Os sistemas agroflorestais passaram a ocupar espaço crescente nas discussões do agronegócio brasileiro. Antes associados principalmente a projetos de conservação ambiental, eles começam a ser vistos como uma alternativa para recuperar áreas degradadas, regularizar propriedades rurais, gerar renda e, cada vez mais, acessar o mercado de carbono.

Mas a implantação de SAFs, e de projetos de restauração ambiental como um todo, não é simples.

É nesse cenário que a Verthic, consultoria especializada em gestão socioambiental com foco em projetos na Amazônia, planeja ampliar sua atuação.

Na última década, dedicada à execução de programas ambientais e indígenas ligados à Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, a empresa afirma ter mais de 270 projetos, com atuação em 11 terras indígenas, estruturando e coordenando mais de 200 iniciativas simultâneas.

Também diz ter implantado mais de 110 SAFs e produzido mais de 700 mil mudas de 88 espécies nativas, com um dos ciclos anuais superando 1 milhão de unidades.

Com o know-how adquirido em Belo Monte, a consultoria agora aposta em ampliar sua atuação, oferecendo seus serviços a outras grandes empresas, a partir da experiência acumulada em restauração florestal, produção de mudas e implantação de sistemas agroflorestais.

"A gente implantou muitos sistemas agroflorestais em comunidades, mais de 100 nesses anos todos, sempre com espécies de uso econômico, espécies madeireiras e também de ciclo mais rápido. É uma atividade que a gente sabe fazer muito bem", afirma Fernando Vincenti, fundador e diretor da Verthic, em entrevista ao AgFeed.

A Verthic surgiu em 2011, a partir da experiência prévia de Vincenti na Amazônia e no mercado financeiro francês. Formado em Administração, Vincenti iniciou sua carreira no Instituto Socioambiental (ISA), onde trabalhou com povos indígenas na Amazônia.

Depois, fez mestrado em sustentabilidade na França e atuou no CDC Climat, antiga subsidiária de investimentos em carbono e pesquisa do banco francês Caisse des Dépôts,, antes de retornar ao Brasil em 2011.

Foi nesse período atuando no banco francês que Vincenti fez uma imersão no mercado de carbono. O CDC Climat era relevante nesse mercado, conta. “Eles estavam em toda a cadeia de carbono, eram super importantes e grandes no mercado de carbono europeu”, diz.

Ao mesmo tempo, o Brasil recém tinha estruturado sua política de crédito de carbono e Vincenti, então, retornou ao Brasil na expectativa de fazer negócios e abrir mercado.

“Vim com um contrato temporário de três meses para rodar o Brasil com o cartão de visita deles e representando na intenção de abrir mercado”, recorda.

“Dei um bom giro nesses três meses e, de fato, até hoje não temos um mercado de carbono estabelecido, regulado no Brasil. Quando voltei para a França no final do meu contrato, eles falaram: ‘Vejo dois caminhos possíveis: ou você abre uma empresa de consultoria e nos representa, e quando sair alguma coisa a gente divide, ou você bate na porta de uma empresa de consultoria’”.

Logo na sequência, Vincenti travou contato com pessoas que tinham relações com a direção da Norte Energia, que estava prestes a estruturar e executar parte dos programas socioambientais previstos no licenciamento ambiental da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. Foi assim que nasceu a Verthic.

“Fiquei seis meses fazendo essa consultoria e acho que naquele momento não existia ninguém, acho que – brinco nem no Brasil – no universo alguém que reunia essas características que eu reunia, de uma boa interlocução com povos indígenas, com esse universo de ONGs, FUNAI, Ministério Público”, conta.

Entre 2011 e 2024, a Verthic operou vários contratos na Usina de Belo Monte, manejando diversos projetos em sequência.

A atuação na hidrelétrica do Pará envolveu planejamento estratégico e executivo, organização de cronogramas, definição de orçamentos, estruturação de equipes técnicas e interface direta com Ibama, Funai, povos indígenas e demais stakeholders.

Mais recentemente, a consultoria resolveu ampliar sua atuação, contando com o auxílio de um novo sócio, Aldo Labaki, profissional com longa experiência em consultorias e passagens pelo extinto banco Unibanco, consultoria Palladium e FGV Projetos.

“Nossa ideia é basicamente pegar toda a expertise que está acumulada dentro da Vertic, muito em função desse projeto grande de Belo Monte, e colocar no mercado para grandes empresas que tenham atuação em regiões, principalmente na Amazônia. É basicamente replicar aquilo que a gente fez em Belo Monte para outras empresas de natureza similar”, conta Labaki.

Recentemente, no ano passado, a Verthic executou projeto com a Conservation International Brasil, com recursos do Banco Mundial por meio da iniciativa Amazon Sustainable Landscape (ASL) e convênio com o ICMBio, voltado ao monitoramento de regeneração natural, diagnóstico socioeconômico e diálogo comunitário em duas unidades de conservação no Pará.

A estratégia agora é ampliar a carteira de clientes em três frentes: apoiar projetos de restauração florestal e implantação de SAFs, desenvolver iniciativas socioambientais para grandes empresas – incluindo companhias do agronegócio – e atuar em parceria com o poder público na gestão de unidades de conservação com presença de povos indígenas.

Na frente de restauração e SAF, a Verthic traz a experiência adquirida em Belo Monte, onde estruturou dois viveiros com capacidade para produzir 1 milhão de mudas de espécies nativas destinadas à recomposição das áreas impactadas pela usina.

“Hoje a gente está com uma equipe operando esse viveiro que construímos entre 2019 e 2020, produzindo mudas e também fazendo o monitoramento de matrizes, coleta de sementes das matrizes na mata, além de identificação e germoplasma. É uma linha de produção mesmo de espécies nativas de qualidade para plantio”, afirma Fernando Vincenti.

A produção de mudas é um dos principais gargalos para a implantação de sistemas agroflorestais porque esses modelos dependem de uma grande diversidade de espécies nativas e agrícolas.

Muitas dessas mudas não estão disponíveis em quantidade suficiente, exigem coleta de sementes, produção especializada e tempo para crescimento. “Sem uma oferta adequada de mudas de qualidade, projetos de restauração e de SAFs acabam atrasando ou ficam limitados em escala”, resume Vincenti.

Implantar sistemas agroflorestais, de modo geral, está longe de ser uma tarefa simples, ressaltam os diretores da Verthic.

Além da necessidade de mudas de qualidade e em quantidade suficiente, os projetos dependem da construção de relações de confiança com comunidades locais, muitas delas indígenas, cuja dinâmica social e cultural difere da lógica dos grandes centros urbanos. "O tempo dos indígenas é outro, e nem todo mundo entende isso", afirma Aldo Labaki.

Outro gargalo, segundo os sócios da Verthic, é a escassez de mão de obra qualificada para implantar e acompanhar os SAFs.

Um exemplo: profissionais vindos de outras regiões frequentemente enfrentam dificuldades para compreender a realidade amazônida e estabelecer um diálogo efetivo com as comunidades locais, o que pode comprometer o andamento dos projetos.

É nesse contexto que a Verthic planeja preencher uma fatia de mercado, dada sua experiência na Amazônia.

Em paralelo à implantação de SAFs, a consultoria também busca alcançar empresas que precisam desenvolver programas socioambientais no Norte do Brasil.

Grandes companhias de diferentes setores, inclusive do agro, já mantêm conversas com a consultoria, mas Labaki prefere não revelar quais são essas empresas por ora.

Uma terceira frente de atuação da Verthic planeja alavancar são parcerias com o poder público, especialmente com prefeituras e governos estaduais, mas também órgãos do governo federal, que enfrentam dificuldades na gestão e no diálogo com comunidades indígenas.

Aldo Labaki diz que a empresa pretende colocar sua experiência à disposição de projetos envolvendo unidades de conservação com presença de povos indígenas, área em que avalia ter capacidade técnica para apoiar iniciativas de gestão e mediação entre os diferentes atores envolvidos.

“A ideia é atuar seja com prefeituras municipais, com cooperativas ou mesmo com agrupamentos de produtores rurais, que têm dificuldade em regularizar a sua área, manter uma área que já está regularizada ou ainda mais monetizar essas áreas. Acho que esse é o grande desafio para um pequeno produtor ou para um médio produtor”, explica.

Desde sua criação, sob diferentes contratos, a Verthic já faturou mais de R$ 200 milhões. Mas a ideia dos sócios é ir além, nos próximos anos, a partir da diversificação de suas operações, ainda que não arrisquem definir um valor por ora.

Resumo

  • Após coordenar mais de 200 projetos em Belo Monte, Verthice quer levar sua experiência em SAFs e restauração ao agronegócio
  • Consultoria aposta em viveiros, produção de mudas e mercado de carbono para ampliar atuação com empresas e setor público
  • Empresa mira gestão ambiental, recuperação de áreas degradadas e projetos com comunidades indígenas na Amazônia