Enquanto algumas empresas do agro ainda enfrentavam diversos desafios financeiros em 2025, a 3tentos mais uma vez provou que sua diversificação, que envolve trading de grãos, revenda de insumos e agroindústria, é capaz de suportar ganhos consecutivos em receita e também nos lucros.
No balanço divulgado nesta quinta-feira, 5 de março, a empresa reportou uma receita líquida de R$ 16,4 bilhões de janeiro a dezembro de 2025, um avanço de 28,1% em relação ao ano anterior.
O lucro líquido no período também subiu 6,9%, chegando ao patamar recorde de R$ 808,7 milhões.
“Receita recorde, lucro recorde, capex recorde, é o ano dos 30 anos da 3tentos, então 2025 foi, sem dúvida nenhuma, um ano marcante. Ele só não vai ser melhor que 26, eu espero”, afirmou João Marcelo Dumoncel, CEO da 3tentos, em entrevista exclusiva ao AgFeed.
A expectativa otimista para o ano está relacionando aos investimentos que vêm sendo feitos pela empresa. “No maior capex da história” estão os aportes de R$ 1,7 bilhão feitos no ano, direcionados à expansão da capacidade de processamento de soja e produção de biodiesel, a abertura de novas lojas e construção da primeira indústria de etanol do grupo, no Vale do Araguaia, em Mato Grosso.
A usina de etanol deve começar a operar ainda no primeiro trimestre de 2026, o que deve reforçar a receita da companhia. Investimentos no aumento da capacidade em biodiesel levam em conta a expectativa de aumento na mistura obrigatória no diesel, que hoje está no B15 e, em algum momento passará para o B16.
Alguns destes movimentos, segundo Dumoncel, tiveram reflexos no resultado do quarto trimestre de 2025. O lucro líquido nos últimos três meses do ano caiu dos R$ 135,9 milhões em 2024, para R$ 82,4 milhões, uma redução de 39%.
O Ebitda ajustado com hedge do quarto trimestre de 2025 também caiu 41,2%, ficando em R$ 236,7 milhões. Nesse cenário a margem líquida do período baixou de 3,5% para 1,9%.
A receita operacional líquida no trimestre foi positiva, avançando 13,3% e chegando a R$ 4,36 bilhões. O CEO da 3tentos explica que foi um período “de transição”.
“O quarto trimestre foi onde nós tivemos paradas programadas das indústrias justamente pra fazer esses aumentos (de capacidade). A parte mais intensa da obra aconteceu e aí ela precisa estar com a indústria parada pra fazer as conexões e os equipamentos que estão sendo acrescentados ou aumentados”, descreveu.
Ao mesmo tempo, foi um ano de safra maior, com aumento na oferta de soja, especialmente fora do Rio Grande do Sul. O resultado disso, ele pontua, foi um aumento da participação da área de grãos na receita do trimestre e também do ano.
“Isso de alguma forma diminuiu a participação da indústria no mix e aí ganhou mais relevância no trimestre o segmento de grãos, que é o de menor margem. Ele acabou afetando a margem como um todo”, disse.
Nos 12 meses, a 3tentos também registrou um recuo na margem líquida, em função desse cenário. O índice caiu de 5,9% para 4,9%.
Nos insumos, margem aumentou
Um dos dados curiosos da 3tentos em 2025 é que, enquanto concorrentes falam em recuperação extrajudicial, a empresa não só aumentou a receita, mas também aumentou a margem com a venda de insumos.
A receita com a venda destes produtos, como defensivos, fertilizantes e sementes, atingiu R$ 3,4 bilhões no ano passado, um aumento de 20,9%. A margem que ao final de 2024 neste segmento estava em 18% agora atinge 20,2%.
Perguntamos ao CEO, como isso é possível. Ele disse que um dos segredos é o modelo de “ecossistema”.
“O negócio de insumos dentro da 3tentos não é isolado, ele não é um negócio puro-sangue, como a gente diz. Ele está dentro de um contexto que envolve um trabalho muito efetivo em grãos, envolve uma logística importante, envolve a indústria como um off-take importante da saída desses produtos, envolve uma atuação muito firme em barter, que é o grande centro do negócio como um todo, tanto na parte de insumos quanto na parte de originação”, explicou.
“Esse ecossistema andando conectado e esses três segmentos se apoiando é o que faz a diferença no geral. E aí os insumos conseguem ter rentabilidade, e até um ganho muito em cima disso, em cima dessa proposta de valor que a gente leva para o agricultor, muito calcada nesse ecossistema que a gente oferece.”
Segmento de grãos assume fatia maior
A área de trading de grãos da 3tentos foi a que mais cresceu em 2025, inclusive no quarto trimestre. A receita do segmento atingiu R$ 5,23 bilhões no ano, alta de 60%. Somente no último trimestre de 25, foram R$ 1,2 bilhão arrecadados com o negócio de grãos, um avanço de 34,1% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Os problemas climáticos no Rio Grande do Sul, nos últimos anos, não têm limitado os ganhos da 3tentos na região, mas as apostas do grupo em outras fronteiras agrícolas já começam a dar resultados.
“Eu diria que para 25 o impacto de crescimento de receita em grãos está muito da nossa consolidação no Mato Grosso. E aí com destaque, de novo, para o Vale do Araguaia, que é a nossa região mais recente, ele vem tracionando um ganho importante de market share ali”, ressaltou o CEO.
O executivo também diz que o aumento nos volumes foi impulsionado pelos novos escritórios de originação, que já estão operando, como Pará, Goiás e Minas Gerais.
A guerra e o biodiesel
Para 2026, a 3tentos espera manter o bom ritmo de crescimento e, se possível, recuperar as margens, com a expectativa de que o segmento indústria cresça mais.
Em 2025, os grãos representaram 32% da receita total, ocupado o espaço deixado pela indústria que passou por paralisações. No ano anterior, esse segmento estava em 25%.
“A indústria vai reverter um pouco esse mix. Talvez não exatamente para o mesmo número, porque tem uma dinâmica de preço no meio disso tudo. Mas certamente a indústria tem condições de crescer bastante pelo aumento das capacidades”, previu.
Nessa conta do aumento das capacidades está uma expansão de 50% no esmagamento de soja e 60% na produção de biodiesel, além da nova indústria de etanol em Mato Grosso.
Nem mesmo a guerra entre Irã e Estados Unidos pode reverter esse cenário positivo, na visão de Dumoncel.
Ele ressalta que, no caso do biodiesel, a restrição no fluxo de derivados de petróleo seria até mais um incentivo para que o Brasil seguisse acelerando o aumento do percentual do biocombustível que é adicionado ao diesel comum.
“A guerra tem duzentos mil fatores negativos, óbvio, mas para biocombustíveis ela tem um efeito colateral positivo e importante. A gente tem alguns ventos a favor, o aumento do preço do petróleo e a retomada da consciência do quão é relevante uma política de biocombustíveis consistente.”
Sobre a política de biodiesel no Brasil, João Marcelo Dumoncel, admitiu que o setor já trabalha com a possibilidade de “algum atraso” na adoção do B16. Pelas regras em vigor, neste mês de março a mistura obrigatória já deveria passar dos atuais 15% para 16%. Uma reunião do CNPE (Conselho Nacional de Política Energética) foi marcada para 12 de março, mas ainda há incertezas sobre a real intenção do governo de acelerar o cronograma.
“O Brasil tem uma capacidade instalada hoje suficiente para atender B15, B16, B17 e atualmente chegando quase até B20, sem grandes necessidades de novos investimentos”, defendeu ele.
O executivo criticou uma eventual abertura para importação de biodiesel. “Seria um contrassenso estar importando biocombustível.”
“O Brasil é uma plataforma super relevante de biocombustíveis. É o maior exportador de soja em grão. Por que não processar essa soja, se tem indústria, capacidade instalada e demanda? Hoje, num cenário de preços comprimidos de grãos, a utilização da produção para a indústria e para biocombustível é fundamental para sustentar o preço para o agricultor”, acrescentou.