O mercado pode estar subestimando o impacto do El Niño sobre a safra brasileira de grãos de 2026/2027. Com isso, há a possibilidade de que os preços de soja e milho fiquem ainda mais altos nos próximos meses, em função da possível restrição de oferta.
Essa é a leitura da XP Investimentos, que projeta, em relatório divulgado na quarta-feira, dia 9 de setembro, e assinado por Leonardo Alencar, Leonardo Paiva e Arthur Devite, uma temporada com menor margem de segurança para soja e milho, mas também uma assimetria bastante favorável para os preços em ambos os mercados.
Na fotografia traçada pela XP, soja e milho chegam à nova temporada com menos folga do que o mercado parece precificar. Na soja, uma menor disponibilidade brasileira redirecionaria a demanda para os EUA, em um contexto de estoques mais apertados e demanda crescente por biocombustíveis. No milho, eventuais perdas de produção seriam amplificadas pela menor oferta exportável, pela resiliência da demanda global e pelas incertezas contínuas no Mar Negro.
"Um evento climático mais severo reduziria a oferta do Brasil, um dos maiores exportadores agrícolas do mundo, em um momento em que os estoques globais de grãos e oleaginosas têm pouca margem para absorver novos choques", resume a gestora.
"Embora o posicionamento dos investidores e catalisadores de curto prazo possam gerar volatilidade, enxergamos uma assimetria bastante favorável em ambos os mercados, com nossas análises sustentando preços da soja entre USD 13,5-14,5/bu e do milho entre USD 5,5-6,7/bu, podendo ser ainda mais altos em um cenário climático mais adverso."
O bushel é a unidade usada para cotar commodities nos Estados Unidos e na Bolsa de Chicago. Na prática, 1 saca de 60 kg de soja corresponde a aproximadamente 2,2 bushels e 1 saca de milho de 60 kg corresponde a 2,3 bushels.
Neste momento, por exemplo, os contratos da soja com vencimento em setembro de 2026 em Chicago estão cotados a US$ 12,95 o bushel. Com vencimento em novembro, a cotação é de US$ 13,09 o bushel.
Já os contratos de milho com vencimento em setembro estão cotados a US$ 5,07 o bushel. Para vencimento em dezembro, a US$ 5,27 o bushel.
Para a soja, a XP estima produção de 174 milhões de toneladas em 2026/2027, dentro de uma faixa entre 171 milhões e 176 milhões de toneladas. A área plantada deve crescer 1,3%, mas, segundo a XP, o El Niño tende a aparecer ter mais efeitos na produtividade do que na decisão de plantio. Se confirmado o percentual, seria o crescimento mais baixo das últimas 10 safras.
O avanço da área deve acontecer de forma heterogênea nos principais pólos agrícolas do Brasil, ressalta a gestora. Em conversas com agentes do setor, a XP identificou espaço mais limitado para expansão no Matopiba, enquanto Mato Grosso ainda apresenta perspectiva de crescimento. A melhora da rentabilidade no curto prazo e condições mais favoráveis ao plantio sustentam essa expansão.
O ambiente de fertilizantes, por outro lado, permanece "longe do ideal", na avaliação da casa, após entregas fracas no segundo trimestre. Ainda assim, a XP observa que episódios anteriores de menor demanda por adubos não impediram o avanço da área de soja.
O aperto aparece com mais clareza quando a oferta é colocada lado a lado com a demanda. A gestora avalia que a mistura obrigatória de 16% de biodiesel ao diesel, o B16, que poderá acontecer a partir de fevereiro de 2027, deve aumentar o consumo doméstico de óleo de soja. Mesmo assim, a XP adota uma premissa conservadora para o esmagamento, com um crescimento previsto de apenas 1 milhão de toneladas de soja esmagada, resultando em um processamento de 63,5 milhões de toneladas na temporada.
"Nesse contexto, parte das exportações de óleo de soja seria redirecionada ao mercado doméstico para atender à maior demanda por biodiesel. Embora conservadora, acreditamos que essa seja uma premissa adequada diante da expectativa de um ambiente mais competitivo para originação de soja."
Na prática, parte da oferta que poderia chegar ao mercado externo tende a ser direcionada para o mercado doméstico. Com isso, o excedente exportável brasileiro de soja ficaria em 107,7 milhões de toneladas, um nível considerado historicamente baixo pela XP.
O cenário fica ainda mais apertado quando entra na conta o comércio com a China. A XP projeta redução de 8 milhões de toneladas nas exportações brasileiras para o país asiático em 2026/27.
A premissa considera a manutenção da relação comercial atual entre China e Estados Unidos e compras chinesas de aproximadamente 25 milhões de toneladas de soja norte-americana.
A perda de espaço da soja brasileira na China, porém, não seria integralmente compensada por outros destinos. A XP estima crescimento de cerca de 3 milhões de toneladas nas exportações brasileiras para mercados fora do país asiático.
O resultado, segundo a XP, é uma disputa maior pela soja brasileira entre exportação e consumo doméstico. E, com menos produto disponível, qualquer perda adicional de produtividade provocada pelo clima teria impacto direto sobre o balanço.
"Com uma oferta mais restrita, o Brasil não terá disponibilidade suficiente para substituir integralmente as compras da China e, ao mesmo tempo, sustentar o crescimento das exportações para outros mercados."
Em um cenário de El Niño mais severo, com perdas principalmente no Matopiba, o excedente exportável brasileiro poderia cair para 104,4 milhões de toneladas. A redução implicaria uma queda de até 5,6 milhões de toneladas nos estoques.
Nesse caso, a XP estima que até 2,7 milhões de toneladas de demanda poderiam migrar para os Estados Unidos. Mas a oferta norte-americana também não teria espaço ilimitado para absorver esse movimento. A consequência seria a necessidade de preços mais altos para racionar a demanda.
A gestora espera uma faixa de US$ 13,50 a US$ 14,50 por bushel para a soja. "A oferta restrita continua apontando para preços mais altos, com potencial de valorização até USD 13,5/bu e possibilidade de ganhos adicionais em um cenário climático mais adverso no Brasil. Embora a destruição de demanda seja, em última instância, necessária para reequilibrar o mercado, acreditamos que os preços precisarão subir antes para testar a elasticidade da demanda."
Depois da recente alta acima de US$ 13, porém, a casa considera menos favorável a relação entre risco e retorno no curto prazo. Eventuais correções após a divulgação do próximo WASDE, relatório de oferta e demanda do USDA, o departamento de agricultura dos Estados Unidos, poderiam, na visão da XP, reabrir uma oportunidade de exposição à tese de alta.
Milho concentra maior assimetria
No milho, a equação é ainda mais apertada e, para a XP, oferece uma relação de risco e retorno mais interessante.
A casa estima produção de 133 milhões de toneladas em 2026/27, dentro de uma faixa entre 128 milhões e 138 milhões de toneladas. A área plantada deve recuar 2,4%.
Mais do que a área, porém, a principal preocupação está na janela de plantio da segunda safra, ressalta a gestora. Um atraso na semeadura da soja pode empurrar o milho safrinha para fora do período ideal, aumentando a exposição das lavouras a condições climáticas adversas.
A XP destaca a forte correlação histórica entre o avanço do plantio da soja e o da segunda safra de milho em Mato Grosso. Por isso, um El Niño mais intenso poderia pressionar a produtividade mesmo sem provocar uma mudança expressiva na área cultivada.
Ao mesmo tempo, a demanda brasileira pelo cereal segue crescendo.
De um lado, consumo de milho para ração deve chegar a cerca de 66 milhões de toneladas em 2026/27 e continuar como o principal componente da demanda doméstica.
De outro, o avanço da indústria de etanol adiciona outra fonte de pressão. A XP estima aumento de 4,6 milhões de toneladas no consumo de milho para biocombustíveis, para 30,7 milhões de toneladas. A capacidade de processamento para etanol de milho deve crescer 30% entre as duas safras.
"Como resultado, esperamos que o etanol capture uma parcela crescente da oferta doméstica, reduzindo a disponibilidade para exportação e reforçando nossa visão de que qualquer aperto adicional no balanço de oferta e demanda deverá se refletir principalmente em menores exportações."
Com mais milho sendo direcionado para o mercado doméstico, sobra menos produto para exportação. No cenário-base, a XP estima excedente exportável de 31,2 milhões de toneladas. Em um El Niño mais severo, esse volume poderia cair para 25,9 milhões de toneladas.
O ajuste, nesse caso, teria de acontecer via preços. Até 5,4 milhões de toneladas de demanda hoje atendida pelo Brasil poderiam ser redirecionadas ou racionadas. Os Estados Unidos poderiam absorver entre 2,5 milhões e 3,8 milhões de toneladas adicionais de exportações, enquanto a Argentina também ganharia espaço.
A XP vê, portanto, uma faixa de US$ 5,50 a US$ 6,70 por bushel para o milho.
A tese de alta não depende apenas do clima brasileiro. A casa também coloca no radar eventuais novas interrupções logísticas no Mar Negro, especialmente envolvendo a Ucrânia. Uma combinação entre problemas climáticos no Brasil e restrições de oferta na região poderia apertar ainda mais o balanço global.
Resumo
- XP vê risco de El Niño reduzir a oferta brasileira e apertar os balanços globais de soja e milho na safra 2026/27
- Gestora projeta soja entre US$ 13,50 e US$ 14,50/bu e milho entre US$ 5,50 e US$ 6,70/bu, com alta maior se o clima piorar
- Menos exportações para a China podem trazer flexibilidade significativamente menor ao balanço de soja, diz gestora