A Jussara, tradicional indústria de laticínios de São Paulo, pode estar preparando um movimento inédito em seus 72 anos de história: a abertura da primeira unidade produtiva fora do Brasil.

O movimento foi antecipado pelo Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai, que relatou, em seu perfil no Facebook, um encontro entre o ministro da Indústria e Comércio do País, Marco Riquelme, e representantes da companhia – em uma das fotografias publicadas, é possível identificar Odorico Barbosa, diretor da empresa de laticínios brasileira.

Na pauta da reunião, estava o projeto de instalação de uma unidade de fracionamento de leite em pó da Jussara no Paraguai, investimento estimado pelo governo de US$ 10 milhões (R$ 50,8 milhões, na cotação do dia) e que hoje estaria em fase de “prospecção” e ‘negociação”.

A ideia, ainda segundo o governo paraguaio, é que a unidade opere sob a Lei de Maquila, destinando 100% de sua produção ao mercado brasileiro.

Essa legislação permite a isenção de impostos sobre a importação de matéria-prima e de maquinário para empresas estrangeiras que decidirem fabricar os produtos no País. É tributado apenas um imposto único de 1% sobre o valor agregado no processo produtivo. Pelo menos 318 empresas no Paraguai já aderiram à Lei da Maquila.

O governo local não trouxe mais informações sobre volumes de produção previstos na nova unidade, mas estima que o início das operações da planta ocorra dentro de um ano.

A Jussara possui duas fábricas no Brasil, localizadas em Patrocínio Paulista (SP) e Araxá (MG). No ano passado, captou 368 milhões de litros com 1.467 produtores de leite, segundo dados do levantamento anual das maiores empresas e cooperativas de laticínios do Brasil, realizado pela Associação Brasileira do Leite (Abraleite).

O volume fez da empresa a nona maior captadora do Brasil, à frente de nomes conhecidos do setor de laticínios como Tirolez, Scala, Frimesa e Danone.

No ano passado, a receita da empresa diminuiu aproximadamente 7%, passando de R$ 1,4 bilhão para R$ 1,3 bilhão, segundo balanço publicado em março passado. O lucro líquido foi de R$ 20,9 milhões, 41,6% inferior aos R$ 35,8 milhões registrados em 2024.

A Jussara foi criada em 1954 pelo médico Amélio Rosa Barbosa em Franca (SP) e, ainda hoje, pertence aos filhos de Barbosa, que também comandam a empresa.

A companhia de laticínios foi uma das primeiras empresas do estado de São Paulo a produzir leite pasteurizado, ainda nos anos 1950 e, desde os anos 1990, tem investido no leite longa vida.

A Jussara não é a única empresa brasileira do agro a sinalizar investimentos no Paraguai. Nos últimos meses, companhias de diferentes portes relacionadas ao setor como JBS, Agrotis e Reland expandiram suas operações ao país vizinho ao Brasil, como relatou reportagem recente do AgFeed.

As companhias estão de olho em uma combinação de vantagens que tem tornado o Paraguai cada vez mais atrativo para investimentos.

No meio corporativo, é consenso que o país reúne, entre outros fatores, uma das menores cargas tributárias da região, energia elétrica entre as mais baratas da América do Sul, custos de produção competitivos e incentivos para empresas voltadas à exportação, além de ter uma situação política estável.

O AgFeed tentou contato com a Jussara, mas não houve retorno até o fechamento da reportagem. O espaço segue aberto e a reportagem será atualizada caso a empresa se manifeste.

Resumo

  • Jussara estuda instalação de sua primeira fábrica fora do Brasil, no Paraguai
  • Investimento em fábrica de leite em pó seria de US$ 10 milhões, segundo informações do governo paraguaio
  • Unidade deve operar sob a Lei da Maquila, com 100% da produção destinada ao mercado brasileiro

Representantes da Jussara reunidos com o governo paraguaio, em foto postada no Facebook. Odorico Barbosa, diretor da Jussara, é o terceiro da esquerda para a direita.