A Cosan acelerou a redução do endividamento, vendeu ativos, antecipou o pagamento de dívidas e levantou R$ 10,5 bilhões com novos e antigos acionistas.
Mas um indicador divulgado pela própria holding na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) ainda expõe um dos principais desafios de sua recuperação financeira.
O Índice de Cobertura do Serviço da Dívida (ICSD) caiu para apenas 0,2 vez no segundo trimestre de 2026, ante 1,2 vez no início de 2025.
Na prática, isso significa que os dividendos recebidos das empresas do grupo nos últimos 12 meses representaram somente cerca de 20% dos juros líquidos pagos no período.
Mais do que o patamar atual do ICSD da Cosan, chama atenção a trajetória de deterioração do indicador.
O ICSD ficou em 1,2 vez no primeiro e no segundo trimestres de 2025, caiu para 1 vez no terceiro e 0,9 vez no quarto. Neste ano, recuou para 0,4 vez no primeiro trimestre e, finalmente, 0,2 vez no segundo.
Uma fonte do mercado comentou ao AgFeed que “não é uma preocupação de curtíssimo prazo, mas é um sinal da necessidade de a holding ajustar sua estrutura de capital, sobretudo em períodos de juro elevado”.
A crítica sobre os juros altos é uníssona no mercado e uma espécie de mantra do próprio Rubens Ometto, principal acionista da Cosan, há anos.
“Os juros que você paga para carregar algumas posições são maiores do que os dividendos que recebe”, tem repetido Ometto ao abordar o tema.
Desalavancagem
Essa trajetória ajuda a explicar por que a Cosan definiu o “foco contínuo em desalavancagem” como prioridade, apesar dos avanços já obtidos no balanço.
No segundo trimestre, a companhia registrava R$ 9,2 bilhões em dívida líquida expandida, abaixo dos R$ 11,5 bilhões observados apenas três meses antes.
Na comparação com os R$ 9,8 bilhões do fim de 2025, porém, a redução é bem mais modesta.
A diferença é maior quando se observa a dívida bruta expandida.
Ela recuou de R$ 25,7 bilhões no quarto trimestre de 2025 para R$ 19,2 bilhões no primeiro trimestre deste ano e R$ 16,5 bilhões no segundo.
Em seis meses, foram eliminados aproximadamente R$ 9,2 bilhões, ou 36% do estoque bruto.
O contraste entre as duas métricas indica que uma parcela relevante da queda da dívida bruta ocorreu com a utilização do caixa disponível para amortizar obrigações.
A companhia também antecipou compromissos financeiros. Neste ano, realizou resgates integrais de bonds com vencimentos em 2029, 2030 e 2031, além de antecipar ou realizar ofertas para aquisição de debêntures e notas comerciais.
A mudança começou a ganhar força ainda em 2025, quando a Cosan realizou aumento de capital de R$ 10,5 bilhões, com participação de Aguassanta, BTG Pactual e Perfin Infra.
Segundo a companhia, os recursos foram destinados primordialmente à amortização da dívida da holding.
Ao mesmo tempo, a Cosan reorganizou o perfil do endividamento, que atualmente apresenta prazo médio de 6,2 anos e custo médio de CDI mais 1,15% ao ano.
Venda de ativos
Segundo a fonte ouvida pelo AgFeed, os desinvestimentos têm ajudado a impedir que a baixa cobertura dos juros se traduza em aumento do endividamento.
A maior operação foi a saída da Vale. A venda de uma participação de 4,05% em janeiro de 2025 movimentou R$ 9,05 bilhões, enquanto a alienação dos 0,1% restantes em janeiro deste ano somou R$ 320 milhões.
Em 2026, a Cosan também realizou uma oferta secundária de ações da Compass, que destinou R$ 2,3 bilhões à holding.
Além delas, a Radar, braço de gestão de propriedades agrícolas, acertou a venda de imóveis em Mato Grosso por R$ 586 milhões.
Há ainda uma carta de intenções para a alienação do TUP Porto São Luís, por R$ 300 milhões.
A apresentação institucional de setembro mostra que o movimento pode continuar.
A Cosan está avaliando alternativas para vender parte de sua participação na Rumo, empresa de logística na qual mantém fatia de 30,4%.
Próximo passo
Agora, um dos desafios é fazer a melhora do balanço aparecer também na cobertura recorrente dos juros pelos dividendos recebidos das investidas.
A própria Cosan projeta uma reação expressiva do ICSD até dezembro.
A estimativa é que o indicador encerre 2026 entre 0,8 e 1,2 vez, ante apenas 0,2 vez no segundo trimestre, apoiado por R$ 1,3 bilhão a R$ 1,8 bilhão em dividendos recebidos e a receber.
A projeção considera recursos relacionados à operação de venda de ativos da Radar, mas não incorpora eventuais novos desinvestimentos.
Resumo
- ICSD caiu de 1,2 vez no início de 2025 para apenas 0,2 vez no segundo trimestre deste ano
- Venda da Vale, Compass e imóveis da Radar reforçou caixa para amortização de obrigações
- Cosan avalia alternativas para reduzir sua participação de 30,4% na Rumo