Bebedouro (SP) - Na abertura da Coopercitrus Expo 2026, o presidente da cooperativa, Fernando Degobbi, citou uma das missões da organização ao celebrar seus 50 anos de história: começar a construir os próximos 50.

A resposta para esse desafio estava espalhada pela própria feira. Alguns ainda cursam faculdade. Outros acabaram de se formar. Têm entre 20 e poucos anos, cresceram dentro de propriedades rurais e agora começam a ocupar um espaço diferente daquele de apenas acompanhar os pais, tios e avós nas lavouras.

São eles que a Coopercitrus tenta preparar para assumir, nos próximos anos, não apenas as fazendas das famílias, mas também posições de liderança dentro da própria cooperativa.

É essa a proposta da Liga Jovem Coopercitrus, programa criado neste ano para aproximar filhos, sobrinhos, netos e outros familiares de cooperados da realidade da gestão rural, do cooperativismo e das novas tecnologias que vêm transformando a agricultura.

A ideia é tentar sanar a "principal pedra no sapato do produtor rural a nível global", segundo palavras do próprio presidente do conselho de administração da Coopercitrus, Matheus Marino, que também é um dos entusiastas da Liga: a sucessão.

Segundo ele, a cooperativa decidiu assumir um papel ativo nesse processo. A estratégia passa por oferecer estágios em mais de 70 unidades, aproximar esses jovens de diferentes perfis de produtores e apresentá-los a tecnologias como agricultura digital, drones, imagens de satélite, robótica e algoritmos, ferramentas que, muitas vezes, despertam mais interesse nas novas gerações do que a atividade agrícola tradicional.

"A cooperativa pode complementar a escola do associado. Quando esse filho ou neto passa por aqui, conhece outras culturas, outras tecnologias e outras realidades. Ele volta para casa encantado com o agro", afirmou.

Além de estudantes de agronomia, a Liga também incentiva a participação de universitários de outras áreas: administração, direito, geografia e veterinária são alguns cursos que estão presentes no projeto.

Segundo Marino, essa nova geração reflete a própria diversidade da base de cooperados da Coopercitrus. Há filhos e netos de grandes grupos do agronegócio, mas também jovens vindos de pequenas e médias propriedades espalhadas pelos estados onde a cooperativa atua.

Durante o encontro da Liga, por exemplo, estavam presentes desde integrantes da família Colombo, uma das maiores produtoras agrícolas do País, até famílias de produtores médios e pequenos associados. "Tem de todos os perfis, de todas as culturas e de todas as regiões. É justamente essa diversidade que faz a troca ser tão rica", afirmou.

A iniciativa é tratado como estratégico pelo conselho de administração. A meta é reunir cerca de 3 mil integrantes já no primeiro ano de funcionamento, disse Marino.

Para Luísa Lian, de 22 anos, a estratégia faz sentido porque se confunde com a própria história da família.

Produtora de citros de quarta geração e hoje parte de uma família que cultiva 1,5 mil hectares com laranjais, ela cresceu ouvindo como o bisavô, o imigrante libanês Issa Lian, chegado no Brasil como mascate, iniciou os primeiros pomares da família na região de Bebedouro. Depois vieram o avô, que deixou uma carreira como dentista para assumir o negócio, e o pai, que fez o mesmo ao abandonar a advocacia.

Com ela, a sucessão quase tomou outro rumo. "Eu pensava em cursar publicidade, porque sempre gostei de comunicação. Mas acompanhando meu pai nas fazendas eu percebi que não tinha como fugir das minhas raízes", contou ao AgFeed a recém-formada - há três semanas - em engenharia agronômica.

A escolha pela agronomia enfrentou resistência dentro de casa, ela conta. "Houve um pouco de preconceito, talvez pelo machismo do setor, mas eu sempre dizia que queria ser igual ao meu pai, que chegava em casa com a caminhonete cheia de terra e as botinas sujas quando eu era criança".

Luisa ainda não ingressou oficialmente na empresa da família, a Lian Citrus. Antes disso, cumprirá uma exigência: trabalhar primeiro fora da propriedade para ganhar experiência.

Nesse caminho, a Coopercitrus acabou se tornando parte da formação. Ela participou do programa Jovem Cooperado, realizou estágios de férias, passou seis meses na cooperativa durante a graduação e hoje lidera a comunicação da Liga Jovem.

João Delgado, de 21 anos, vive uma realidade diferente, mas compartilha do mesmo objetivo. Sobrinho-neto de um produtor de laranja de Bebedouro, ele ainda está mais distante como sucessor da propriedade da família. Mesmo assim, escolheu cursar engenharia agronômica para manter essa possibilidade aberta e hoje atua como vice-líder de comunicação da Liga.

Ao contrário da história vivida por Luísa, a sucessão em sua família não seguiu uma linha contínua. O tio-avô não possui filhos envolvidos diretamente na atividade, e outros parentes acabaram construindo carreiras fora do agronegócio. É justamente esse cenário que faz João enxergar na formação e na participação na Liga uma oportunidade de manter vivo o legado da família.

"O agro é encantador. A gente produz alimento para milhares de pessoas. Isso foi o que me fez escolher esse caminho", afirmou.

Um caminho tecnológico

Para ambos, um dos maiores papéis da nova geração será acelerar a adoção de tecnologias dentro das propriedades.

Nas fazendas da família, Luísa Lian diz já ter conseguido convencer o pai a utilizar ferramentas que conheceu durante os estágios na cooperativa, como análises digitais de solo, além da ampliação do uso de drones, irrigação automatizada e sistemas de energia solar.

"O meu pai já veio com uma cabeça mais aberta que a do meu avô. Ainda tem coisas que ele acha que não precisa, mas a gente vai mostrando aos poucos". Já João Delgado observa movimento semelhante entre colegas da faculdade de agronomia.

"Tem amigos que convenceram os pais depois de mostrar, na prática, que um drone reduzia custo, diminuía o tempo de operação e fazia uma aplicação mais eficiente. Depois que viram funcionando, mudaram de ideia", conta.

É justamente essa troca que Marino, presidente do conselho da Coopercitrus, considera mais importante. Segundo ele, o debate sobre sucessão costuma olhar apenas para a visão dos pais e avós, quando o processo também exige compreender o que motiva quem está chegando.

"Hoje a gente quer ouvir o jovem. Entender o que encanta essa geração, o que ela espera do agro e como podemos aproximar essas expectativas da realidade das famílias", contou.

"A Coopercitrus tem uma área digital muito intensiva. Trabalhamos com imagem de satélite, robótica, drones, algoritmos e isso atrai os jovens. A partir do momento que eu trago os jovens dentro da cooperativa, ele conhece mais do negócio agro, conhece que o agro é pura tecnologia. Ele volta pra casa com outra cabeça", afirmou.

Essa foi justamente a proposta da primeira plenária da Liga Jovem, realizada durante o segundo dia da Coopercitrus Expo.

O encontro reuniu dezenas de jovens de famílias cooperadas e teve como convidado Jorge Nishimura, filho do fundador da Jacto, empresa frequentemente apontada como uma referência em planejamento sucessório no agronegócio brasileiro.

Ao falar sobre a experiência da companhia, ele defendeu que a sucessão deixou de ser um processo em que apenas os mais velhos ensinam os mais novos.

Para Nishimura, a construção desse futuro passa por uma relação de mão dupla: ao mesmo tempo em que a experiência acumulada pelas gerações anteriores precisa ser transmitida, os líderes também devem estar dispostos a aprender com quem nasceu em um ambiente digital e chega ao campo com outra visão sobre tecnologia, comunicação e gestão.

O executivo chamou esse processo de "mentoria reversa", em que profissionais mais experientes assumem a posição de aprendizes para compreender novas ferramentas, formas de trabalho e até diferentes maneiras de enxergar os negócios. "A geração Z é muito boa. O desafio é aprender a criar pontes entre as gerações", resumiu.

Resumo

  • Liga Jovem mira reunir 3 mil participantes e preparar filhos e netos de cooperados para liderar propriedades e a própria Coopercitrus
  • Cooperativa aposta em estágios, formação e tecnologia para aproximar a nova geração da gestão das propriedades rurais
  • Filha de citricultores e sobrinho-neto de produtor contam como decidiram seguir carreira no agro e assumir o legado familiar

Luísa Lian, quarta geração de citricultores e uma das líderes da Liga Jovem Coopercitrus