A união entre Faria Lima e agro costumeiramente é feita nessa direção - do centro financeiro paulista ao campo. A Ceres Investimento inverteu essa lógica e, depois de se tornar sócia do BTG Pactual em 2025, está levando seu primeiro produto financeiro do campo para os investidores urbanos.
A empresa fez a listagem do ROCA11 - lê-se "roça 11" -, um Fiagro que já nasce multimercado sob a nova regulamentação instaurada pela CVM e que em breve deverá ter suas negociações no balcão da Bolsa, chegando aos investidores do varejo.
"Eu queria um ticker com o 'c' cedilha, mas a B3 não permitiu. Roça traz a ideia do DNA da Ceres: estamos no campo, sujamos a botina, não acompanhamos o agro via planilha. O fato de estarmos no interior e ter originação própria nos dá a chance de 'beber a água limpa", disse Idalicio Silva, diretor de investimentos da Ceres, ao AgFeed.
A Ceres foi fundada em 2019 pelo ex-CEO da Ubyfol, Guilherme Cunha, em Uberaba, no Triângulo Mineiro, cidade que sedia a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) e é um dos polos do garonegócio nacional.
Hoje, já conta com R$ 6,7 bilhões de ativos sob gestão - 100% agro. Esse portfólio inclui a originação de CRAs e estruturação de fundos multicedentes e multissacados, além de uma atuação com antecipação de recebíveis do setor.
O ROCA11 nasce com um portfólio ainda tímido, de R$ 20 milhões, que segundo Silva, serão alocados em operações diversas: CRAs, Notas Comercais, CPRs, FIDCs - tudo a depender da oportunidade.
A ideia é crescer o fundo ao longo do ano, mas as primeiras alocações serão feitas em títulos de empresas que atuam com insumos, num primeiro momento com especialidades, e biomassa. A exposição não terá concentração em nenhum setor e pode contar com empresas tanto médias quanto grandes.
"A expectativa é atingir até o final do ano um patamar bem superior à oferta inicial. Começamos pequenos porque somos mineiros, mas se olhar a Ceres, começamos com R$ 75 milhões e chegamos a R$ 6,7 bilhões em poucos anos", acrescentou Diogo Ruas, diretor de Marketing Estratégico, Inteligência Comercial e Dados da Ceres.
Ele projetou que a negociação das cotas deve ocorrer em balcão em cerca de 40 dias e que esse não será o último Fiagro da empresa a ser listado neste ano. O portfólio, tanto do ROCA11 quanto dos próximos, será diversificado.
"Privilegiamos nesse primeiro momentos setores com margem operacional mais elevada. Revendas hoje operam perto de 8%, enquanto sementes e especialidades trabalham com até 25%. Biomassa está perto dos 30%. Em momentos de juros altos, margem alta é importante para pagar a conta", ressalta Idalicio Silva.
A aposta da empresa é levar o know-how do campo e as originações próprias ao investidor de varejo. Silva conta que hoje, diversos fundos do mercado contam com ativos originados pela Ceres. "A ideia, com o nosso Fiagro, é trazer esses produtos 'para dentro' e oferecer ao mercado, encurtando o caminho com o investidor de varejo", disse o diretor de investimentos da empresa.
Apesar da novidade da listagem, a Ceres já tem na sua história mais de 30 fundos sob gestão, mas navegando ainda em um mercado institucional.
"A parceria com o BTG começou com a distribuição dos produtos nos escritórios e culminou na parceria societária. Com o fundo, damos um novo passo para acessar o mercado de varejo de forma direta", completou Diogo Ruas.
Mesmo com a proposta de diversificação no novo fundo, a Ceres atua majoritariamente numa cadeia "antes da porteira", atendendo revendas e indústrias de insumos que precisam de linhas de crédito.
Cerca de 95% da carteira está nesse tipo de operação (45% do total em indústrias de insumos e pouco mais de 40% em revendas) e o restante, focado principalmente na pecuária.
O grupo tem uma divisão em áreas: além da Ceres Agrobank, que dá crédito, e da Ceres Capital, que atua com outros serviços financeiros, a empresa também atua como trading, originando grãos físicos, e em breve deve passar a atuar com uma seguradora - hoje o braço de seguros do gupo, a GCI, já presta serviços como corretora.
A quinta vertical é a Imobhub, que atua com incorporação imobiliária.
Além do escritório em Uberaba (MG), sede da empresa, a empresa conta com uma sede na capital paulista. A ideia é abrir 12 novos escritórios até o final do ano que vem.
A empresa tem mais força em três grandes praças: Triângulo Mineiro, interior de São Paulo e no Centro-Oeste (Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul).
Quando fechou a parceria com o BTG Pactual, a gestora mencionou que projetava se expandir nos três estados da região Sul, além do Norte e Nordeste no Matopiba - em especial Balsas e Luís Eduardo Magalhães.
A volta do mercado de Fiagros
Depois de um intervalo entre 2023 e 2025 difícil para novas emissões, os Fiagros parece que de fato voltaram ao radar dos investidores. A forte dependência de crédito privado no setor não interrompeu novas engenharias financeiras, e os FIDCs passaram a ser um grande trunfo de gestoras, inclusive a própria Ceres.
Do segundo semestre do ano passado para cá, contudo, algumas casas tem tateado o mercado financeiro com novas emissões, mesmo com um patamar de juros ainda alto na economia.
Primeiro, a Riza Asset captou R$ 400 milhões em um fundo de terras, e depois, a Suno levantou quase R$ 60 milhões em um follow-on do seu Fiagro de fazendas e a XP colocou de pé um Fiagro de R$ 150 milhões.
No início de 2026 foi a vez da gestora Valora ir ao mercado com duas incursões. Primeiro, anunciou que está buscando R$ 400 milhões para um Fiagro fechado. Nesta semana, informou que fará um follow-on de seu fundo do tipo listado na B3, o VGIA11.
Em prospecto publicado há alguns dias, a gestora anunciou uma quinta emissão de cotas mirando R$ 400 milhões.
Dessa forma, o patrimônio liquido do fundo pode saltar dos pouco mais de R$ 842 milhões atuais (considerando caixa e CRAs que compõe o portfólio) para cerca de R$ 1,24 bilhão em PL.
Resumo
- A Ceres Investimentos listou o ROCA11, seu primeiro Fiagro multimercado voltado ao varejo, marcando a estreia na Bolsa após a entrada do BTG Pactual como sócio em 2025
- O fundo nasce com R$ 20 milhões e estratégia diversificada em CRAs, CPRs, FIDCs e notas comerciais, priorizando empresas de insumos e biomassa com margens operacionais mais elevadas
- Com R$ 6,7 bilhões sob gestão e forte originação própria no “antes da porteira”, a Ceres busca encurtar o caminho entre o crédito estruturado no campo e o investidor urbano, surfando a reabertura do mercado de Fiagros listados