Estilhaços da troca de fogo no Oriente Médio podem causar impactos no crédito agrícola brasileiro nos próximos meses, preocupando quem acompanha o avanço da inadimplência e das recuperações judiciais no setor.

Depois de contabilizar mais de 1,99 mil pedidos de recuperação judicial em 2025, número recorde em sua série histórica iniciada em 2021, a Serasa Experian agora olha com atenção a um novo cenário global que pode reverter uma expectativa de desaceleração da curva ascendente de processos desse tipo no agronegócio.

“A gente tinha um feeling, sem cravar na pedra, de que havia uma tendência de melhorar um pouquinho, não muito, e de que iria levar uns dois anos para melhor bem”, afirma Frederico Poleto, head de Ciência de Dados Agro da empresa e um dos responsáveis pela apuração dos indicadores de RJs e inadimplência no segmento.

“Mas, enfim, o mercado sempre surpreende a gente. Agora com essa guerra nova, diesel subindo, tem vários fatores que tendem a complicar um pouco”.

O trabalho de Poleto é analisar dados de períodos passados e eles refletem o impacto grande de juros e custos agrícolas na saúde financeira dos produtores rurais. Assim, otimismo leve que se tinha em relação a uma possível contenção no crescimento das RJs estava associado, sobretudo, a um início de uma trajetória de queda da taxa Selic já a partir do início do ano.

Mas com o conflito no Oriente Médio fazendo disparar os preços do petróleo e seus derivados, a nova tendência é inflacionária, o que pode motivar o Banco Central a esperar um pouco mais para agir nessa direção.

Além disso, preços de insumos como o próprio diesel e fertilizantes são atrelados às cotações do petróleo e devem pesar ainda mais no bolso dos produtores.

“A gente vê, exceto com algumas quebras regionais de safra pontuais, que a produtividade do Brasil está subindo, está boa. Só que com o preço das commidities caindo e o custo aumentando, não tem milagre”, analisa.

Assim, pelo menos no curto prazo, não deve haver mudança no cenário de endividamento no campo. Na análise dos dados de 2025, Poleto vê, a despeito do recorde negativo, alguns ângulos com viés positivo.

Proporcionalmente, por exemplo, o próprio crescimento de 54% no número de novas RJs é menor do que o verificado em 2024, que foi de mais de 130%, subindo de 534 para 1,27 mil pedidos de proteção na Justiça.

Isolando os dados apenas do quarto trimestre de 2025, comparados ao mesmo período de 2024, o crescimento foi de 28% entre os produtores e não houve, segundo ele, nenhum registro entre empresas associadas ao agro.

“O mercado agora está tomando os cuidados e sendo mais rigoroso, até para os produtores se questionarem mais e segurarem um pouco mais (os pedidos de RJ)”, analisa.

De fato, as políticas de crédito dos bancos para os agricultores, que ficaram mais restritivas este ano, devem fazer com que, em um prazo mais longo, haja uma melhora em indicadores de risco e inadimplência.

Segundo Poleto, o cenário atual ainda reflete um cenário de maior endividamento dos produtores, formado a partir de uma maior demanda por crédito e políticas menos rigorosas por parte dos financiadores em anos passados, quando os preços favoráveis das commodities proporcionaram ganhos expressivos no setor.

Agora, com os bancos emprestando menos e sendo mais seletivos, a tendência é de queda no risco e, posteriormente, na inadimplência. “Por mais que no último ano tenha já começado uma retração no crédito, leva um tempo até ter o ajuste”.

Poleto registra ainda que o número de RJs – que, segundo ele, “é o efeito agravado da inadimplência” – ainda é relativamente pequeno diante do universo dos produtores que contraíram crédito no ano passado, inclusive comparando o agro a outros setores.

São quase 2 mil pedidos em um total de cerca de 2,8 milhões de produtores que tomam financiamento no mercado. “Está ainda em torno de 3 a cada 10 mil”, calcula. “Relativamente, ainda é um número que a gente acha que não é uma crise. Enfim, tem sinais de cautela e toda inadimplência, mas mesmo fora do agro está subindo”.

Quem pede mais RJs

O levantamento apresentado nesta segunda-feira, 6 de março, pela Serasa Experian não traz muitas novidades em relação ao perfil dos produtores rurais que têm recorrido à RJ quando se compara a estudos anteriores divulgados pela empresa.

Em termos geográficos, o estado de Mato Grosso, maior produtor de grãos do País, é também o líder da “safra 2025” de recuperações judiciais. Foram 332 registros, ficando à frente de Goiás (296), Paraná (248), Mato Grosso do Sul (216) e Minas Gerais (196).

Em nível nacional, os produtores rurais que atuam como pessoa física foram o que mais buscaram proteção judicial, com 853 pedidos de RJ em 2025, uma alta de 50,7% sobre os 566 verificados em 2024.

Um total de 753 requisições foi feito por produtores com atuação como pessoa jurídica. Nesse segmento, o aumento foi de 84,1% sobre as 409 solicitações de 2024.

O menor percentual de crescimento se deu na categoria que a Serasa denomina empresas da cadeia agro. O salto foi de 29,3% em 2025, passando de 297 pedidos em 2024 para 384 em 2025.

A metodologia da Serasa não contabiliza, por enquanto, as recuperações extrajudiciais, que têm começado a ganhar mais procura por empresas e produtores rurais a partir do episódio da Lavoro, que recorreu ao instrumento para fazer a reestruturação de mais de R$ 2,5 bilhões em dívidas.

Poleto reconhece que as REs têm se tornado mais frequentes e diz que a empresa tem acompanhado esse movimento e eventualmente podem ser incluídas em futuros levantamentos.

Resumo

  • RJs batem recorde em 2025, com quase 2 mil pedidos no agro, segundo levantamento da Serasa Experian
  • Guerra no Oriente Médio pressiona preçõs do petróleo, diesel e fertilizantes e piora custos no campo, dificultando cenário de queda da inadimplência
  • Juros altos e bancos mais seletivos indicam cenário de cautela e ajuste ainda mais gradual no endividamento