As restrições impostas pela União Europeia às carnes brasileiras desde setembro têm feito empresas que atuam no setor de saúde e nutrição animal a revisarem seus para o País. Uma delas, a dsm-firmenich antecipou três de suas estratégias mais relevantes para o Brasil, antecipando lançamentos para atender a demandas que não esperava que acontecessem em tão curto prazo.

A iniciativa da companhia combina a entrada no mercado de eubióticos com a ampliação da presença da companhia em saúde animal e entre monogástricos, como aves e suínos. A multinacional já tem posição destacada em nutrição animal e ruminantes.

O primeiro movimento foi adiantar para o Brasil o lançamento mundial do AccuGut C.1, solução eubiótica voltada principalmente ao manejo da coccidiose em aves.

Segundo Rafael Sens, gerente de portfólio para a América Latina, a chegada ao mercado brasileiro foi acelerada diante das novas exigências europeias.

“Evidentemente que nós, sabendo do que está acontecendo, aceleramos. Quanto mais o cliente vender para a Europa, mais ele está predisposto à tecnologia. Então, sim, antecipamos. Aqui é o primeiro lançamento no mundo oficialmente”, afirma.

A União Europeia (UE) suspendeu em 3 de setembro a entrada de diferentes produtos de origem animal do Brasil por considerar insuficientes as garantias apresentadas pelo País sobre o controle do uso de antimicrobianos.

A medida atingiu, entre outros produtos, carnes bovina, de frango e suína. O governo brasileiro contesta a decisão e negocia a retomada do comércio. O tamanho do mercado em risco ajuda a explicar a reação das empresas.

Em 2025, o Brasil exportou US$ 763 milhões (R$ 4,1 bilhões) em carne de frango e US$ 1,049 bilhão (R$ 5,6 bilhões) em carne bovina para a UE. Somadas, as vendas das duas proteínas ao bloco alcançaram cerca de US$ 1,8 bilhão (R$ 9,7 bilhões).

A perspectiva atual é de uma solução mais rápida para as aves, enquanto a retomada dos bovinos pode levar até dois anos.

A restrição está ligada ao esforço internacional para reduzir o uso de antimicrobianos na produção animal, principalmente diante do risco de seleção de bactérias resistentes.

O uso recorrente dessas substâncias pode favorecer microrganismos capazes de sobreviver aos medicamentos, reduzindo a eficácia dos tratamentos.

É justamente nesse espaço que avançam os eubióticos, grupo que inclui alternativas como acidificantes, probióticos e produtos à base de óleos essenciais.

A dsm-firmenich estima deter entre 20% e 25% do mercado formado por essas três categorias entre monogástricos no País, desconsiderando antibióticos e coccidiostáticos.

Mudança maior

O movimento ocorre em meio a uma transformação maior do negócio da companhia. Em fevereiro, a dsm-firmenich acertou a venda de 80% da divisão de Animal Nutrition & Health para a CVC Capital Partners.

A operação avaliou o negócio em cerca de 2,2 bilhões de euros (R$ 12,3 bilhões), e a multinacional manterá participação de 20%. O fechamento está previsto para o fim deste ano.

Enquanto a transação não é concluída, o negócio de saúde e nutrição animal avança na estratégia de ampliar a associação da marca com sanidade, sem abandonar sua posição tradicional em nutrição.

“Todo mundo reconhece nosso negócio como líder em nutrição animal. Queremos que, quando o cliente pense em um probiótico ou acidificante, sejamos a referência”, diz Sens.

A estratégia também envolve maior aproximação com veterinários e sanitaristas das granjas, além dos nutricionistas com os quais a companhia tradicionalmente mantém relacionamento.

Nos últimos cinco anos, segundo os executivos, 40% dos recursos destinados a pesquisa e inovação na América Latina foram direcionados à saúde intestinal.

A companhia prevê cerca de 15 lançamentos nos próximos cinco anos, incluindo produtos de saúde e nutrição animal.

Prejuízo bilionário

A aposta inicial dessa estratégia está na coccidiose, doença provocada por protozoários do gênero Eimeria, que atacam o intestino das aves.

Além de mortalidade nos quadros mais graves, a doença provoca perda de peso e piora da conversão alimentar. São efeitos menos visíveis, mas economicamente ainda mais relevantes.

“Normalmente, o produtor não está vendo o que mais impacta. É a piora no peso e na conversão, que ele vai perceber quando o lote fecha e as contas não se encaixam”, explica Patrícia Rocha, gerente de Eubióticos da dsm-firmenich.

Um estudo publicado em 2020 na revista científica Veterinary Research, com dados econômicos referentes a 2016, estimou em cerca de US$ 1,3 bilhão por ano o impacto da coccidiose sobre a avicultura brasileira, o equivalente a aproximadamente R$ 7 bilhões.

Segundo os números citados pela especialista, aproximadamente US$ 1,05 bilhão (R$ 5,6 bilhões) está relacionado a perdas de produtividade, US$ 176 milhões (R$ 940 milhões) a gastos com prevenção e controle da doença e outros US$ 108 milhões (R$ 580 milhões) à mortalidade das aves.

É nesse contexto que a companhia posiciona o AccuGut C.1. O produto combina componentes de origem vegetal, incluindo óleos essenciais e yucca, e pode integrar programas de manejo destinados a reduzir a dependência de coccidiostáticos químicos e ionóforos. A empresa ressalta que ele não é um anticoccidiano tradicional.

O problema tem ainda outra dimensão porque as lesões provocadas pela Eimeria podem favorecer infecções secundárias, como as causadas pela bactéria Clostridium perfringens.

Com menos ferramentas antimicrobianas disponíveis, preservar a integridade intestinal passa a ganhar peso na estratégia sanitária das granjas.

“Não estamos posicionando o produto para retirar as ferramentas tradicionalmente disponíveis”, ressalta Patrícia. A proposta, diz, é utilizá-lo como suporte ao controle da coccidiose, combinado a medidas de prevenção no ambiente, higiene, nutrição e manejo.

A expectativa da dsm-firmenich é que o AccuGut represente cerca de 5% das vendas da categoria formada por probióticos, acidificantes e óleos essenciais já em seu primeiro ano.

Resumo

  • Empresa acelera portfólio de soluções para substituir ou reduzir a dependência de antimicrobianos
  • Saúde animal ganha peso na estratégia, com maior aproximação de veterinários e sanitaristas
  • Aves e suínos viram foco de expansão para complementar liderança histórica da companhia em ruminantes