Nos dias mais aquecidos do ano em vendas de insumos, a Coopercitrus bateu a meta. A cooperativa com sede em Bebedouro (SP) movimentou mais de R$ 2 bilhões em negócios realizados no entorno da semana da sua feira dedicada aos cooperados, a Coopercitrus Expo.

As negociações se iniciaram antes do evento, percorreram a última semana de agosto com os apertos de mão in loco e se estenderam para os primeiros sete dias de setembro. O timing do evento e das negociações ajuda, pois em poucas semanas os produtores - em especial de grãos - irão iniciar o plantio de soja em todo o País.

A ideia de fazer negócios antes e depois do evento serve para abarcar todos os 42 mil cooperados espalhados pelo País, vendendo sementes, máquinas, fertilizantes e defensivos, e não só os 23 mil que foram em pelo menos um dia do evento.

A Coopercitrus Expo reuniu mais de 130 expositores, movimentou 81 ônibus com produtores cooperados e familiares e ainda distribuiu, durante os cinco dias de evento, mais de 5 mil litros de suco de laranja.

A projeção era bater R$ 2 bilhões em negócios, e os sinais de que a meta seria batida já apareciam antes mesmo da Coopercitrus Expo se iniciar - e continuaram a aparecer nos primeiros dias de negócio.

Segundo documento divulgado pela cooperativa, os fertilizantes tiveram papel relevante no volume negociado, mas a Coopercitrus ainda destacou as vendas para os setores de nutrição animal, defensivos agrícolas, sementes, produtos biológicos e especialidades completando o movimento comercial observado durante a "campanha" que durou as três semanas.

Na sexta-feira dia 24 de agosto, antes do início do evento, Fernando Degobbi, diretor-presidente da Coopercitrus, disse ao AgFeed que R$ 800 milhões já haviam sido negociados em conversas prévias, e na terça-feira, 28, revelou que a feira bateu o primeiro bilhão, um ritmo 30% mais acelerado frente ao que a cooperativa havia negociado na terça- feira da edição passada.

Naquele dia, em conversa com a reportagem, o presidente do conselho da cooperativa, Matheus Marino, citou que os setores mais aquecidos em vendas eram insumos e máquinas, setores que representam em torno de 70% das vendas da feira.

"As negociações foram boas. O fertilizante é o carro-chefe e está puxando todos os outros setores. Nos defensivos, o produtor ainda está um pouquinho 'da mão para a boca", afirmou em conversa que ocorreu ao final do segundo dia de evento.

Para além das condições comerciais trazidas para a feira, Marino relembrou que o calendário para as compras de adubos se apertou, considerando principalmente as aquisições para a safra de grãos 26/27. "O produtor não comprou, esperou, esperou e agora está, não dá para não comprar". Apear de ainda ver os defensivos mais atrasados, afirmou que as chuvas de julho aqueceram as vendas de herbicidas. 

A venda de máquinas também surpreendia Marino até aquele momento, que destacou que esse é um investimento de mais longo prazo. "Estávamos pessimistas mas está rodando bem os negócios. O mercado andou bem".

O principal desafio para essa safra, segundo Marino, continua sendo o crédito. Na conversa, disse que os bancos recuaram, e que a Medida Provisória sobre renegociações de dívidas rurais, apesar de já ter sido publicada, apesar de ajudar, ainda traz muitas dúvidas sobre a execução.

Na terça, a feira sediou uma plenária com a FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária) para falar sobre o tema, e o que se viu foi mais suposições do que certezas quanto ao funcionamento do texto na prática.

"Eu senti que nem eles ainda têm muito bem claro como viabilizar. Aparentemente vai se dar por laudos técnicos que comprovam a queda de produtividade e de receita. Só que aí temos diversos perfis de agricultor, diversas taxas de juros, diversos níveis de redução de rentabilidade... Então isso tudo tem que ficar mais claro de como operacionalizar e alongar essa dívida", afirmou Marino.

Para além dos insumos tradicionais, a feira também serviu para a venda de tecnologias como drones e agricultura de precisão. Marino cita que, diferente de edições passadas, o tipo de conversa mudou.

"O mercado já assimilou essas tecnologias, então o produtor não precisa mais ver a demonstração, ele já vai para o estande para negociar. A visitação está boa, com menos conversas e mais negócio. Claro que, em momentos mais desafiadores como esse, é natural que o agricultor busque tecnologia mais básica. Só que cabe ao nosso time mostrar para ele o custo-benefício", afirmou.

Já projetando a edição 2027, o presidente do conselho de administração da Coopercitrus contou que, há poucos meses, passou 15 dias na China de olho em inovações que podem ser trazidas aos cooperados daqui para frente.

Automatização e robótica foram os temas que mais chamaram a atenção do executivo, que citou máquinas de pequeno porte que não demandam pilotos, tratores híbridos e sistemas de pulverização mais modernos. Ele afirmou que a cooperativa já está estudando quais tecnologias trazer para o País, e que algumas já podem pintar nos estandes daqui um ano.

20% do ano já foi

No ano passado, a Coopercitrus registrou receita de R$ 9,3 bilhões, avanço de cerca de 10% sobre o ano anterior. Para 2026, projeta repetir um crescimento semelhante, o que levaria a receita para a casa dos R$ 10 bilhões.

Nesse sentido, a feira corresponde a 20%, ou 1/5 de toda a receita da cooperativa no ano. Isso ocorre porque, diferente de outros eventos similares, é a própria Coopercitrus que é a responsável pelos negócios que acontecem nos dias de evento, atuando como uma representante ou intermediária dos parceiros que lá expõem suas tecnologias.

Apesar de a feira acontecer em um momento chave para a safra de grãos, a base dos cerca de 42 mil cooperados é diversa. Degobbi cita, por exemplo, que são 10 mil produtores de cana, 8 mil cafeicultores, 8 mil pecuaristas e mais de 3 mil citricultores dentre os associados.

Questionado se alguma cultura se destacou nos negócios, disse que as compras estavam proporcionais, mas ressaltou duas culturas em específico puxando o crescimento projetado pela cooperativa no ano: café e pecuária.

Segundo Degobbi, a operação de ração animal, que conta hoje com cinco fábricas, deve somar R$ 500 milhões em faturamento em 2026.

Ele salientou ainda sobre a integração dos negócios da cooperativa. "Nós compramos, por exemplo, 100 mil toneladas de milho dos cooperados, processamos nas fábricas e isso volta como ração para o produtor que vai usar na pecuária, é um ciclo que mantém o cooperado no ecossistema", disse.

A área de milho verão, inclusive, deve subir 10% nessa safra, segundo projeções do presidente - movimento que impulsionou as vendas de sementes de milho durante a Expo, principalmente ligado à silagem e, consequentemente, à pecuária de corte.

Já em relação ao café, Fernando Degobbi cita que a cooperativa deve, neste ano, comercializar um milhão de sacas, com forte atuação na exportação: cerca de 100 mil sacas.

Dessas todas, citou que semana passada fez o primeiro embarque, de 5 mil sacas, de café dos cooperados para o Japão.

"A gente vem crescendo na movimentação com café e ampliando a nossa estratégia de ser um exportador. A maior parte do café que a gente compra a gente vende para operadores ou traders que operam no Brasil e eles exportam", disse.

Atenção no crédito

O desafio do crédito, apontado por Matheus Marino como um dos principais entraves da safra, ajuda a explicar por que a Coopercitrus vem ampliando o papel da Fincoop dentro do seu ecossistema de negócios.

Criada para concentrar as operações financeiras da cooperativa, a empresa não atua como banco, mas como uma plataforma que conecta produtores a diferentes fontes de recursos, organiza a análise de crédito e estrutura as operações de financiamento utilizadas nas compras realizadas dentro da própria cooperativa.

Segundo Fernando Degobbi, esse modelo de "intercooperação" já intermediou quase R$ 1 bilhão em operações nos últimos anos, conectando parceiros como a Credicitrus e outras instituições financeiras aos cooperados.

"A Fincoop não tem um funding próprio. O que ela faz é conectar as ofertas do mercado. Ela faz esse meio de campo. Tem a tecnologia e a plataforma para fazer essa conexão", explicou.

Além da originação de crédito, a Fincoop também concentra a corretora de seguros da cooperativa, criada em 2021. Em cinco anos de operação, a empresa emitiu 16,5 mil apólices, movimentou R$ 93,3 milhões em prêmios, registrou mais de 2,5 mil sinistros e pagou R$ 24,8 milhões em indenizações.

"A corretora opera com todos os seguros que o produtor precisa. A gente começou também a desenvolver seguros paramétricos, de clima, para atender realmente demandas mais específicas", afirmou Degobbi.

Resumo

  • Coopercitrus confirma otimismo e bate mais de R$ 2 bilhões em negócios em momento chave no início da safra
  • Cooperativa vê crédito como principal desafio da safra e amplia papel da Fincoop para conectar produtores a diferentes fontes de financiamento
  • Coopercitrus aposta em café, pecuária e integração da cadeia para sustentar meta de faturar cerca de R$ 10 bilhões em 2026