O Congresso Brasileiro do Agronegócio, realizado anualmente pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), chega à sua 25ª edição na próxima segunda-feira, 10 de agosto, em São Paulo, em um momento de dilemas vividos pelo setor produtivo: como o agro pode lidar com as várias dificuldades do presente sem perder de vista o futuro.

De um lado, produtores rurais e empresas ligadas ao setor convivem com juros elevados, crédito mais caro, margens pressionadas e um ambiente internacional cada vez mais imprevisível. De outro, o agronegócio precisa discutir como manter a competitividade construída nas últimas décadas e quais serão os motores de seu crescimento para o futuro.

É esse contraste que deve atravessar boa parte dos debates do congresso, que será realizado no badalado Sheraton São Paulo WTC Hotel, na capital paulista, reunindo um line-up e também uma plateia formada por empresários, lideranças do setor e nomes de destaque da política nacional.

A fotografia do presente é sabidamente complicada. O agro chega a 2026 ainda lidando com as consequências de um período de custos elevados, crédito mais restrito e menor rentabilidade em diferentes cadeias, que já vem impactando negativamente o setor há alguns anos.

O início da década, no entanto, foi de mais glórias. Entre 2020 e 2023, a combinação de câmbio competitivo, preços internacionais elevados e demanda aquecida impulsionou receitas recordes para diversas cadeias produtivas e acelerou investimentos no campo, com uma efervescência que há bastante tempo não era vista.

De lá para cá, todavia, com a retração nos preços das principais commodities comercializadas no Brasil, o setor passou a enfrentar fase de acomodação. Produtores passaram a ter de equilibrar preços mais baixos para algumas commodities, além de conviver com custos elevados de produção, resultando em maior cautela nas decisões de investimento.

Para este ano, já era esperado que as eleições gerais trouxessem um risco a mais para os negócios, mas os produtores rurais não contavam que as disputas de poder do comércio internacional e a geopolítica não dessem trégua na primeira metade deste ano, interferindo nos custos de produção e no câmbio.

O primeiro sinal veio logo na virada do ano, quando a China anunciou a adoção de medidas de salvaguarda às suas importações globais de carne bovina, afetando diretamente as exportações da pecuária brasileira.

Depois, em março, o início da guerra no Irã levou ao fechamento imediato do Estreito de Ormuz, gerando uma crise energética global imediata com a interrupção do trânsito de cerca de um quinto da exportação mundial de petróleo e gás natural.

O bloqueio pressionou também a oferta global de fertilizantes, fazendo com que os preços dos adubos disparassem e os fretes ficassem mais caros.

Mais recentemente, foi a vez de os principais produtores de frango do Brasil serem atingidos com outra medida vinda do exterior: a União Europeia decidiu, até segunda ordem, interromper a importação de carne de frango do Brasil por entender que o uso de microbianos na produção nacional não estava em linha com os padrões sanitários do bloco.

Para Ingo Plöger, presidente da Abag, em fala recente da entidade, as dificuldades são próprias de um sistema de comércio global como o vigente hoje ao redor do mundo.

“Se um insumo que vem dos Emirados Árabes tem a entrega interrompida, afeta alguma área nossa diretamente. O custo do frete da China, que era de 500 dólares por container e foi para 2.500 dólares, afeta o agro. Qualquer interferência num sistema tão interligado gera impactos em cadeia”, analisou.

Internamente, os desafios financeiros também não aliviaram a vida do produtor até o momento. As concessões de crédito rural e agroindustrial para produtores pessoa física caíram 17% em 2025, segundo a Serasa Experian, e a perspectiva era baixista também para este ano.

Ao mesmo tempo, o volume de pedidos de recuperação judicial acelerou no primeiro trimestre deste ano, com alta de 33%, segundo dados da consultoria NEOT.

E, claro, a taxa Selic continua em dois dígitos, hoje a 14%, e sem sinais de queda forte no médio prazo, segundo as comunicações mais recentes do Banco Central.

Para Ingo Plöger, o custo de capital se tornou um dos principais obstáculos para a economia brasileira e, especialmente, para um setor que depende de investimentos contínuos para manter a produtividade.

“Com 14,25% de Selic, qualquer spread colocado em cima torna praticamente qualquer atividade econômica inviável. E o Banco Central, nas suas últimas comunicações, já sinalizou que estamos falando mais de 2028 do que de 2026 ou 2027 para um alívio. Isso mata a esperança. E quando você mata a esperança, o trilho da economia brasileira fica muito arriscado”, afirmou.

No campo, o impacto dos juros tem uma particularidade: diferentemente de outros setores, parte dos investimentos não pode simplesmente ser interrompida sem comprometer o resultado das próximas safras.

“Não posso deixar de colocar insumo na terra por dois anos. Vou sentir o impacto na produtividade. Posso adiar a compra de um implemento agrícola? Posso, mas a manutenção vai encarecer minha operação lá na frente”, disse.

Na avaliação de Plöger, os efeitos de um ambiente prolongado de juros elevados extrapolam o agronegócio e afetam toda a economia.

“Quem paga mais caro por isso não são os mais ricos, são os mais pobres. O endividamento das pessoas de menor renda no Brasil, com as taxas que temos hoje, é uma bomba-relógio”, afirmou.

A menos de 60 dias do primeiro turno das eleições presidenciais, a Abag também pretende colocar em debate quais devem ser as prioridades estratégicas do agro para o próximo ciclo de governo.

No painel “Novo Governo: Prioridades e Compromissos”, a entidade deve apresentar uma agenda com propostas e demandas do setor, buscando contribuir para a construção de uma estratégia de Estado para o agronegócio brasileiro.

Mais do que uma lista de reivindicações, a proposta é discutir os pilares que, na visão da Abag, serão determinantes para a competitividade do país nos próximos anos, envolvendo segurança jurídica, ampliação dos investimentos, infraestrutura, acesso a financiamento e uma agenda de desenvolvimento sustentável.

A programação também deve reunir representantes de diferentes correntes políticas. Entre os nomes esperados estão o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, o ex-presidente Michel Temer, o ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, entre outras figuras relevantes da política nacional.

Visão de futuro

Mas a agenda do congresso não estará restrita às dificuldades imediatas enfrentadas pelo produtor rural.

Diante de um cenário de pressão financeira e incertezas, a Abag avalia que o desafio do agro é também construir uma visão de futuro capaz de orientar o próximo ciclo de crescimento do setor.

Isso se reflete no tema escolhido para a edição do Congresso deste ano, “Agro & Indústria”, que reflete justamente uma das principais apostas da Abag: a integração crescente entre produção rural, transformação industrial e inovação.

A ideia é que essa temática esteja inserida entre os diferentes painéis do congresso a ser realizado nesta segunda-feira.

Para Ingo Plöger, o tema se justifica porque a agricultura tropical brasileira criou uma dinâmica própria no mundo, aproximando o campo da lógica industrial.

“O campo funciona como uma indústria a céu aberto”, afirmou Plöger em fala recente. Segundo o presidente da Abag, a possibilidade de múltiplas safras ao longo do ano exige planejamento, integração logística e eficiência semelhantes às encontradas nos processos industriais.

Essa característica, analisou Plöger, coloca o Brasil em uma posição diferenciada entre os grandes produtores globais e abre espaço para uma nova etapa de desenvolvimento baseada em maior agregação de valor.

“Hoje, a realidade é que o campo funciona como uma indústria a céu aberto. Temos mais investimentos ali do que em galpões industriais fechados”, ressaltou

“Quando você tem três safras, está trabalhando próximo do just-in-time, a mesma lógica da indústria. Uma safra empurra a outra, os insumos precisam chegar no tempo certo, a logística não pode falhar. Isso não existe nos Estados Unidos, que planta soja com uma safra por ano, nem na Rússia, que produz trigo.”

É por isso que, para Plöger, o agro brasileiro precisa formular uma estratégia semelhante à adotada pela indústria, com uma visão até 2050.

A aposta da Abag é que as principais vocações do país – produção de alimentos, energia renovável e sustentabilidade – sejam transformadas em vantagens competitivas globais.

“O agro precisa construir sua visão 2050, assim como a indústria já fez”, ressaltou Plöger, em referência ao documento “Indústria 2050”, lançado recentemente pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), que trouxe uma série de propostas para melhorar o ambiente de negócios e alavancar o desenvolvimento nacional.

“Quando você pergunta ao brasileiro o que ele imagina do país daqui a 30 anos, três vocações aparecem com muita clareza: a alimentar, a energética e a de sustentabilidade”, disse o presidente da Abag.

“Ninguém tem dúvida de que o Brasil tem uma contribuição alimentar gigantesca a fazer. Na parte energética, somos avançados com os biocombustíveis. E na sustentabilidade, a consciência sobre Amazônia e mata nativa está muito presente na sociedade, mesmo que de forma imperfeita.”

Além dos desafios conjunturais, o presidente da Abag destacou, em fala recente, que algumas regiões brasileiras devem assumir papel estratégico no próximo ciclo de expansão do agronegócio.

Plöger citou o que chama de “Pumas Tropicais”: seis estados e regiões que, segundo ele, combinam crescimento econômico acelerado, integração entre campo e cidade e forte potencial de desenvolvimento.

O grupo reúne Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Paraná, Tocantins e parte do Piauí. “Eles estão crescendo a índices de PIB superiores aos da China”, analisou Plöger.

O presidente da Abag destaca que uma característica dessas regiões é a predominância de cidades médias, geralmente com menos de 400 mil habitantes, onde a relação entre o setor produtivo e o ambiente urbano é mais próxima.

Para Plöger, a escassez de mão de obra, embora seja uma das principais reclamações dos empresários locais, também revela um processo de transformação econômica, com geração de renda e expansão da classe média.

“O empreendedorismo supera o assistencialismo e isso é visível no consumo e nos hábitos dessas cidades”, afirmou.

Resumo

  • 25º Congresso da Abag debate desafios do agro em meio a juros altos, crédito restrito e turbulências geopolíticas
  • Setor busca preservar competitividade e construir uma estratégia de longo prazo para o agro brasileiro até 2050
  • Tema “Agro & Indústria” destaca integração entre campo, indústria e inovação