A Jalles até teve uma receita menor, mas o hedge salvou a lavoura, e a empresa encerrou o trimestre no azul. Em síntese, essa é a foto do balanço referente ao terceiro trimestre do ano safra 2025/26 da companhia - período de outubro a dezembro de 2025 - que foi divulgado na véspera.
A companhia apresentou um faturamento líquido de R$ 515,3 milhões (baixa de 30,4% em um ano), reflexo de uma menor moagem impactada pelo clima e por queda na produtividade, além de menor comercialização de açúcar - com preços internacionais pressionados.
"Mesmo diante de um ambiente de preços globais mais desafiador, permanecemos convictos na resiliência do nosso modelo de negócios", afirmou a Jalles no balanço. A última linha do documento, contudo, trazia um lucro líquido de R$ 55,4 milhões, revertendo um prejuízo de R$ 73,5 milhões no mesmo trimestre na safra passada. O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação) ajustado foi de R$ 346 milhões, queda de 10% em um ano.
A empresa teve um resultado financeiro positivo em R$ 18,5 milhões. No ano passado, o indicador ficou no vermelho, com R$ 273 milhões negativos. Como destacou o analista da XP, Leonardo Alencar, em relatório, o impacto se deu pela estratégia de hedge da empresa.
"A Jalles apresentou resultados fracos, conforme esperado. No entanto, veio acima das nossas expectativas, impulsionado pela estratégia assertiva de hedge, enquanto o lucro líquido caixa superou significativamente nossas estimativas devido ao efeito mencionado de hedge e às despesas financeiras menores do que o esperado", escreveu.
No terceiro trimestre, os instrumentos de proteção (marcação a mercado e liquidação de contratos) geraram efeito positivo de R$ 41,9 milhões. No acumulado dos nove primeiros meses da safra 25/26 (abril a dezembro), o hedge somou R$ 267,3 milhões, uma alta de 182% frente ao mesmo período do ciclo anterior.
Na safra passada, a companhia sofreu com efeitos adversos de marcação a mercado e variações cambiais, o que pressionou fortemente o resultado financeiro. Neste ciclo, a posição travada de preços - especialmente em açúcar e câmbio - permitiu capturar ganhos justamente em um momento de queda das cotações internacionais.
A companhia ainda informou que já fixou 336 mil toneladas de açúcar para a safra seguinte, a um preço médio de R$ 2,47 mil por tonelada, o equivalente a cerca de 75% do volume esperado até o momento. A Jalles destacou que há espaço para ampliar o percentual hedgeado, a depender do mix de produção, especialmente em um cenário mais alcooleiro.
No campo operacional, a empresa moeu, até dezembro, 7,076 milhões de toneladas de cana, queda de 10,1% em relação ao mesmo período do ciclo anterior. No terceiro trimestre, a moagem somou 964,3 mil toneladas, retração de 27,9% na comparação anual.
Segundo a empresa, o desempenho foi impactado por “menor volume de chuvas observado no período de fevereiro e março da entressafra anterior” e por “matocompetição nas áreas orgânicas da unidade Jalles”, o que comprometeu a produtividade agrícola.
A produtividade medida em toneladas de cana por hectare (TCH) recuou 13,5% no trimestre, para 59,2 t/ha. No acumulado da safra, o TCH caiu 11,9%, para 74,5 t/ha.
Já o ATR (açúcar total recuperável, que mede a qualidade da matéria-prima) médio do trimestre avançou 23,7%, para 164,3 kg por tonelada, ajudando a mitigar parcialmente os efeitos da menor moagem.
Do ponto de vista industrial, a companhia produziu, no trimestre, 51,7 mil toneladas de açúcar, queda de 32,5% ante o mesmo período da safra passada, e 61,3 mil metros cúbicos de etanol, retração de 7,3%.
Apesar da queda nos volumes, a empresa destacou que o terceiro trimestre manteve o direcionamento estratégico do mix para o etanol, que representou 65,8% da produção no período, ante 57% um ano antes. No acumulado da safra, o mix está em 53,6% para etanol e 46,4% para açúcar.
A Jalles já finalizou sua moagem, e sinalizou que isso foi feito de forma antecipada neste ano. A projeção é que isso ajude na entressafra, período em que as empresas sucroenergéticas realizam manutenções industriais e nos canaviais, visando um novo ciclo melhor à frente.
"A empresa segue com menor nível de estoque para esta entressafra em comparação ao ano anterior, mas esperamos nova desalavancagem ao longo do último trimestre da safra, à medida que esses estoques forem gradualmente vendidos", relembrou Alencar, da XP.
Também em relatório, o analista do Citi, Gabriel Barra, citou que os resultados vieram acima do esperado por ele, mas não vê nenhum catalisador positivo nos próximos meses por conta da tendência de queda nos preços do açúcar e do etanol.
Barra vê a Jalles aumentando a moagem na próxima safra, mas sem rendimentos atrativos. "Não identificamos nenhum fator relevante que possa impulsionar os preços do açúcar para cima no curto prazo. Dito isso, mantemos nossa recomendação neutra para as ações da empresa", afirmou.
No âmbito financeiro, a companhia encerrou dezembro com dívida líquida de R$ 1,83 bilhão, praticamente estável em relação ao mesmo período do ano anterior. Apesar disso, a alavancagem medida pela relação dívida líquida sobre Ebitda dos últimos 12 meses caiu para 1,2 vez, ante 1,5 vez um ano antes.
O movimento reflete a expansão do Ebitda acumulado em 12 meses, que somou R$ 1,55 bilhão, alta de 24,5% na comparação anual, além de uma gestão mais conservadora do caixa.
A empresa também destacou a melhora no custo da dívida. Em dezembro de 2025, o custo médio estava próximo do CDI, enquanto as aplicações financeiras rendiam CDI + 0,2%, o que, segundo a companhia, gerou “arbitragem positiva no carrego do caixa” e representou “um avanço histórico na estrutura financeira”.
O retrato do balanço impulsionava as ações da empresa durante esta tarde. Por volta das 17h, a ação JALL3 tinha valorização de quase 6%.
Resumo
- Jalles teve moagem 27,9% menor, recuo de 30,4% na receita e Ebitda ajustado 10% inferior, pressionada por clima adverso e menor produtividade agrícola
- O hedge foi decisivo para o resultado, gerando efeito positivo de R$ 41,9 milhões no trimestre e R$ 267 milhões no acumulado da safra, revertendo prejuízo anterior e sustentando lucro de R$ 55,4 milhões
- A dívida líquida ficou em R$ 1,83 bilhão, mas a alavancagem caiu para 1,2 vez com Ebitda maior em 12 meses; empresa já fixou 75% do açúcar da próxima safra