De um lado, uma empresa jovem, ligado a um grupo tradicional e com escala. De outro, uma agtech munida de modernas ferramentas de edição gênica, que despertou interesse de grandes players internacionais.

É com essas credenciais que a Valeouro Biotec, nascida em 2021 dentro do ecossistema da Ourofino Química, e a Symbiomics, start-up paulista que tem entre seus investidores o braço de venture capital da multinacional Corteva, acabam de firmar uma parceria para desenvolver uma nova geração de insumos biológicos.

O acordo, antecipado ao AgFeed, une expertises complementares, com a agtech ficando responsável pela fase inicial de P&D, através de sua a plataforma de descoberta e reprogramação de microrganismos, e a indústria de biológicos assumindo a missão de dar escala na produção e comercialização dos bioinsumos.

O primeiro produto só deve chegar às lavouras na próxima década. Se tudo correr conforme o previsto, será um biofungicida voltado para as culturas de soja, milho, algodão e cana-de-açúcar. Pela parceria, ele e outras tecnologias desenvolvidas em conjunto serão propriedade da Valeouro, com a Symbiomics recebendo royalties a partir da comercialização.

“Nenhuma das parcerias que anunciamos até então é ousada nesse nível, que é trazer tecnologia de edição”, afirma Rafael de Souza, CEO da Symbiomics – recentemente, por exemplo, a companhia havia celebrado outro acordo, com a Nitro, para desenvolvimento de bioinsumos focados em nutrição vegetal para culturas como milho e cana-de-açúcar.

"Queremos ser uma das primeiras empresas, em conjunto, a trazer essa tecnologia ao mercado no Brasil", completa.

A ambição é compartilhada pela Valeouro, criada pelo empresário Norival Bonamichi, fundador da Ourofino Saúde Animal e da Ourofino Agrociência, com a missão de explícita de disputar o mercado de insumos biológicos.

A trajetória ainda e curta e a presença de mercado, pequena. Mas segundo Luciano Galera, CEO da Valeouro, a empresa encontrou na Symbiomics a tecnologia que faltava para alavancar seu plano de deixar de ser coadjuvante para se tornar um grande player também nesse segmento.

Enquanto o trabalho de desenvolvimento estiver em curso, a Valeouro cuidará de se estruturar para, quando os produtos estiverem devidamente testados e registrados, produzi-los em quantidades industriais. A empresa já iniciou a constrição de uma biofábrica de mais de R$ 100 milhões junto à sede da Ourofino Saúde Animal, em Cravinhos, na região de Ribeirão Oreto (SP).

De acordo com Galera, a Valeouro conta com as vantagens de estar no ecossistema criado por Bonamichi. Sua sede, por exemplo, fica dentro do QG da Ourofino Agrociência, em Ribeirão Preto.

"Temos toda a facilidade dos serviços compartilhados, mas com independência", resume o CEO da Valeouro, cuja trajetória combina 25 anos de multinacionais (Bayer e DuPont), cinco anos como diretor de marketing e P&D na Ourofino e uma passagem como CMO no fundo Patria, antes de voltar, em 2022, para estruturar o negócio.

O DNA do grupo é um trunfo declarado: a Ourofino Saúde Animal tem uma plataforma de desenvolvimento de mais de 20 vacinas para aves, suínos, equinos e grandes animais — conhecimento em produção biológica que, segundo a empresa, ainda é pouco aproveitado na agricultura.

"A Ourofino Química fatura mais de R$ 2 bilhões, então a gente tem também uma boa base de acesso ao mercado", afirma Galera.

Com três anos de mercado — a comercialização começou em meados de 2023 —, a Valeouro já montou um portfólio de mais de 20 produtos no Brasil, organizado em quatro frentes: bionutrição (ácidos húmicos e fúlvicos, aminoácidos, extratos de algas), controle biológico com bactérias fixadoras de nitrogênio e solubilizadoras de fósforo, biofertilizantes e tecnologia de aplicação.

É o que o CEO chama de "Portfólio 1". Mas o salto de ambição está no futuro: "Nós entendemos que uma coisa é você ter a tecnologia para desenvolver um micro-organismo com superioridade técnica. Outra é transformar isso em um produto comercial para atender milhares, milhões de hectares", diz Galera.

Segundo ele, o segmento de bioinsumos tem um problema estrutural. O Brasil possui mais de 700 produtos biológicos registrados, mas a maioria sem diferenciação técnica comprovada. Além disso, o mercado, de cerca de US$ 1 bilhão, ainda é mais de 15 vezes menor que o de agroquímicos.

"O mercado biológico vai continuar expandindo, mas para isso vai ter que mudar essa base tecnológica", diz Galera. Essa conclusão teria levado, segundo ele, à parceria com a Symbiomics.

O que cada lado traz

A biotech foi fundada também em 2021, com a proposta de utilizar um grande acervo de mais de 20 mil microrganismos isolados, de todo o Brasil, como ponto de partida para suas pesquisas, que utilizam sequenciamento genômico, machine learning e edição genômica. Sua proposta atraiu investidores como The Yield Lab, Arar Capital e Corteva Catalyst.

"O genoma é como o manual do ser vivo", define Souza. “A gente lê esse manual e edita para o organismo ser melhor, como uma atualização de software", compara.

"Você pode ter uma Ferrari, mas de nada adianta se colocar uma roda de Fusquinha", emenda o CEO da Symbiomics, explicando por que a capacidade industrial da parceira fez diferença na escolha.

O pilar industrial da estratégia é a biofábrica em construção em Cravinhos. A escolha foi deliberada, para aproveitar o conhecimento de produção de vacinas e de formulação do grupo.

O investimento da Valeouro será executado em fases. A etapa inicial, com edificações e duas linhas de biorreatores, demanda pelo menos R$ 75 milhões, com espaço projetado para até oito ou nove linhas conforme a companhia ganhe participação de mercado.

A previsão é que a primeira fase esteja em pleno funcionamento em 2029. Até lá, a produção segue terceirizada, com transferência de tecnologia para parceiros industriais validados.

"Essa biofábrica foi projetada para estabelecer a capacidade industrial necessária ao escalonamento de novas tecnologias", afirma o CEO da Valeouro. "A estrutura nos permitirá levar produtos disruptivos da fase de desenvolvimento à escala industrial, a exemplo do que nasce da aliança com a Symbiomics”.

Segundo a CropLife Brasil, o mercado movimentou R$ 6,2 bilhões em 2025, com alta de 15% sobre o ano anterior, e a área tratada avançou 28%, para 194 milhões de hectares. De acordo com Galera, soja, milho e cana-de-açúcar concentram mais de 90% do uso.

O desafio, na visão das duas empresas, é transformar crescimento em valor — e a edição genômica é a aposta para entregar desempenho consistente em diferentes condições de solo e clima, encurtando o caminho entre a descoberta do microrganismo e o produto no campo, com a visão industrial da Valeouro presente desde o início do projeto.

Resumo

  • Valeouro e Symbiomics unem tecnologia de edição genômica e escala industrial para desenvolver uma nova geração de bioinsumos
  • Parceria prevê um biofungicida para soja, milho, algodão e cana, com primeiros produtos projetados para a próxima década
  • Valeouro investe mais de R$ 100 milhões em biofábrica em Cravinhos, com primeira fase prevista para operar em 2029