A onda de más notícias para a gigante do setor de açúcar, etanol e distribuição de combustíveis Raízen parece estar longe do fim.
Nesta segunda-feira, duas das principais agências internacionais de classificação de risco, a S&P e a Fitch, rebaixaram para “grau especulativo” os papéis da empresa.
O anúncio veio logo após a Raízen comunicar que contratou assessores financeiros e jurídicos, em fato relevante, divulgado mais cedo. O objetivo seria avaliar alternativas financeiras para otimizar sua estrutura de capital e liquidez.
A S&P Global Ratings rebaixou a classificação da Raízen de BBB- para CCC+ de ‘BBB-’. Também foram rebaixados os ratings em nível de emissão das notas sêniores sem garantia emitidas pela Raízen Fuels Finance para CCC+, que estavam em BBB-.
No texto, a agência afirma que “os sinais de enfraquecimento por parte dos acionistas e da administração em relação aos planos anunciados de capitalização e venda de ativos para endereçar a estrutura de capital da Raízen aumentam a probabilidade de uma reestruturação da dívida”.
A S&P também informou ter colocado os ratings da Raízen e de suas notas “em CreditWatch com implicações negativas”. Segundo a agência, essa inclusão reflete a possibilidade de um novo rebaixamento nos próximos meses, caso a empresa avance com uma reestruturação da dívida.
Já a Fitch também divulgou nesta segunda-feira a decisão de rebaixar de B para BBB- os os IDRs (Issuer Default Ratings - Ratings de Inadimplência do Emissor) de longo prazo em moedas Estrangeira e local da Raízen S.A e Raízen Energia S.A, fazendo o mesmo com as notas seniores sem garantia real da Raizen Fuels Finance S.A., com vencimento em 2027, 2032, 2034, 2035, 2037 e 2054.
A agência atribuiu ainda os Ratings de Recuperação RR4 a todos os instrumentos de dívida.A Fitch manteve os IDRs de Longo Prazo da Raízen de suas emissões internacionais em observação negativa e realizou a mesma ação nos ratings nacionais de longo prazo corporativos e nas emissões locais da companhia.
De acordo com o texto divulgado pela agência, as decisões “refletem a falha dos acionistas em realizar um aporte de capital relevante dentro do prazo definido quando os IDRs foram colocados em Observação Negativa, em outubro de 2025”.
Uma outra notícia negativa recente para a Raízen foi a prévia operacional, que mostrou uma queda de 25% na moagem de cana-de-açúcar do terceiro trimestre do ano-safra 2025/2026 (período de outubro a dezembro do ano passado).
No acumulado dos nove primeiros meses da safra atual, a moagem chegou a 70,3 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, também abaixo dos 77,5 milhões de toneladas da temporada anterior.
A Fitch mencionou que o desempenho operacional também está entre os motivos para o rebaixamento, assim como a posição de liquidez mais desafiadora.
A agência destaca que, em outubro do ano passado, acreditava em recuperação dos indicadores de crédito da Raízen. Agora, porém, afirma entender que “o aporte de recursos não ocorrerá no prazo adequado”.
Em função disso, a Fitch ressalta que a alavancagem da empresa permanece elevada, assim como o impacto dos juros, o que continua pressionando a geração de fluxo de caixa e a liquidez da Raízen.
A agência projeta índices de alavancagem bruta e líquida da Raízen em torno de 5,4 vezes e 5,0 vezes, respectivamente, nos próximos dois anos. Estes índices, compatíveis com a categoria de rating B, são elevados para o setor. Pelos cálculos da agência, a companhia tem R$ 10,5 bilhões de dívida vencendo nos próximos 18 meses.
“Se esta dívida for refinanciada com base nas taxas de mercado atuais, a flexibilidade financeira da Raízen se enfraquecerá ainda mais”, diz o texto.
A Observação Negativa também reflete incertezas quanto ao suporte dos controladores da Raízen — Cosan e Shell — e à capacidade da empresa de levantar recursos via venda de ativos ou aporte de capital no curto prazo. Segundo a Fitch, uma capitalização relevante poderia melhorar significativamente o perfil de crédito do grupo, mas esse cenário não está incorporado na avaliação atual.
A elevação do rating é considerada improvável no curto prazo e dependerá, segundo a agência, de uma redução consistente da alavancagem e de melhorias estruturais na posição financeira da companhia.
As duas agências consideram que a possibilidade da Raízen reestruturar sua dívida é um cenário de default. A S&P vê uma chance de recuperação de crédito das notes da Raízen entre 50% e 70%, enquanto a Fitch vê uma chance de recuperação entre 25% e 50%.
Em novembro de 2025, a agência Moody’s já havia reduzido a classificação da Raízen do nível ‘Baa3’, último patamar considerado como grau de investimento, para ‘Ba1’, primeiro piso na classificação de grau especulativo.
No fato relevante divulgado ao mercado nesta segunda, a Raízen informa apenas que iniciou um processo de contratação de assessores financeiros para a busca de “opções estratégicas voltadas ao fortalecimento da liquidez da companhia, otimização da estrutura de capital e interação com o mercado”.
Segundo o texto, os trabalhos são de “caráter preliminar e exploratório e não implicam, até o momento, na celebração de compromisso vinculante relacionado a eventual transação ou operação específica, a ser oportunamente considerada e deliberada pelos órgãos competentes da companhia”.
No mercado, as notícias não causaram impacto às cotações das ações da empresa, que passaram o dia com pequenas oscilações para cima e para baixo, mantendo-se próximas da faixa de R$ 0,84 observada na abertura do pregão.
Resumo
- S&P e Fitch rebaixaram o rating da Raízen para grau especulativo após a empresa anunciar a contratação de assessores financeiros, citando dificuldades para reduzir o endividamento.
- As agências apontam a ausência de um aporte relevante dos acionistas, desempenho operacional mais fraco e liquidez pressionada como principais fatores para o rebaixamento.
- Com alavancagem elevada e R$ 10,5 bilhões em dívidas vencendo em até 18 meses, a elevação do rating é considerada improvável no curto prazo. .