motivos para tamanho pessimismo? Em fato relevante divulgado nesta quarta-feira, 29 de julho, a companhia dos irmãos Dumoncel confirmou que “membros de sua equipe de Relações com Investidores realizaram, no dia 28 de julho de 2026, reuniões com analistas de sell-side de instituições financeiras que acompanham a 3tentos”.
O texto destaca que são reuniões habituais, realizadas periodicamente “como qualquer companhia aberta”, ao responder um questionamento da CVM (Comissão de Valores Mobiliários).
A empresa garantiu que as reuniões seguem as melhores práticas de governança exigidas pela CVM, “em especial do princípio de tratamento equitativo e simétrico das informações a todos os participantes do mercado”.
Entre os agentes de mercado, a suspeita é que alguns desses analistas tenham se surpreendido com o cenário mais volátil – e de preços mais baixos – em produtos importantes na pauta da 3tentos, como o biodiesel e o farelo de soja. Devido a importância do pilar da indústria nos negócios da companhia, passaram a enxergar um cenário mais pessimista.
“A companhia não forneceu dados ou indicações específicos sobre seu desempenho operacional ou financeiro que não tivessem sido previamente divulgados ao mercado, tampouco apresentou novas projeções, de modo que eventuais conclusões dos analistas a esse respeito, decorreram exclusivamente de sua própria análise, com modelagem, premissas e assunções próprias de analistas independentes”, ressaltou o texto do comunicado.
Na espera do B16 e de olho no esmagamento
Um dos pontos de atenção na 3tentos é a demora por parte do governo de implementar o cronograma previsto na Lei Combustível do Futuro. Atualmente, o Brasil opera com o B15, ou seja, o diesel vendido nas bombas contém 15% de biodiesel na mistura.
A expectativa era passar ao B16 no mês de março, o que não ocorreu. No ano passado, a mudança para o B15 também não veio em março, mas acabou implementada em agosto. Este ano, a situação é diferente. Com setores ainda contrários na indústria automobilística e no próprio governo, fala-se em mais estudos para chegar ao B16, mas já está claro que a mudança não ocorrerá em agosto.
Para as empresas produtoras de biodiesel, essa realidade significa mais oferta de produto e pressão nos preços. Houve momentos em que o farelo de soja subiu mais que o esperado, compensando a perda no óleo de soja que viraria biodiesel. Mas agora a commodity também vem mostrando desvalorização.
Em reportagem recente, o AgFeed mostrou que outro importante player do setor de biodiesel, a Potencial Agro, do Paraná, já cogita desacelerar o cronograma de seu plano de expansão, em função do mesmo problema. Os empresários alegam que fica cada vez mais difícil manter planejamentos de longo prazo à medida que as políticas públicas nem sempre são aplicadas conforme o previsto.
Segundo cálculos do setor, se tivesse entrado em vigor este mês o B16, haveria uma demanda extra de 500 milhões de litros de biodiesel, que poderia ultrapassar 11 bilhões de litros no ano.
Na 3tentos, o pilar da indústria, que inclui o processamento de soja e a fabricação do biodiesel representa mais de 40% da receita da empresa. Por isso, quando as margens de esmagamento ficam apertadas e desfavoráveis, há um sinal de alerta para investidores.
Este foi um dos temas em destaque em relatório divulgado pelo BTG Pactual nesta quarta-feira.
“Os dados do setor apontam para uma deterioração moderada e sequencial da rentabilidade do esmagamento durante o trimestre, principalmente em razão dos preços mais baixos do biodiesel. Com isso, a contribuição implícita teria recuado de aproximadamente R$ 550 para R$ 500 por tonelada de soja esmagada”, diz.
Para a companhia gaúcha, no entanto, o BTG afirma esperar que a contração das margens seja “mais acentuada do que os spreads do setor, isoladamente, sugeririam”.
O banco projetou lucro bruto de R$ 372 por tonelada no segmento Industrial, queda de 24% na comparação trimestral, equivalente a uma margem bruta de 14,6%.
Se considerados os valores na moeda americana, o BTG sugere que o lucro bruto de US$ 106 por tonelada registrado no primeiro trimestre de 2026, poderá cair para US$ 75. Isso traria uma redução de R$ 100 milhões no lucro.
Apesar dos alertas, o banco manteve a recomendação de compra para as ações da 3tentos e o preço alvo em R$ 26.
A avaliação é que a margem Ebitda no segundo trimestre poderá cair para o nível mais baixo desde 2024.
“Ainda assim, acreditamos que não há motivo para concluir que essa deterioração seja estrutural”, diz o relatório. Sendo assim, o banco mantém previsões otimistas para 2027, especialmente.
Na mesma linha, o Citi fez uma análise sobre a situação da 3tentos. O preço-alvo da ação foi revisado de R$ 20 para R$ 17, mas foi mantida a recomendação de compra.
O banco também espera um resultado mais fraco no segundo trimestre na comparação anual, principalmente pela queda nos preços do biodiesel e do farelo de soja.
Mas a diversificação dos negócios da 3tentos mais uma vez ajuda a manter boas perspectivas. O Citi prevê crescimento na receita e no volume comercializado tanto nos insumos agrícolas quanto nos grãos. Há previsão de ganhos de participação de mercado da companhia com a abertura de lojas em outras regiões
Resumo
- Ações da 3tentos caíram pelo segundo dia consecutivo, fecharam em R$ 12,35, acumulando baixa de 19%
- Analistas apontam uma possível piora nos resultados da empresa relacionados ao esmagamento de soja e produção de biodiesel
- Apesar de prever uma margem Ebitda menor no segundo trimestre, instituições como BTG e Citi mantiveram a recomendação de compra para os papeis da empresa