Enquanto o Ibovespa renovou sequencialmente suas máximas históricas ao longo de 2025 e encerrou o ano acima dos 160 mil pontos - uma alta superior a 33% -, o desempenho das empresas do agro listadas na bolsa brasileira seguiu uma trajetória bem menos linear.

Mesmo com pouca representatividade no balcão de ações da B3, o universo do agro mostrou um 2025 de fortes contrastes e deve encarar um 2026 ainda com muitas incertezas e desafios.

De um lado, as companhias ligadas à proteína animal tiveram um dos melhores anos recentes em bolsa, surfando uma combinação de custos baixos de grãos e ciclos favoráveis no boi, no frango e nos suínos, com demanda global aquecida.

Do outro, empresas mais expostas à agricultura, insumos e ao setor sucroenergético sofreram com margens pressionadas, correção nos preços das commodities, custo de capital elevado e um ambiente ainda contaminado por casos de recuperação judicial no campo.

Os números ajudam a ilustrar esse descompasso: em 2025, papéis como Minerva avançaram mais de 34%, enquanto a MBRF (que acumula a alta dos papéis da Marfrig antes da fusão com a BRF) avançou cerca de 15%.

A JBS, que passou a negociar seus papéis em Nova York a partir de junho, também encerra o ano em terreno positivo, com alta de quase 5% desde junho, quando desembarcou na Terra do Tio Sam.

No mesmo período, companhias agrícolas como BrasilAgro, SLC Agrícola, Boa Safra e Vittia terminam o ano no vermelho, com baixas de 10%, 6%, 7% e 14%, respectivamente.

No setor sucroenergético, as quedas foram ainda mais expressivas, com ações como Raízen, São Martinho e Jalles Machado acumulando desvalorizações superiores a 30% no ano.

Para analistas, o desempenho superior dos frigoríficos não foi um acaso, mas resultado de um ajuste que vinha sendo cobrado pelo mercado há anos.

“Os frigoríficos conseguiram tirar aquele receio histórico em relação à alavancagem elevada, justamente em um momento em que muitas empresas na bolsa foram penalizadas por endividamento alto”, afirma Gustavo Cruz, da RB Investimentos.

Segundo ele, o movimento de redução da dívida e maior disciplina financeira começou a se refletir de forma clara nos preços das ações ao longo do ano passado.

Além da melhora financeira, o ciclo pecuário ajudou. Com a produção de carne pressionada em mercados como Estados Unidos, Europa e Austrália, as operações na América do Sul ganharam protagonismo nos resultados.

“Trimestre após trimestre, as operações americanas acabavam puxando os resultados para baixo, enquanto Brasil, Paraguai e Argentina compensaram esse movimento”, diz Cruz.

Mesmo eventos pontuais, como casos de gripe aviária ou tensões tarifárias no início de 2025, tiveram impacto limitado e foram rapidamente absorvidos pela diversificação geográfica das companhias.

No caso da JBS, a dupla listagem e a mudança do eixo principal para o mercado americano também pesaram a favor.

Para Alexandre Pletes, head de renda variável do escritório de investimentos Faz Capital, a empresa reúne hoje o melhor posicionamento do setor.

“A JBS tem diversificação global, qualidade de endividamento melhor e uma capacidade muito grande de integrar aquisições. Isso se refletiu no valuation ao longo do ano”, afirma.

Para 2026, os analistas projetam que o setor de frigoríficos deve seguir operando em um patamar mais confortável do que a média histórica, ainda que com algum arrefecimento do bom ano de 2025.

Isso porque as margens continuarão saudáveis e a combinação de oferta global de carne bovina restrita com mercados aquecidos nas aves e suínos e um preço de grãos estáveis favorece as operações.

Na leitura de Gustavo Cruz, da RB Investimentos, 2026 deve ser um ano de consolidação para as companhias brasileiras, mais do que de forte aceleração. “O ciclo do gado nos Estados Unidos começa a dar sinais de normalização, o que tira um pouco do vento a favor que o Brasil teve, mas não muda o fato de que as empresas brasileiras continuam muito bem posicionadas globalmente”, afirma.

As gigantes globais JBS e agora MBRF também devem dar sequência a uma agenda de M&As, projetam os analistas.

Pletes, da Faz Capital, cita que a BRF vinha numa agenda de controle de custos, e que a junção com a Marfrig traz uma diversificação de receita interessante. Apesar disso, ressalta que é importante “consolidar as sinergias e escalar a operação global”. “A empresa tende a despontar como uma gigante de proteínas em 2026”, diz.

No caso da JBS, a projeção é de continuidade da estratégia de crescimento com disciplina financeira. Alexandre Pletes destaca que a empresa deve seguir focada em integração de aquisições recentes e ajustes operacionais, mais do que em grandes movimentos transformacionais.

Na Minerva, o foco para 2026 está ligado a continuar a trajetória de desalavancagem após a conclusão da compra das plantas da Marfrig.

“A Minerva tem altos e baixos. A companhia até mostrou uma recuperação de lucros no primeiro trimestre, que já era pra ter acontecido, e consolidou no segundo trimestre, começando a gerar caixa e cuidando da alavancagem”, diz o o head de renda variável da Faz Capital.

“A Minerva alongou a dívida, e deve seguir fazendo isso ao longo de 2026 tendo em vista o fechamento da curva de juros que vai beneficiar empresas com endividamento mais expressivo”, acrescentou.

Na visão dos analistas da XP, Leonardo Alencar e Pedro Fonseca, os vetores positivos sustentam as margens, mas a alta das ações pode arrefecer no ano que vem. Em um relatório, os dois citam que alguns mercados começam a se aproximar de uma normalização do ciclo pecuário.

“A queda nas taxas de juros e a consequente aumento de renda disponível da população devem ser positivas para o consumo, embora o mercado passe a levantar questões estruturais sobre como mudanças de hábitos - com maior preocupação.com saúde e bem-estar e crescimento do consumo de canetas emagrecedoras afetando a demanda”, pontuam Alencar e Fonseca, da XP.

Outro ponto de atenção no setor é a imposição pela China, na virada do ano, de cotas para a importação de carne bovina, o que limita os volumes a serem embarcados do Brasil sem a incidência de taxas adicionais a 1 milhão de toneladas.

Nas lavouras, um cenário mais desafiador

Apesar de bons volumes de produção, a combinação de preços de soja e milho em patamares mais baixos, dólar em queda e o cenário macroeconômico mais complexo mexeu com as ações de empresas mais ligadas à agricultura.

Para 2026, o ambiente para players de grãos segue desafiador, escreveram Leonardo Alencar e Pedro Fonseca, da XP.

“As margens devem seguir pressionadas com um balanço de oferta e demanda global confortável, além de maiores custos, notadamente com fertilizantes. Traduzindo este cenário para os players de insumos agrícolas, a cautela continua, sobretudo a respeito do risco de crédito nas vendas, enquanto o ambiente competitivo está mais saudável”, afirmam.

“Essas empresas passaram quase uma década se beneficiando de preços altos das commodities e agora enfrentam um período de correção, em que eficiência operacional ainda não se traduz automaticamente em lucro líquido”, avalia Pletes, da Faz Capital.

A SLC Agrícola é um exemplo dessa dinâmica desafiadora. No acumulado dos nove primeiros meses de 2025, a empresa viu sua margem bruta subir em um ano, mas a margem líquida recuou levemente no mesmo intervalo.

Alexandre Pletes relembra que a companhia da família Logemann iniciou a safa 2025/2026 com mais áreas, o que pode ajudar a diluir custos, desde que o cenário de preços não piore. “O desafio é consolidar as margens conquistadas em 2025 e fazer isso aparecer no lucro”, diz.

Na sementeira Boa Safra, o desafio de margens apertadas motivou uma redução de pessoal, informada ao mercado na última semana. Para além da conjuntura de mercado, o CEO da empresa, Marino Colpo, admitiu ao site The Agribiz, que a agenda de aquisições foi acelerada nos últimos anos, o que acabou gerando “excessos” na operação.

Somado a isso, reconheceu que não está “satisfeito com as margens”. O momento da Boa Safra motivou o BTG Pactual a rever sua tese em relação à empresa em um relatório. A instituição retirou a recomendação de compra da ação, passando para 'neutral', com preço-alvo de R$ 12.

"As ambições de crescimento estão sendo recalibradas, com a administração passando a priorizar a rentabilidade em detrimento da expansão de volume", diz o banco no relatório. "A empresa deixa de ser uma história de alto crescimento para se tornar mais focada na captura de eficiência."

O BTG ainda reduziu suas expectativas com os resultados da Boa Safra. A projeção de receita líquida da empresa passou de R$ 2,72 bilhões para R$ 2,59 bilhões, e o lucro líquido esperado caiu de R$ 120 milhões para R$ 112 milhões em 2026.

A 3tentos é a exceção positiva do segmento. A ação da empresa da família Dumoncel acumula alta de 23% em 2025.
Alexandre Pletes, da Faz Capital, vê a empresa num “momento interessante”, e ao olhar os últimos balanços, cita um crescimento de receita de insumos e uma safra boa na região Centro-Oeste ajudando a ação da companhia em 2025.

“O terceiro trimestre teve uma receita (de R$ 5 bilhões) em linha e um resultado bom. A companhia consegue se manter no mesmo patamar de patrimônio. O lucro ainda está se ajustando e a margem líquida ainda precisa avançar”, citou Pletes.

Em entrevista ao AgLíderes, videocast do AgFeed, o CEO João Marcelo Dumoncel projetou um 2026 "melhor que este ano", em pleno desafio de crédito restrito no agro, com planos de dobrar exportação pelo Arco Norte.

A companhia prevê, já no primeiro trimestre de 2026, o início das operações da usina de etanol de milho.

"Nós estaremos com uma capacidade aumentada no esmagamento de soja em 2026 em torno de 50% a mais do que foi a média desse ano e no biodiesel vamos estar com 60% a mais de capacidade", ressaltou.

Na Kepler Weber, o mercado aguarda a definição das negociações com a americana GPT como principal vetor para 2026, em um momento em que a empresa ainda enfrenta dificuldades operacionais e crescimento limitado.

Em novembro, a controladora da GSI apresentou uma proposta não vinculante para incorporar a companhia de origem gaúcha. A Kepler afirmou que contratou assessores financeiros e jurídicos para avaliar o valuation, a relação de troca e os aspectos regulatórios da proposta.

A possível fusão entre Kepler e GSI abre caminho para a formação de um gigante do setor de armazenagem no País, unindo duas grandes empresas do segmento. Isso porque, de acordo com um relatório do Citi, a Kepler é a líder do mercado de armazenagem no Brasil, com 35% do total, e a GSI vem logo após, com 16% de market share.

Setor sucroenergético

Na cana, as ações de companhias tradicionais do segmento registraram quedas expressivas ao longo de 2025: a Raízen com queda de 62%, a São Martinho com baixa de 33,5% e a Jalles perdendo 36,4%. “É o setor que mais demanda atenção”, resumiu a XP.

“Os preços de açúcar devem se manter pressionados com boas perspectivas de produção global, notadamente no Brasil e no sudeste asiático, enquanto a apreciação do real impulsiona o efeito negativo. Além disso, esperamos preços pressionados de etanol devido ao forte crescimento da oferta, com novas plantas de etanol de milho”, justificaram Leonardo Alencar e Pedro Fonseca, em relatório.

As companhias sofreram em 2025 com o operacional. Os incêndios de 2024 no interior paulista prejudicaram a produtividade deste ano, que também sofreu com problemas climáticos.

A Raízen é um capítulo à parte. Além da dificuldade nos canaviais, a companhia passou 2025 vendendo ativos e vendo sua dívida avançar - e superar os R$ 50 bilhões ao final de setembro.

E o que pode trazer dias melhores para a empresa e, consequentemente, para suas ações negociadas na Bolsa? Gabriel Barra, analista do citi, escreveu em um relatório recente que dois anúncios podem animar o mercado: a venda da operação de Mobilidade na Argentina e um possível aumento de capital.

De um lado, a operação em terras vizinhas tem alguns interessados, segundo especulações de mercado. Do outro, o aumento de capital seria feito através da entrada de um novo sócio na Raízen, que hoje tem seu capital dividido entre Cosan e Shell. A Bloomberg noticiou há alguns meses que a Mitsubishi seria uma das interessadas.

Além do operacional e financeiro, a Raízen enfrenta um problema na Bolsa. As ações da empresa são negociadas abaixo de R$ 1 desde o início de outubro, o que fez com que a B3 desse uma “prensa” na companhia, que se comprometeu a pensar em medidas para valorizar o papel até o final do primeiro trimestre de 2026.

Resumo

  • Frigoríficos lideraram o agro na Bolsa em 2025, com Minerva em alta de 34% e MBRF avançando 15%, enquanto empresas agrícolas como BrasilAgro, SLC e Vittia fecharam o ano no vermelho
  • Ciclo favorável das proteínas, somado a custos mais baixos e desalavancagem, sustentou os papéis do setor de carnes, enquanto lavouras, insumos e açúcar sofreram com preços pressionados, dólar mais fraco e custo de capital elevado.
  • No sucroenergético, as perdas foram as mais severas do agro, com Raízen acumulando queda de 62%, São Martinho recuando 33,5% e Jalles perdendo 36,4%, em um ano marcado por problemas operacionais e dívida alta