O site ainda está no ar, com ofertas das lojas parceiras. Mas desde a terça-feira, 3 de agosto, não há atualização. Também não aparece na página do marketplace Agrofy nenhuma informação sobre a suspensão da operação da companhia no Brasil.

Nos últimos dias, a notícia correu apenas entre antigos colaboradores. Os últimos deles, depois de um período de enxugamento das equipes, foram desligados no início do mês.

Foi assim, de forma discreta, que a empresa argentina, criada em 2015, realizou sua retirada do País, mercado crucial para sua ambição de se tornar o “Mercado Livre do Agro” – numa referência expressa à sua conterrânea que se se consolidou como uma potência do comércio eletrônico.

Até mesmo ao comentar a decisão, a companhia foi econômica. “Não há muito a comentar além do que já comunicamos”, afirmou o CEO da Agrofy, Maximiliano Landrein, em um comentário por escrito enviado ao AgFeed após ser procurado com um pedido de entrevista sobre o tema.

“Continuamos na Argentina como sempre, mas vamos investir tudo em IA para desenvolver uma solução baseada nessa tecnologia. Queremos retornar ao Brasil com ela e, paralelamente, estamos avaliando algumas opções de parceria, mas nosso foco é 100% em IA”.

A reportagem não localizou nenhum comunicado emitido pela Agrofy a respeito da situação brasileira. O AgFeed também procurou o fundo paulista SP Ventures, investidor da companhia, que não respondeu ao pedido de entrevista, que poderia esclarecer como fica a relação com as empresas parceiras e as transações realizadas pela plataforma.

O desembarque da Agrofy no Brasil ocorreu em 2018, cercado de expectativas e com o desafio de “digitalizar” processo de compra de insumos, equipamentos e outros produtos pelo produtor rural.

Nos primeiros anos, a Agrofy apresentou taxas de crescimento elevadas – 400% e 200% em 2019 e 2020, respectivamente, segundo informações da própria empresa. Na época, a base para comparação era pequena e o cenário dos mercados de insumos e máquinas era positivo.

O ritmo de expansão no Brasil despertou o interesse dos investidores pela empresa. Em 2020, a empresa levantou US$ 20 milhões em uma rodada de série B liderada pela SP Ventures, a maior captação do gênero na América Latina até então.

Pouco menos de dois anos depois, em dezembro de 2021, outra rodada expressiva, de US$ 30 milhões, trouxe para o captable da Agrofy nomes globais de peso, como Yara, Syngenta e Bunge.

No total, desde sua criação, a empresa levantou mais de US$ 65 milhões, um valor atingido por poucas agtechs latino-americanas.

Os recursos seriam investidos, segundo a companhia informou na época, na expansão da própria plataforma, além da ampliação de serviços no país, incluindo atendimento telefônico para a apoiar o fechamento de negócios e a implementação de produtos financeiros, como o Agrofy Pay e Agrofy Crédito.

Em 2022, depois de crescer outros 78%, o Brasil já era responsável por 40% do volume de negócios gerados pela Agrofy, que somou US$ 28 milhões considerando os oito países de atuação.

Os planos continuavam ambiciosos, mas os resultados começaram a perder velocidade, sobretudo após a virada no clima dos mercados de commodities, que reduziu drasticamente as vendas e as margens nos setores de distribuição de insumos e máquinas agrícolas.

No final 2023, em entrevista ao AgFeed, o então diretor de vendas da companhia para a América latina, Diego Arruda, estimou o crescimento em 15%, naquele ano, e informou que a empresa reduziria o ritmo de investimentos para atingir o equilíbrio financeiro das operações no Brasil – a expectativa era chegar ao break even no país em 2024.

A ideia da companhia era ampliar o número de parceiros comerciais e, assim, a oferta de produtos, para gerar mais receitas para a empresa.

Na ocasião, a empresa afirmava ter 600 mil visitas mensais em sua página brasileira, gerando cerca de 40 mil leads (ou início de processos de vendas).

Na mesma época, entretanto, a empresa começava a ouvir as primeiras contestações em torno do potencial do seu modelo de negócios. Em setembro de 2023, a BrasilAgro, que figurava entre os primeiros investidores da empresa, com mais de US$ 1 milhão aplicados, fez um impairment relativo desse investimento, reduzindo o valor do ativo no balanço de R$ 4,8 milhões para apenas R$ 1,2 milhão — um corte de 80,3%.

Então, em uma conferência com analistas, o diretor financeiro da BrasilAgro, Gustavo Lopez, classificou a empresa como "pré-operacional" e disse que a avaliação poderia se recuperar se a companhia "se tornar operacional" — uma caracterização que a Agrofy rebateu publicamente, afirmando que faz receita há anos e que o registro era uma questão contábil do acionista.

A partir de 2024, a operação da Agrofy no Brasil perdeu ainda mais velocidade e entrou em um processo de encolhimento, com redução de pessoal e mesmo de parceiros.

A empresa chegou a anunciar, nos seus melhores momentos, ter mais de mil marcas na sua plataforma no País, inclusive algumas grandes companhias de insumos e máquinas. Nesta quarta-feira, 5 de agosto, o site ainda no ar expõe exatas 105 lojas de empresas parceiras, a maior parte delas de porte regional.

A saída do Brasil, assim, pode ser de fato um freio de arrumação para a volta com um novo modelo. Mas também pode ser um caso emblemático do ajuste das agtechs latino-americanas ao fim do ciclo de dinheiro fácil: captou cedo, em rodadas grandes e com acionistas estratégicos do agro, mas teve de trocar a narrativa de crescimento acelerado pela disciplina de caixa, mais enxuta e com menos ambição.

Resumo

  • Agrofy suspendeu as operações no Brasil e concentrará investimentos em IA, mantendo atuação apenas na Argentina
  • Agtech captou mais de US$ 65 milhões, mas desacelerou após a piora do mercado de insumos e máquinas agrícolas
  • Empresa promete voltar ao Brasil com novo modelo de negócios baseado em inteligência artificial e parcerias