Depois de provar que existe demanda por soja regenerativa, o Reg.IA entrou agora em uma nova fase: descobrir como financiar sua expansão.

O consórcio, idealizado pela startup Produzindo Certo e que reúne empresas como Bayer, Milhão Ingredients e BrasilSeg, recebeu 100 mil libras (aproximadamente R$ 700 mil) em capital catalítico - recursos a um custo mais baixo, geralmente oferecidos por governos e instituições de fomento para acelerar projetos que exigem capital mais paciente - do programa britânico Partnerships for Forests (P4F) para estruturar um modelo de negócios capaz de atrair novos parceiros e transformar a agricultura regenerativa em uma plataforma de serviços para o produtor.

Segundo explicaram ao AgFeed os fundadores da empresa, Aline e Charton Locks,  a ideia é fazer com que a remuneração pela adoção de práticas regenerativas deixe de depender apenas do prêmio pago pela venda de soja e milho e passe a incorporar outros benefícios, como seguro rural com condições diferenciadas, acesso facilitado a crédito, insumos, programas de insetting e outras iniciativas capazes de reduzir o custo da transição nas fazendas.

Na avaliação dos idealizadores do programa, foi justamente essa necessidade que surgiu após as duas safras iniciais do Reg.IA, primeiro consórcio de agricultura regenerativa da América Latina.

O modelo mostrou que produtores e empresas estão dispostos a negociar grãos regenerativos, mas também evidenciou que depender exclusivamente do prêmio pago pela comercialização do produto físico limita a velocidade de expansão da agricultura regenerativa.

"A gente começou buscando empresas comprometidas em adquirir esse grão com alguma premiação. Mas entendemos que é muito difícil deixar todo esse adicional concentrado em quem compra o produto lá na frente. Precisávamos repensar como distribuir esse valor para o produtor", afirmou Aline, a CEO da Produzindo Certo, após um evento produzido pela empresa e realizado na sede da BrasilSeg, um dos parceiros do Reg.IA, em São Paulo.

Na safra 2024/25, o programa certificou 149,1 mil toneladas de soja regenerativa e 9,2 mil toneladas de milho segunda safra em aproximadamente 37 mil hectares. Neste segundo ciclo, o número de produtores passou de cerca de 30 para pouco mais de 40, elevando a área regenerativa para aproximadamente 50 mil hectares.

Hoje, produtores participantes têm direito a receber um prêmio de até 2% sobre os volumes de soja e milho previamente comprometidos por empresas apoiadoras, como BRF e Milhão Ingredients. Eles não são obrigados a vender sua produção para essas companhias, mas têm a garantia de receber o bônus caso optem pela comercialização e atendam aos critérios do programa.

O próximo passo, porém, é fazer com que esse prêmio seja apenas um dos benefícios oferecidos aos agricultores.

É nesse momento que o novo modelo sendo desenhado que o Reg.IA recebeu o capital catalítico do P4F. O recurso será utilizado para estruturar o plano de negócios, a governança e a política de claims do programa (conjunto de regras que definirá como as empresas poderão comunicar os impactos ambientais associados às áreas regenerativas apoiadas).

A expectativa é que, uma vez concluída essa estrutura, o consórcio esteja preparado para buscar novos parceiros e, eventualmente, acessar uma segunda rodada de recursos do próprio P4F entre 2026 e 2028, em um volume estimado entre três e cinco vezes superior ao atual.

"Esse recurso veio justamente para a gente pensar esse modelo de negócio e entender como o Reg.IA pode ganhar escala", disse Aline Locks.

Na prática, a proposta é transformar o programa em uma espécie de plataforma capaz de reunir empresas interessadas em financiar diferentes benefícios ao produtor em troca dos atributos ambientais gerados nas fazendas.

"O Reg.IA começou a se tornar um ímã de iniciativas. As empresas enxergam aqui um ambiente onde conseguem trazer uma oferta real em que elas ganham e o produtor também", afirmou o COO da Produzindo Certo, Charton Locks.

Segundo ele, a expectativa é que, com todas essas etapas concluídas e bem sucedidas, o Reg.IA persiga uma meta, a partir de 2028, de reunir cerca de 10% de todos os grãos regenerativos do País.

O executivo projeta que isso aconteça entre cinco a 10 anos, considerando o tempo que iniciativas como o RTRS (Round Table on Responsible Soy, ou Mesa Redonda de Soja Responsável, na tradução do inglês) devem atingir áreas similares.

Ele cita que hoje a Produzindo Certo é a empresa que mais origina soja RTRS no mundo. "Das 10 milhões de toneladas, nós fazemos 2 milhões em fazendas parceiras. É um mercado que também cresce e que também têm prêmios", disse.

Um dos primeiros exemplos dessa estratégia de se "tornar um ímã" veio com a entrada da BrasilSeg no consórcio.

A seguradora passou a utilizar dados coletados pelo programa, como matéria orgânica do solo, histórico de produtividade e indicadores agronômicos, para desenvolver propostas de seguro rural específicas para produtores participantes. Nesta primeira rodada, entre sete e oito agricultores devem aderir ao modelo.

Charton Locks cita que, dos quase 50 agricultores que fazem parte do Reg.IA, apenas um já contratava seguro rural.

Outro novo parceiro é a InPlanet, empresa com atuação no Brasil e na Alemanha e focada em geração de créditos de carbono a partir da utilização de pó de rocha nas lavouras. O COO explicou que, na parceria, a companhia oferece o pó de rocha aos participantes de forma gratuita, cobrando apenas o frete e aproveitando seu modelo de negócios baseado na remoção de carbono.

Além disso, Locks citou que os produtores do Reg.IA já conseguem acessar descontos previstos no Plano Safra por utilizarem o Protocolo Produzindo Certo, reconhecido como prática sustentável pelo governo federal, bem como linhas privadas de financiamento voltadas à adoção de culturas de cobertura.

Segundo Charton Locks, a intenção é que o consórcio funcione como um ambiente capaz de conectar produtores a diferentes mecanismos de incentivo.

"Ficar restrito à soja física com prêmio tem dificuldade de escalar. A gente precisa trazer seguro, insumos, linhas de crédito e permitir que empresas que nem compram diretamente do produtor também consigam participar desse mercado", afirmou.

O executivo ainda revelou que a a plataforma tecnológica do Reg.IA está sendo adaptada para permitir que empresas possam adquirir os atributos ambientais associados à produção regenerativa mesmo sem comprar fisicamente a soja ou o milho.

O modelo funcionaria de maneira semelhante aos mercados de créditos ambientais, transferindo ao comprador informações verificadas sobre carbono, sustentabilidade, rastreabilidade e outros indicadores da produção, sem permitir dupla contagem desses benefícios.

A iniciativa busca atender principalmente empresas que possuem metas de redução de emissões em suas cadeias de suprimento (estratégia conhecida como insetting), mas que normalmente estão distantes da comercialização direta dos grãos.

Enquanto estrutura esse novo modelo, o programa ainda convive com um desafio típico de iniciativas em estágio inicial: financiar sua própria expansão.

Segundo Charton, o interesse dos produtores supera com folga a capacidade operacional atual do Reg.IA. Segundo ele, a Produzindo Certo possui cerca de 11 mil agricultores cadastrados em sua base, mas o número de participantes do consórcio depende dos recursos disponíveis para custear assistência técnica, monitoramento, coleta de solo e medição dos indicadores ambientais exigidos pelo programa.

"O produtor quer fazer a transição, mas ela tem custo. Ao mesmo tempo, as empresas querem apoiar essa mudança, mas ainda precisam de segurança sobre os resultados. O Reg.IA tenta preencher justamente essa lacuna", afirmou.

Resumo

  • Reg.IA recebe R$ 700 mil em capital catalítico para estruturar governança, plano de negócios e escalar a agricultura regenerativa
  • Após duas safras, consórcio quer ir além do prêmio de 2% e reunir seguro, crédito, insumos e insetting em uma única plataforma
  • Programa reúne mais de 50 mil hectares e mira alcançar 10% da produção brasileira de agricultura regenerativos após 2028