O empresário Paulo de Castro Marques tem intimidade com grandes números e mercados. No seu lado “empresário urbano”, como ele mesmo define, é sócio da Biolab, uma das maiores indústrias farmacêuticas do País, com receita anual superior a R$ 3 bilhões.

Ele prefere, entretanto, ser reconhecido como o “empresário rural” à frente da Casa Branca Agropastoril, marca que ganhou holofotes recentes por ter em seu plantel as vacas nelore recordistas mundiais de valor de mercado.

Uma delas, a Viatina-19 FIV da Mara Móveis, foi a primeira brasileira a entrar para o livro dos recordes Guinness como a mais valiosa do mundo, com avaliação de R$ 21 milhões

Em novembro passado, outro animal de sua criação, a vaca Donna, foi avaliada em R$ 54 milhões em um leilão, sendo atualmente a vaca mais cara do planeta.

Nos últimos anos, Marques vem colecionando títulos de melhor criador nas grandes exposições da raça, como a Expozebu. Mas somente o trabalho com a chamada pecuária de elite, voltada para a produção dos milionários animais de pista, não satisfaz sua ambição – nos negócios e no sonho de deixar uma marca mais relevante na pecuária brasileira.

Neste mês de agosto, Marques lança a Casa Branca em direção a um novo mercado, bem maior e mais impactante: o da produção de touros reprodutores provados para trabalho a campo.

“A pecuária brasileira tem um déficit de 150 mil touros por ano”, estima, em entrevista ao AgFeed, revelando a dimensão da oportunidade que vislumbra para o projeto embalado no Programa Casa Branca de Seleção de Touros Nelore PO, que será apresentado durante a ExpoGenética, outro dos grandes eventos do setor, que acontece em Uberaba (MG).

Com quase três décadas de atuação na pecuária, Marques vinha preparando cuidadosamente esse novo passo com a expectativa de lançá-lo oficialmente somente dentro de alguns anos. Mas acabou antecipando o projeto depois que o acaso bateu à sua porta.

No ano passado, a JBJ Investimentos, holding do empresário José Batista Júnior (o Júnior Friboi, ex-presidente da JBS), comprou a centenária Fazenda Ressaca, em Cáceres (MT), dos irmãos Pedro e Alexandre Grendene.

A transação, envolta em sigilo e estimada em mais de R$ 600 milhões, transferiu os 37,5 mil hectares de uma propriedade que era, segundo o próprio site da Nelore Grendene, o coração do “maior projeto de genética PO do Brasil”.

Após a aquisição, a JBJ optou por mudar os rumos da seleção genética praticada na propriedade e decidiu se desfazer de parte do plantel da Nelore Grendene — um rebanho construído ao longo de mais de três décadas.

Foi aí que Marques enxergou a oportunidade de encurtar, em anos, o caminho para um projeto que já desenhava. Ele agiu rápido e em silêncio, adquirindo 300 fêmeas e 5.063 embriões congelados dos mais vitoriosos acasalamentos da Nelore Grendene.

Os embriões foram implantados em receptoras durante a última estação de monta, e a expectativa é ter cerca de 1.700 crias já em 2026. Ao todo, o projeto conta atualmente com aproximadamente 550 fêmeas — das quais, segundo avaliação de consultores, ao menos 100 a 150 teriam “perfeitas condições de serem doadoras” para multiplicação genética acelerada.

“Com essa possibilidade da Grendene, acabei fazendo uma boa negociação e consegui trazer animais que deram uma robustez ao projeto que eu levaria alguns anos para conseguir”, afirma Marques. “Ganhei muito tempo com isso, sem sombra de dúvida”.

Mais do que tempo, a aquisição levou para a Casa Branca atributos que Marques considera valiosos na nova empreitada. Segundo ele, um dos pontos fortes da construção de plantel desenvolvida pela Grendene é a pluralidade da genética.

“Eles não ficavam só numa determinada base ou num determinado tipo de animal. Conseguiam fazer com maestria o cruzamento entre as várias linhagens existentes no mercado”, resume.

Marques aplica a mesma receita na Casa Branca. Antes de investir na base da Grendene, ele vinha fazendo aquisições pontuais de genética de outros criadores de peso, como Katayama, Lemgruber e JMP, todas voltadas para características produtivas.

De volta para a roça

A entrada de Marques na pecuária de produção de touros não é um movimento isolado, mas a evolução natural de uma trajetória que combina duas pontas: a indústria farmacêutica e o melhoramento genético.

Ele conta que aprendeu a gostar da vida no campo ainda menino, quando vivia em Uberlândia e seu pai o levava à fazenda onde produzia leite com vacas da raça girolando.

O negócio de medicamentos também é fruto de outra empreitada do pai, que os vendia pelo interior de Minas Gerais. Em uma entrevista ao podcast MFC, do MF Rural, Marques disse que passou a infância entre tanques de maceração de ervas e a rotina de dobrar bulas de remédio para a produção do dia seguinte.

“Se quiséssemos assistir televisão à noite, tínhamos que dobrar bulas. Em média, dobrávamos mil bulas por noite”, relatou.

“Quando tive a oportunidade de voltar para a roça, não pensei duas vezes”, afirma ele hoje. “Consegui trazer meus dois filhos junto, o que fortalece muito a minha posição, facilita muito o meu trabalho, porque eles também são apaixonados nisso”.

A Casa Branca Agropastoril foi criada em 2000, inicialmente voltada à produção das raças Simental e Angus — com genética importada do Canadá e, depois, da África do Sul.

Mais tarde, veio o Brahman, buscando uma opção de zebu que aliasse qualidade de carcaça à adaptação tropical.

Além do brilho dos leilões

A raça que lhe deu a maior vitrine, entretanto, foi a última a ser incorporada nas suas operações. A incursão pelo universo do Nelore, que hoje concentra cerca de 80% do rebanho nacional, só foi intensificada nos últimos cinco anos.

Foi tempo suficiente para que a Casa Branca se colocasse na elite da pecuária de elite. E também para que Marques visse que a grande riqueza desse mercado não estava no brilho dos leilões.

“Dois anos atrás percebi que o grande mercado é a produção de carne, oferecer genética para quem quer produzir mais, melhor, em menos tempo e em menor espaço”, diz.

Desde então, ele vem investindo pesado na formação do programa de touros. No estilo mineiro, ele desconversa sobre valores. “Um bom dinheiro, um bom dinheiro. É difícil falar o valor, porque até eu às vezes tenho que parar para fazer conta. Mas são alguns milhões de reais, desde a montagem da estrutura, contratação de gente, preparação e tudo mais”.

Dentro do projeto, diz, a Casa Branca aplica uma avaliação zootécnica rigorosa. Para isso, na fazenda do grupo em Minas Gerais foram instalados cochos e balanças para medir ganho de peso diário, consumo residual e conversão alimentar.

Quatro vezes por ano, especialistas vão até a propriedade para realizar mensurações de qualidade de carcaça, marmoreio e área de olho de lombo por ultrassonografia.

Os dados alimentam um programa de avaliação genética que permite selecionar os animais com maior potencial de transmissão das características desejadas.

A Casa Branca opera cinco propriedades: quatro no sul de Minas Gerais e uma no Mato Grosso, com aproximadamente 25 mil hectares. O programa de touros Nelore PO será abrigado nessas unidades, com a fazenda mineira como centro do trabalho de seleção e a unidade mato-grossense como polo de multiplicação e venda direta.

Com a aceleração do processo, Marques estabeleceu um cronograma de metas que prevê ofertar em 2027 cerca de 500 reprodutores. A estabilização deve ocorrer em três anos, com volume entre 800 e 1.000 touros comercializados por ano.

Marques projeta seus touros na faixa de R$ 24 mil a R$ 26 mil por animal — preço que, segundo ele, reflete o cálculo do produtor comercial que “faz a conta”.

Segundo ele, o valor se explica não apenas pela genética dos animais, mas pelo serviço que os acompanha. “Estamos oferecendo qualidade e mostrando que existe toda uma retaguarda por trás dela”, afirma.

“Desde o começo do nosso projeto, tivemos uma preocupação muito grande com o nosso pós-venda. Meu interesse não é vender um touro, é vender continuamente para o mesmo criador, que ele venha buscar um esse ano, no ano que vem buscar dois…. E não é um criador só. O pequeno criador, mas também aquele que compra volume, que é o grande mercado.”

O programa é ambicioso, mas perto das dimensões do mercado, é um número até modesto. Se no mundo da pecuária de elite muitas vezes a vaidade de ter animais premiados na pista move mais que dinheiro, na de produção o empresário tem de se apoiar em números. E no Brasil eles são muito grandes.

“A base da pecuária de corte no Brasil é o Nelore e estamos falando aí alguma coisa em torno de 60 a 70 milhões de matrizes para um rebanho total na faixa aí de 180 a 190 milhões de animais”, recita Marques.

A maior parte desse rebanho, entretanto, ainda fica distante dos programas de melhoramento genético, que colocam no mercado brasileiro menos de 80 mil reprodutores de corte por ano — muito aquém da necessidade estimada, que supera 200 mil touros anuais.

Por isso, muitos pecuaristas, especialmente de pequeno e médio porte, ainda utilizam machos sem nenhuma avaliação genética para cobertura.

Marques acredita que, com a genética que estará “embarcada” nos touros a serem comercializados pela Casa Branca é capaz de produzir um impacto relevante na produção de seus compradores.

Seu objetivo, segundo diz, é que ela permita “ganhar quase que meio ciclo” na produção de animais para o abate. “Hoje o animal tem que estar pronto para ser abatido, na faixa de 20 meses, 22 meses no máximo”, explica. Com menos tempo, a eficiência da produção e a rentabilidade do pecuarista aumentam de forma expressiva.

A Casa Branca opera cinco propriedades: quatro no sul de Minas Gerais e uma no Mato Grosso, com aproximadamente 25 mil hectares. O programa de touros Nelore PO será abrigado nessas unidades, com a fazenda mineira como centro do trabalho de seleção e a unidade mato-grossense como polo de multiplicação e venda direta.

Os próximos passos do projeto incluem dois leilões ainda em 2026 — um em setembro e outro em novembro — para comercialização de embriões congelados, em parceria com uma central de embriões que garante a implantação com taxa mínima de sucesso. O primeiro leilão virtual de touros está previsto para abril ou maio de 2027.

Resumo

  • Dona das vacas mais valiosas do mundo, Casa Branca Agropastoril, de Paulo da Costa Marques, lança programa para produzir touros Nelore PO
  • Novo negócio do empresário mira mercado com déficit de cerca de 150 mil reprodutores por ano na pecuária brasileira
  • Projeto ganhou escala após a compra de 300 fêmeas e 5.063 embriões da Nelore Grendene e prevê ofertar até 1.000 touros por ano a partir de 2029