Belo Horizonte (MG)* - Apesar de mais da metade da produção nacional de fertilizantes estar paralisada, segundo estimativa do Sindicato Nacional das Indústrias de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert), o governo federal não vê risco de desabastecimento da oferta de adubos no País.
"Eu diria que o fantasma do desabastecimento está afastado", disse o ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, em entrevista coletiva a jornalistas após participar da abertura da 15ª edição do Congresso Brasileiro de Algodão, na manhã desta terça-feira, dia 22 de setembro, em Belo Horizonte (MG).
Paula disse que esteve reunido recentemente com o ministro de Portos e Aeroportos, Tomé Franca, para que houvesse “prioridade” para a chegada de navios que trazem fertilizantes dos principais polos produtores.
“Estamos agora em pleno início de safra e muitas vezes os portos, como tem um acúmulo de embarcações, isso implica em dilatar prazos. E nós temos consciência de que nesse momento precisamos agilizar esse processo”, afirmou o ministro.
Paralelamente, o ministro também disse que a reativação de fábricas produtoras de adubo que são controladas pela Petrobras pode ajudar na mitigação de uma eventual restrição de oferta de fertilizantes.
“Quando a quarta fábrica, que vai estar pronta em meados de 2027, estiver pronta, nós teremos atingido a marca de cerca de 35% do que nós precisamos”, disse o ministro.
A Petrobras reativou três fábricas de fertilizantes desde 2023 e deve concluir e colocar uma quarta unidade em operação no começo do ano, a UFN-III, localizada em Três Lagoas (MS).
Questionado pelo AgFeed, André de Paula não indicou, no entanto, se o governo federal vai atender a um pedido da indústria de fertilizantes, um subsídio na importação do enxofre, que poderia girar entre R$ 900 milhões e R$ 2 bilhões, a depender dos custos em dólar do insumo no mercado internacional.
O tema já foi discutido com um grupo que analisa o tema, mas ainda não houve uma resposta final.
André de Paula também destacou como outro fator que impede o desabastecimento de adubos a viagem internacional que fez recentemente ao Marrocos, no qual assinou um compromisso de fornecimento de 3,8 milhões de toneladas de fertilizantes fosfatados na safra 2026/2027. “Isso é algo em torno de 80% do que nós precisamos”, disse o ministro.
Diesel e El Niño
André de Paula também minimizou a possibilidade de restrição na oferta de óleo diesel destinado aos produtores rurais.
“Quero garantir que não há nenhuma expectativa nesse momento que se funde em nada concreto em relação ao possível desabastecimento de diesel”, disse o ministro.
O titular da pasta da Agricultura e Pecuária salientou que o governo atuou para que o preço do combustível não subisse, apesar do receio de que houvesse uma alta em “demasia”.
Na segunda-feira, dia 21 de setembro, o governo federal regulamentou um subsídio para produtores e importadores de óleo diesel, com validade inicial de até 30 dias, e que será de R$ 1,00 por litro de diesel.
Na semana passada, a Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) protocolou um ofício à ANP relatando dificuldades de acesso e atrasos na entrega do combustível aos produtores gaúchos.
Questionado pelos jornalistas sobre eventual desabastecimento de diesel no Rio Grande do Sul, André de Paula também minimizou a possibilidade de falta de combustível no Estado.
“Ontem à noite, eu tive a oportunidade de conversar com o ministro [de Minas e Energia] Alexandre Silveira, que me tranquilizou em relação a esse desabastecimento. Se isso aconteceu, é possível que tenha sido uma questão local que obviamente será olhada com muito carinho”, disse o ministro.
André de Paula também comentou sobre o efeito El Niño. Em alerta divulgado na semana passada, a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) indicou que há a possibilidade de 90% de o fenômeno atingir um efeito “muito forte” entre a primavera e o início do verão.
“Nós estamos já começando a perceber os efeitos do El Niño”, disse o ministro, que, salientou, no entanto, que o governo já vem trabalhando desde o começo de forma “transversal”, com a participação de 24 ministérios, incluindo a pasta da Agricultura e Pecuária, em uma força-tarefa liderada pelo Ministério da Casa Civil.
O ministro também salientou que há a previsão de liberação de R$ 1,3 bilhões em recursos a serem destinados pelo governo federal para ações de enfrentamento ao fenômeno climático
“Todos os aspectos, todos os desdobramentos que podem decorrer, sejam eles nas questões relativas à agricultura, sejam nas questões relativas à saúde e da defesa civil, enfim, todos esses desdobramentos foram pensados e existe um conjunto de ações que, à medida em que isso for acontecendo, vão sendo executadas.”, afirmou.
Mais cedo, em discurso na abertura do Congresso Brasileiro do Algodão, o ministro salientou que o governo federal fez, recentemente, concurso público para a contratação de 129 novos servidores para o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), além de melhorias na estrutura, mirando a preparação para eventos climáticos extremos.
“Estamos modernizando a nossa rede do analógico para o digital e dobrando a nossa cobertura. Saímos de 500 estações [metereológicas], já passamos dos 700”, disse o ministro.
*O repórter viajou a convite da Abrapa.
Resumo
- Ministro da Agricultura afirma que o risco de desabastecimento de fertilizantes no Brasil está afastado, apesar da produção nacional paralisada
- Governo busca agilizar a chegada de fertilizantes importados e prevê aumento da produção nacional com fábricas da Petrobras
- André de Paula também descarta, por enquanto, risco de falta de diesel e cita ações do governo para enfrentar os efeitos do El Niño