O agronegócio brasileiro pode ser um dos principais vetores da expansão das florestas no País ao longo da próxima década. Mas, paradoxalmente, boa parte do setor produtivo ainda não percebeu que possui um manancial de oportunidades debaixo do próprio nariz.

Essas são algumas das conclusões da segunda edição do estudo “O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global”, que será apresentado nesta quarta-feira, dia 3 de junho, em evento na Rio Nature & Climate Week, semana de conferências sobre o clima realizada no Rio de Janeiro (RJ). O conteúdo do documento foi antecipado ao AgFeed.

Elaborado por um conjunto de instituições, envolvendo Instituto Arapyaú, Instituto Itaúsa, Agroicone, Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, Instituto Clima e Sociedade (iCS), Imazon, Amazônia 2030, CEBDS e Uma Concertação para a Amazônia, o estudo traz um panorama completo sobre conservação, restauração florestal e silvicultura no país, com recomendações sobre financiamento e políticas públicas.

Atualmente, de acordo com o estudo, o Brasil possui cerca de 517 milhões de hectares de florestas. Em um cenário potencial previsto pelo documento, a área florestal brasileira chegaria a 525 milhões de hectares em 2035, um ganho de aproximadamente 8 milhões de hectares em relação ao quadro atual.

Esses números consideram a ideia de “contínuo florestal”, em que silvicultura, áreas conservadas e restauração de áreas degradadas que são convertidas em florestas são consideradas partes de um todo: florestas.

Boa parte da expansão dos próximos anos passa pelo agronegócio, avaliam os organizadores do estudo.

“A importância do agronegócio no setor florestal fica cada vez mais evidente. O agro hoje é, de longe, o maior detentor de áreas de conservação privadas do planeta por conta do Código Florestal, por exemplo”, avalia o biólogo Roberto Waack, coordenador do estudo e presidente do conselho do Instituto Arapyaú, em entrevista ao AgFeed.

Ao todo, o setor concentra cerca de 42% das áreas de conservação florestal do país, estima Waack, mas não para aí. O agro, segundo ele, também reúne potencial para ampliar o plantio de florestas destinadas ao abastecimento de usinas de biocombustíveis e também abriga uma extensa área com aptidão para projetos de restauração florestal.

Só a frente de restauração florestal, por exemplo, poderá movimentar US$ 141 bilhões até 2050, segundo o estudo, com bases em dados da organização WRI. A estimativa considera receitas associadas à comercialização de créditos de carbono, produção de alimentos, biomateriais e bioenergia.

Parte desse potencial está justamente dentro das propriedades rurais. O estudo menciona um mapeamento preliminar realizado pela consultoria Agroicone em parceria com o Movimento FlorAz, que une empresas, investidores e instituições para estruturar o mercado de restauração florestal no Brasil.

A análise identificou cerca de 2,6 milhões de hectares com potencial para restauração distribuídos em aproximadamente 8 mil propriedades rurais brasileiras.

O levantamento considerou imóveis médios e grandes, com áreas mínimas de 100 hectares destinadas à restauração, localizados a mais de 200 quilômetros de pólos consumidores de madeira e sem registros recentes de desmatamento.

Quando esses critérios são flexibilizados, reduzindo a área mínima exigida ou a distância em relação aos centros industriais, o potencial ultrapassa 10 milhões de hectares, segundo os autores do estudo.

"Existe nas empresas do agronegócio um volume muito grande de terras que não tem aptidão nem para grãos nem para boi. São áreas muito declivosas, onde não faz sentido fazer produção de alimentos e em que a melhor opção é fazer floresta", afirma Roberto Waack.

Na avaliação de Waack, a oportunidade abre espaço para parcerias entre produtores rurais, empresas do agronegócio e companhias especializadas em restauração florestal, que já dominam a tecnologia, a operação e o acesso aos mercados de carbono.

A lógica é simples: o produtor entra com a terra, enquanto as empresas aportam capital, conhecimento técnico e acesso aos compradores dos créditos gerados pelos projetos.

"Essas empresas podem entrar para fazer a plantação das florestas e dividir os resultados dos créditos de carbono que são gerados", disse.

Entre os exemplos citados por Waack estão empresas como a re.green e a Biomas, que já operam modelos desse tipo e negociam créditos de carbono com grandes compradores globais.

No caso da re.green, a Microsoft já adquiriu 6,5 milhões de créditos de remoção de carbono que serão gerados pela Re.green a partir de projetos de restauração florestal na Amazônia e na Mata Atlântica.

Já a startup de restauro florestal Biomas, que tem como sócios grandes empresas como os bancos Itaú, Rabobank e Santander, a companhia de alimentos MBRF, a fabricante de papel e celulose Suzano e a mineradora Vale, firmou parcerias com empresas como Veracel Celulose e Neoenergia.

O relatório defende ainda que a produção agropecuária e a expansão florestal são agendas complementares.

Isso acontece porque a restauração florestal também permite o desenvolvimento de sistemas produtivos integrados de restauração florestal e produção de alimentos, como sistemas agroflorestais (SAF) e integração lavoura pecuária floresta (ILPF).

Esse é o negócio, por exemplo, no qual está inserida a Belterra, startup de restauro florestal que vem transformando áreas degradadas no Norte do Brasil em áreas de produção de cacau nos últimos anos.

A empresa recentemente conseguiu aportes que somam R$ 175 milhões, sendo R$ 100 milhões do BNDES, e, com isso, pretende ampliar sua operação dos atuais 2,8 mil hectares para mais de 15 mil hectares.

Florestas plantadas

Em paralelo ao crescimento da restauração florestal, as florestas plantadas também têm potencial de expansão significativa a partir da demanda criada pelas usinas de etanol de milho que vem se instalando principalmente na região Centro-Oeste, opina Rodrigo Lima, sócio-diretor da Agroicone.

O estudo menciona dados do Grupo Index, que estimam uma demanda crescente por cavacos, hoje estimada em 250 mil hectares para suprir a demanda atual e que pode chegar a 450 mil hectares entre os próximos cinco a seis anos.

“A demanda de cavaco de eucalipto para produzir etanol de milho vem crescendo em uma velocidade galopante. O desafio da biomassa é que você não consegue plantar eucalipto em um, dois anos e ter essa biomassa pronta lá, você tem que ter ciclos de seis, sete anos aí para você conseguir cortar o eucalipto que você plantou”, explica Lima.

A utilização do cavaco como fonte de energia é decisiva para que o etanol de milho tenha uma pegada de carbono 70% menor em comparação com a gasolina e significativamente menor do que o biocombustível de grãos que é produzido nos Estados Unidos, diz o estudo.

“No final das contas, é a cereja do bolo que você precisa para garantir essa intensidade de carbono menor”, avalia Lima.

O paper aponta, no entanto, que ainda será necessário avançar em uma série de frentes para viabilizar a expansão da produção de biomassa florestal destinada ao setor de etanol de milho.

Entre as recomendações estão o mapeamento de áreas com potencial para plantios de eucalipto no entorno das usinas, a definição de regiões prioritárias para recuperação com fins produtivos e a ampliação das linhas de financiamento voltadas à estruturação desses projetos.

O estudo defende ainda a criação de mecanismos que aproximem bancos, indústrias e produtores rurais para viabilizar investimentos em florestas plantadas destinadas à produção de cavacos e outras formas de biomassa.

Outra medida considerada estratégica é a adoção de políticas estaduais de incentivo à produção de biomassa florestal para abastecer usinas de etanol de milho e outros segmentos industriais.

“Apesar disso tudo, o potencial é muito, muito grande”, enfatiza Roberto Waack, líder do estudo e presidente do conselho do Instituto Arapyaú.

Financiamento

O estudo também alerta que o financiamento da adaptação – e, em particular, da adaptação florestal – continua aquém do necessário.

O documento avalia que seria necessário o aporte de US$ 284 bilhões a 339 bilhões por ano, de 12 a 14 vezes maior que os fluxos atuais de investimentos em adaptação.

O paper defende modelos de blended finance (que combinam recursos públicos e privados), além de mecanismos de “de-risking”, garantias financeiras e estruturas inspiradas em project finance para tornar os projetos mais atrativos aos investidores.

Roberto Waack avalia que o mercado ainda está longe da escala necessária para transformar a restauração florestal em uma grande classe de ativos no Brasil.

Ainda assim, ele observa uma aceleração importante nos últimos dois anos, impulsionada pelo surgimento de novos instrumentos financeiros e políticas públicas voltadas ao setor.

Na avaliação do executivo, o BNDES tem estado à frente nesse processo ao estruturar diferentes mecanismos de apoio, como iniciativas ligadas ao Plano Clima, e outras linhas voltadas ao financiamento da restauração florestal. “O BNDES está liderando essa discussão no mundo hoje”, resume.

Outro destaque é o fundo TFFF, liderado pelo Brasil e lançado na COP 30, e que busca a atração de US$ 125 bilhões em recursos privados e públicos de diversos países para incentivar a preservação de florestas em pé em mais de 70 nações ao redor do mundo.

Um sinal relevante de mudança de percepção em torno dos ativos florestais, segundo Waack, é a entrada de grandes bancos e investidores tradicionais em operações ligadas à restauração ambiental e à adaptação climática.

Para ele, o interesse crescente do sistema financeiro funciona como uma espécie de validação do mercado. Instituições financeiras costumam evitar investimentos em setores com muita incerteza ou riscos.

"A demanda dos bancos para entrar nesse jogo é evidente. E isso é um sinal importante, porque os bancos do mainstream normalmente não entram em áreas de muita incerteza ou de grandes riscos", afirma. "Esse movimento é muito recente, tem cerca de dois anos, e mostra que o mundo mudou."

Um dos exemplos citados por Waack é o Eco Invest Brasil, iniciativa de hedge cambial coordenada pelo Ministério da Fazenda.

O segundo leilão do programa, realizado no ano passado, feito em parceria com o Tesouro Nacional e o Ministério da Agricultura, para mobilizar recursos privados destinados à recuperação de áreas degradadas e projetos sustentáveis, atraiu forte interesse do mercado.

Para agro, floresta ainda é passivo

Se o mercado financeiro já parece convencido do potencial econômico das florestas, Waack avalia que parte do agronegócio ainda tem dificuldade em enxergar a conservação ambiental como um ativo produtivo.

Para ele, persiste a visão de que áreas preservadas representam apenas uma obrigação regulatória, quando, na prática, constituem um patrimônio capaz de gerar valor econômico crescente nos próximos anos.

"O agro é o maior detentor de capital natural do país, mas boa parte desse patrimônio ainda é vista como um passivo", afirma.

Na avaliação de Waack, propriedades rurais que conservam nascentes, áreas florestais e outros ativos ambientais prestam serviços ecossistêmicos essenciais para a sociedade, para a infraestrutura e para a própria atividade agropecuária.

Esse reconhecimento abre espaço para mecanismos de remuneração como pagamentos por serviços ambientais, acesso a linhas de crédito diferenciadas, incentivos tributários e outras formas de valorização do capital natural.

"O capital natural ainda não é totalmente monetizável. Mas ele vai valer mais no futuro do que vale hoje", diz Waack. "A questão é que uma parte do agro ainda não acordou para isso."

Embora reconheça que grandes empresas e algumas das principais lideranças do setor já tenham incorporado essa visão, Waack avalia que parte do agronegócio ainda enxerga a preservação ambiental apenas como um custo regulatório.

“O que a gente está buscando com esse documento é reforçar esse reconhecimento, dar os instrumentos para que o agronegócio jogue esse jogo, no qual o maior beneficiário será ele mesmo”, resume.

Resumo

  • Estudo de várias organizações aponta agro como um dos principais impulsionadores de florestas no Brasil na próxima década
  • Projetos de restauração florestal e florestas plantadas devem trazer aceleração de áreas de floresta à frente
  • Há potencial de geração de US$ 141 bilhões com restauração florestal