Três meses após aprovar sua liquidação, a cooperativa gaúcha Piá começou a dar novos passos na missão de se reerguer. Na noite desta segunda-feira, 8 de junho, associados aprovaram um pré-acordo com a Tirol, empresa de laticínios catarinense.

Entre as medidas previstas, está a venda da marca Piá pela cooperativa, que tem sede em Nova Petrópolis (RS). Em nota, a cooperativa pontuou que a medida - venda da marca Piá e suas submarcas - estava prevista dentro da estratégia de continuidade dos negócios.

Do lado da Tirol, também em nota, a companhia destacou que ainda há uma etapa de aprovações na negociação, mas que a compra está alinhada a uma "estratégia de crescimento sustentável, sempre com respeito à tradição, à qualidade e à relevância regional da marca Piá".

O atual liquidante da Piá, Jorge Dinnebier, explicou que não haverá venda de ativos e que a cooperativa continua com o direito de exercer a marca para produtos não-lácteos.

"A ação busca fortalecer os negócios da cooperativa e garantir a continuidade da produção, já que o pré-acordo permite a utilização da planta industrial de lácteos para terceiros ou, ainda, o desenvolvimento de uma nova marca e a industrialização de produtos próprios”, destacou no comunicado.

A liquidação da Cooperativa ocorreu no final de março deste ano e serviu para suspender ações judiciais e dar um certo fôlego à Piá por algum tempo.

"Essa é uma medida legal e necessária para reorganizar a cooperativa em um momento desafiador. A partir dela, conseguiremos criar condições mais seguras para renegociar dívidas, obtendo ampliação nos prazos, redução nas taxas de juros, descontos para poder reequilibrar a operação", disse Dinnebier, em nota veiculada na época.

Com isso, nada mudou no dia a dia da cooperativa. Em sua conversa mais recente com o AgFeed, pouco antes de a liquidação ser aprovada, Dinnebier chegou a dizer que, no dia seguinte da aprovação da liquidação, a Piá - que já foi uma das gigantes do leite no Rio Grande do Sul - continuaria a recolher leite, fabricando e vendendo produtos.

Na avaliação de Dinnebier, a liquidação traria mais confiança aos investidores, fornecedores e clientes de que não terão problemas em fechar acordos com a cooperativa. Dito e feito.

Mesmo com o acordo sendo firmado, a fabricação dos produtos lácteos sob a marca Piá continuarão a ser feitos na unidade de Nova Petrópolis.

A Piá tem uma indústria inaugurada na década passada com capacidade de industrialização de 1 milhão de litros e que nunca chegou ao potencial máximo - no auge, chegou a bater a marca de 680 mil litros.

A cooperativa não revela o número atual de captação, mas diz que o montante atual é bem menor do que o projetado para o fim de 2025. Para sustentar a operação, o volume ideal seria alcançar ao menos os 200 mil litros por dia.

Nos últimos meses, a Piá já havia vendido algumas unidades de supermercados que possuía nas cidades de Nova Petrópolis, Santa Maria do Herval, Picada Café e Morro Reuter.

Do lado da Tirol, o movimento traz mais um ingrediente ao cenário de M&As vistos no setor. Uma reportagem especial recente publicada pelo AgFeed mapeou que gigantes como Piracanjuba, Tirolez, Levitare, Polenghi e Quatá estão no centro de um momento aquecido de fusões e aquisições no setor de laticínios.

Os motivos vão desde acesso a linhas diferentes de produtos até o acesso a clientes de novas geografias.

No caso da Tirol, a empresa aproveita uma marca tradicional na região Sul - onde a própria compradora da marca já tem grande penetração de mercado - ao mesmo tempo que garante uma grande bacia leiteira local como fornecedora. A Piá conta com mais de 20 mil associados.

Hoje em dificuldades financeiras, a Piá já foi um gigante do mercado regional gaúcho de leite e, mesmo com presença reduzida em muitos pontos de venda, ainda figurou como a marca de leite mais lembrada pelos consumidores gaúchos na edição do ano passado da tradicional pesquisa Top of Mind, da revista Amanhã, de Porto Alegre.

Resumo

  • Associados da Piá aprovam pré-acordo para venda da marca de lácteos à Tirol
  • Venda da marca faz parte da estratégia de continuidade dos negócios após liquidação da cooperativa
  • Negócio reforça movimento de consolidação e M&As no setor brasileiro de laticínios