Teve fita de inauguração, discurso, brinde e, como manda a tradição na cidade, música a cargo de dupla sertaneja. E teve simbolismo também na abertura do novo endereço do Grupo Ceres de Investimentos (GCI) em Goiânia (GO), na semana passada.

É a segunda filial da companhia, que tem sede em Uberaba, no Triângulo Mineiro, R$ 8,5 bilhões sob gestão e que começa a ganhar corpo nacional desde que fechou uma parceria pra se tornar uma espécie de “ponta do agronegócio” do banco BTG Pactual, em dezembro do ano passado.

A primeira estrutura desse tipo foi aberta em Luís Eduardo Magalhães. Até o final deste ano, serão 12, sempre em “capitais” do agro brasileiro.

“A gente inaugura Sinop no mês que vem, depois Ribeirão Preto, Londrina e aí vai, no ritmo de uma ou duas lojas por mês”, afirma Diogo Ruas, diretor de Marketing Estratégico, Inteligência Comercial e Dados do GCI e CEO da Ceres Capital, uma das empresas do grupo.

Mais que um movimento geográfico, de ocupação de território, a expansão simboliza a consolidação de uma estratégia que vinha sendo estruturada nos últimos anos e agora, com a sociedade com o BTG – que, pelo acordo, pode atingir até 49,9% de participação no grupo – ganha uma representação física.

“As lojas materializam todo o nosso ecossistema”, define Ruas. “Não são o começo de tudo. Na verdade, são o fim. Serão, de fato, hubs de negócios, onde a gente vai estar apresentando todos os nossos canais de venda, a estrutura que fomos construindo ao longo da história”.

Criado há 13 anos, a partir de uma proposta de oferecer crédito a produtores rurais, aumentando o relacionamento com revendas de insumos, o Grupo Ceres vislumbrou já há algum tempo a necessidade de diversificar suas atividades de forma a mitigar o risco que esse tipo de operação apresentava – e que ficou mais evidente nos últimos anos, com a elevação dos níveis de inadimplência e a multiplicação de recuperações judiciais no setor.

Assim, o GCI mergulhou no mercado de capitais, enveredou-se pelo negócio de trading e, mais recentemente, ingressou no universo dos confinamentos e dos seguros, sempre com apurado olhar financeiro.

“Hoje temos cinco grandes braços dentro da nossa operação”, afirma o executivo. E todos eles, de alguma forma, têm seu espaço nas lojas do GCI.

Em todas elas haverá, segundo Ruas, “o advisor, oo originador, que é cara que fica buscando as operações e trazendo para dentro de casa, o banker, que é o especialista de crédito dentro da operação, o trader, especialista em grãos dentro da operação e o assessor, que é o especialista de investimentos e mercados de futuros dentro do negócio”.

Essa estrutura deve contar também com o reforço do especialista em seguros, a mais nova frente de atuação do GCI. O grupo, que já atuava como uma corretora, negociando apólices emitidas por outras companhias, aguarda ainda para este mês a liberação definitiva da Superintendência de Seguros Privados (Susep) para que possa comercializar produtos da sua própria seguradora.

A operação, montada a partir da aquisição da PIN Seguradora, com atuação no agro no Sul do País, atualmente está dentro da categoria S3, que é uma espécie de etapa de validação pelo órgão regulador.

“A PIN já era uma grande parceira nossa, um desses relacionamentos de mineiro em que a gente vai que começa de uma forma natural e que casamento vem concluir”, conta Ruas.

A tese de passar a atuar como seguradora surgiu com a frequência cada vez maior, dentro dos negócios do grupo, das conversas sobre o risco climático.

“A gente tinha para poder mitigar esse risco do nosso crédito e vimos que uma maneira era ter produtos de seguro agrário dentro da nossa operação”, diz o executivo.

Um dos focos da empresa serão os chamados seguros paramétricos, em que as apólices são feitas a partir de parâmetros climáticos históricos, como índices pluviométricos, estabelecidos para cada propriedade em cada etapa do ciclo agrícola.

Assim, caso nessa fazenda seja registrado, por exemplo, um volume pluviométrico maior ou menor do que o intervalo estabelecido, o produtor não precisa provar o impacto que isso teve sobre a lavoura – o processo de indenização estará automaticamente consentido.

“A ideia é desmistificar a chancela de que o produto de seguro foi criado para ser aquele produto de reciprocidade com o cliente que recebe um crédito, que não tem uma venda consultiva sobre a operação. E, além disso, que quando tem algum sinistro, o processo de indenização é muito mais sofrido do que, de fato, uma salvação para a lavoura”.

Multiplicação dos grãos e rebanhos

A tese de redução do risco financeiro já tinha levado o grupo a abrir outras avenidas de negócios. Segundo Ruas, à medida em que evoluía nas operações de crédito com o Agrobank, a Ceres percebeu que as indústrias que operavam também com a comercialização de grãos estavam mais preparadas para contornar situações como o avanço das RJs.

Assim, o grupo decidiu seguir na mesma direção e lançou a sua própria trading, que começou a atuar durante o ano safra 2023/2024. De acordo com ele, no primeiro ano completo de operação, em 2025, foram mais de 300 mil de toneladas operadas, o equivalente a 5 milhões de sacas.

Para este ano, a meta é ambiciosa: dobrar essa movimentação. Além do volume, a trading já registrou, em 2026, algumas conquistas como o despacho do primeiro navio exclusivo com soja originada pela companhia, enviado para a China em março passado.

Um dos diferenciais do grupo nesse mercado foi ter apostado fortemente com estruturas de barter, em que a aquisição de fertilizantes estava relacionada com a cessão de grãos por parte do produtor.

Dentro dessas operações, o grupo acoplou três modalidades de garantia entrepostas, então a CPR financeira, a CPR física do grão e o conforto do AF de imóvel dentro do negócio.

“E, por último, a gente viu também que o mercado cada vez mais globalizado precisava de ter uma estrutura trouxesse toda a parte de rede de proteção, de derivativos, cambial e de consórcio para a gente poder fazer algum alongamento de dívida dentro da operação”, acrescenta Ruas.

Desta forma, a sinergia entre as diversas áreas acaba se tornando munição importante para o arsenal de negócios do GCI, que continua em crescimento.

Uma das teses mais recentes levou o grupo a ingressar no universo dos confinamentos. O modelo de negócios começa com a abertura de uma inscrição estadual dentro de um boitel, para que o próprio GCI possa fazer a aquisição dos animais com sua matrícula.

“Assim eu mitigo o risco de inadimplência dentro da operação e só trago para ela o risco operacional, que é o confinador fazer o processo de engorda do nosso gado”, explica Ruas.

A aderência do mercado, segundo ele, tem sido grande. “A gente tinha projetado encerrar o ano com mais de 100 mil cabeças. Já estamos com 130 mil e a expectativa agora passou para chegar a 200 mil cabeças”.

Isso, de acordo com o executivo, representa quase R$ 1 bilhão de movimentação financeira com o negócio, considerando os três giros anuais dentro da capacidade contratada nos confinamentos. E ainda com a expectativa de melhoria, com a perspectiva da empresa de que a arroba do boi atinja R$ 400 no segundo semestre.

“Quando a gente começou a investir na nossa trade, investir no nosso confinamento, chamavam o Guilherme de doido”, afirma ele. Guilherme Cunha é o fundador da Ceres, ex-executivo de companhias como Ubyfol que há mais de uma década enxergou espaço para o surgimento de uma gestora com foco exclusivo no agro.

“Hoje, a trade sustenta a operação do Agrobank e o confinamento é a grande menina de todos os fundos que nos visitam para poder fazer alocação de capital”.

Ruas diz que o sucesso da frente de confinamento surpreendeu o próprio grupo, que não tinha computado seus resultados dentro das metas de crescimento para 2026.

Depois de cinco anos dobrando de tamanho, agora o GCI estima um avanço ainda robusto, na casa de 30%, mas mais comedido, diante de um cenário mais desafiador.

“A gente não quer fazer nenhuma loucura”, afirma. “Vamos construindo ali o nosso trabalho dentro daquilo que a gente almeja, dentro do nosso resultado e caso tenha uma oportunidade grande, a gente vai lá e investe fortemente”.

A presença física através de lojas é fundamental nessa estratégia, por aproximar o grupo de clientes espalhados nas principais regiões agropecuárias. Hoje, 35% dos negócios do grupo estão concentrados na sua região original, o Triângulo Mineiro.

A expansão geográfica tende a mudar esse quadro. A escolha de Luis Eduardo Magalhães para sediar a primeira filial do GCI explica como. Segundo Ruas, o grupo já vislumbrava uma migração estruturada de produtores para a região do Matopiba e passou a ser demandado a abrir uma operação por lá.

“Era uma região muito carente dessa proximidade, do conteúdo técnico dentro da nossa operação”. Em pouco menos de seis meses, a operação local já atingiu mais de 7% do “share of wallet” do Grupo Ceres.

Ruas não revela os valores investidos na abertura de cada unidade. Segundo ele, essas cifras devem variar justamente conforme a participação de cada praça no momento, “o payback e o break-even de cada operação”.

Assim, é de se esperar que centros hoje com mais volume de negócios, como Goiânia ou Ribeirão Preto, que já representa 12% do total, tenham, de início, estruturas mais robustas do que Palmas, no Tocantins, com 2%.

“A gente começa pequeno e cresce a nossa operação ao invés de fazer o trabalho inverso, de entrar com algo grandioso esperando um resultado financeiro por parte disso”, justifica. “Então, a nossa tese é de proximidade e relacionamento, mas também proporcional ao volume de negócio que temos em cada uma das regiões”.

Com a abertura de 12 endereços até o final do ano, a expectativa é de que a equipe comercial envolvida, que hoje está em 40 pessoas, atinja um número próximo a 60 profissionais, envolvendo as diversas verticais.

A casa do BTG

Se na linha de frente estará a equipe do Grupo Ceres, por trás dela, em cada loja, a estrutura do parceiro e sócio BTG Pactual se fará presente.

“É uma bandeira que nos traz muita confiabilidade dentro do mercado. Então, em todas as lojas que a gente inaugura, a gente identifica que lá também é uma casa BTG”, reforça Ruas.

Mais ou menos visível, conforme o caso, essa parceria vai ganhando corpo naturalmente nas diferentes frentes de atuação do GCI. Nas operações de crédito, por exemplo, é a principal fonte de funding. O banco está por trás também dos principais aportes de alguns dos fundos geridos pela Ceres.

Já no negócio de grãos, o GCI utiliza as estruturas físicas da trading do BTG, tanto no porto de Paranaguá quanto em armazéns.

“E quando a gente olha o mercado de investimentos, não crédito, ele é nossa ponta bancária. Toda vez que é preciso construir toda a nossa mesa de operações estruturadas, derivativos e swaps, isso é uma operação que a gente faz em conjunto com o próprio BTG. Então, ele é sinérgico dentro da nossa operação”.

Por outro lado, diz Ruas, a expansão geográfica do GCI amplia o alcance da marca BTG Pactual nas regiões agro. “Ali, a presença BTG efetivamente somos nós. Eles valorizaram muito a forma como a gente trata o relacionamento com os nossos clientes e nos colocam à frente dessas operações, estando com a gente em cada uma das negociações”.

O laço com a instituição liderada por André Esteves deu também lastro à concretização de um dos principais projetos do Grupo Ceres, o lançamento, em fevereiro passado, de seu primeiro Fiagro listado, o Roça11 (por conta de questões técnicas, o ticker oficial é ROCA11, sem a cedilha).

Ruas admite que, internamente, “a euforia ainda está em curso” com o sucesso da primeira captação, de R$ 20 milhões. O segundo aporte, do mesmo valor, já está negociado.

Então, ele diz, o fundo passa a porteira do mercado institucional para chegar ao mercado de balcão pessoa física, “onde o custo de captação do dinheiro é muito menor e eu consigo levar mais valor para o meu cliente na ponta”.

O objetivo do GCI é, a partir desse passo, ter um portfólio mais pulverizado entre esses dois mercados. “Eu falo que todo mundo quer estar no agro como uma forma de renda, mas não quer necessariamente ter uma fazenda ou ter uma estrutura operacional”, afirma.

Com o suporte do BTG e um arsenal cada vez mais reforçado, o Grupo Ceres quer estar pronto para conquistar esse território.

Resumo

  • Grupo Ceres abrirá 12 unidades em "capitais do agro" em 2026, ampliando parceria com o BTG Pactual e presença nacional.
  • Empresa reforça atuação em trading, confinamento e seguros, com meta de crescer 30% e atingir R$ 10 bilhões sob gestão
  • Nova seguradora e expansão do Fiagro ROCA11 integram estratégia para diversificar receitas e reduzir riscos no agro