Até o fim do ano passado, representantes do mercado financeiro ainda buscavam olhar para o “copo meio cheio” ao comentar a deterioração financeira vivida por produtores rurais em diferentes regiões do país.

Apesar da escalada dos pedidos de recuperação judicial, da alta inadimplência e do peso crescente dos juros elevados sobre o caixa dos agricultores, a avaliação predominante era de que o setor atravessava mais um ciclo negativo temporário.

A expectativa era de que uma eventual queda da taxa Selic e uma safra produtiva ajudassem a recompor margens e aliviar o endividamento acumulado.

Mas, às vésperas do fim do primeiro semestre de 2026, a combinação entre juros persistentemente altos, restrição maior na concessão de crédito, aumento dos custos de produção e novos riscos climáticos passou a alimentar avaliações mais pessimistas por parte dos financistas.

Levantamento da Serasa Experian, revelado em primeira mão pela empresa ao AgFeed, ajuda a ilustrar essa mudança de humor.

O estudo da empresa, que dá números claros ao discurso de restrição do crédito agrícola no País, mostra que as concessões de financiamentos rurais e agroindustriais para produtores pessoa física somaram R$ 179 bilhões em 2025, queda de 17% em relação a 2024.

O recuo representa cerca de R$ 36,8 bilhões a menos liberados aos agricultores no decorrer de 2025.

Ao longo de 2025, as concessões de linhas de crédito aceleraram em parte do ano. O volume liberado saiu de R$ 35,9 bilhões no primeiro trimestre para R$ 47,1 bilhões no segundo, alcançando o pico de R$ 54,6 bilhões no terceiro trimestre, seguindo o fluxo normal de maior volume de desembolsos à medida em que as safras são plantadas.

No entanto, houve desaceleração nos meses finais do ano, com recuo para R$ 41,9 bilhões no quarto e último trimestre.

Chama a atenção o fato de que o movimento ocorreu mesmo com aumento no número de contratos firmados durante o ano.

Enquanto o total de operações avançou de 1,44 milhão para 1,46 milhão, leve alta de 0,9%, o ticket médio caiu de R$ 150 mil para R$ 123 mil por contrato, retração de 17,8%.

O resultado é combinação de dois efeitos, segundo Marcelo Pimenta, head de agronegócios da Serasa, em entrevista ao AgFeed.

“Um desses efeitos é o fato de que entraram mais produtores, então, houve um aumento na quantidade e o valor caiu. O outro efeito é que os produtores que tomavam crédito no passado, continuam tomando crédito, só que com volume absoluto menor. E os novos produtores que estão entrando, estão tomando com tickets baixos”, analisa Pimenta.

Os números regionais da Serasa Experian mostram diferenças importantes no perfil do crédito rural entre as regiões agrícolas do País, especialmente no ticket médio das operações e no valor médio por produtor.

A Serasa faz um recorte em seis regiões: Sul, Sudeste, Centro-Oeste Agro, Matopiba, Nordeste Agro e Norte Agro.

O Centro-Oeste Agro, com propriedades rurais de maior porte, concentrou os maiores valores médios do Brasil no último trimestre de 2025.

No período, a região movimentou R$ 10 bilhões em crédito rural e agroindustrial, com 26 mil novos contratos. O valor médio por operação chegou a R$ 396 mil, enquanto o ticket médio por CPF alcançou R$ 491 mil, o maior entre todas as regiões analisadas.

No Sul, que liderou em volume total concedido, com R$ 12 bilhões liberados no trimestre, o ticket médio por contrato foi significativamente menor: R$ 144 mil. Já o valor médio por CPF ficou em R$ 178 mil.

A região registrou 83 mil novos contratos e 67 mil CPFs com operações ativas, mostrando um mercado mais pulverizado e distribuído entre produtores.

O Sudeste movimentou R$ 11 bilhões em crédito rural, com 71 mil novos contratos e 61 mil CPFs com contrato.

O ticket médio por contrato ficou em R$ 157 mil, enquanto o valor médio por CPF chegou a R$ 183 mil.

No Nordeste Agro, apesar do menor volume financeiro — R$ 3,2 bilhões —, a região concentrou o maior número de produtores com contratos ativos: 123 mil CPFs.

Isso pressionou os valores médios para baixo. O ticket médio por contrato ficou em R$ 25 mil, enquanto o valor médio por CPF atingiu R$ 26 mil, os menores do país.

Já o Matopiba, fronteira agrícola que engloba partes de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, registrou R$ 3,2 bilhões em crédito no trimestre.

A região teve ticket médio de R$ 165 mil por contrato e R$ 182 mil por CPF, nível próximo ao observado no Sul e Sudeste.

No Norte Agro, o montante liberado somou R$ 1,5 bilhão. Foram registrados 10 mil novos contratos e 9,5 mil produtores financiados. O ticket médio por contrato alcançou R$ 143 mil, enquanto o valor médio por CPF ficou em R$ 156 mil.

O levantamento foi realizado pela Serasa com base em dados de 2025 de cerca de 3 milhões de pessoas físicas mapeadas na população rural que contrataram financiamento rural ou agroindustrial e autorizam o uso de dados do Cadastro Positivo.

O que vem por aí

Para Marcelo Pimenta, head de agronegócios da Serasa Experian, a tendência é de deterioração dos números no decorrer deste ano.

“Infelizmente, o cenário é de piora desses números. O negócio vai pegar mesmo para o final do ano, no meio da safra 2026/2027”, projeta.

De acordo com Pimenta, os produtores mais capitalizados até conseguem reduzir a dependência de financiamento bancário e tocar parte do custeio com recursos próprios, mas o executivo ressalta que essa não é a realidade da maior parte do setor.

“A esmagadora maioria é altamente dependente de crédito para fazer o custeio. E justamente as linhas com juros menores estão cada vez mais escassas e mais criteriosas”, disse.

Na prática, explica Pimenta, muitos produtores passaram a enfrentar uma escolha difícil: complementar o caixa com linhas mais caras ou reduzir investimentos para o dia-a-dia da produção rural.

“Ou você toma mais recursos com juros mais altos ou você começa a abrir mão de parte do custeio. Usa menos fertilizante, menos tecnologia dentro da produção. Produzindo menos, você vai ter menos receita e, com custo alto, a margem vai ser pior e entra num ciclo negativo”, afirmou.

A inadimplência é outro vetor que continua a preocupar nos indicadores de risco acompanhados pela companhia.

De acordo com Pimenta, os atrasos acima de 15 e 90 dias seguem crescendo mês a mês, enquanto operações consideradas em default, com mais de 180 dias de atraso, também avançam.

“Quando a gente olha os novos spreads cobrados nas renovações, no crédito livre que atende o agro, estão cada vez maiores também”, diz.

Pimenta atenta também para os impactos dos riscos climáticos, que pode agravar a situaçao de muitos produtores nos próximos meses.

Dois fatores contribuem para esse cenário: impactos recentes de eventos climáticos sobre o milho safrinha e a possibilidade de uma nova onda do fenômeno El Niño em breve adicionaram mais incerteza às projeções do setor.

“Tivemos uma frente fria há cerca de 15 dias e que trouxe impacto porque a gente estava justamente em meio à safrinha, no período de enchimento do milho”, recorda o head de agro da Serasa.

Em 2025, o score médio dos produtores rurais brasileiros estava em 600 pontos, considerado ainda um perfil positivo pela Serasa.

Mas a tendência, segundo Pimenta, é de deterioração gradual da nota média do setor, refletindo queda na capacidade de pagamento e aumento da alavancagem futura.

Produtores que hoje estão totalmente adimplentes estão bastante alavancados e, com isso, seu perfil de risco fica arriscado.

“O que tem acontecido é que esse score médio da população está se degradando justamente porque está diminuindo a capacidade de pagamento desses produtores. A margem tem diminuído, a capacidade de pagamento tem diminuído e o endividamento futuro tem crescido”, ressalta o executivo da Serasa.

“Financiamentos de investimento que foram feitos 2, 3 anos atrás agora estão vindo. Como acabou a carência, eles passam a pagar esses financiamentos”, diz Pimenta.

Falta de visibilidade contribui para crise

Diante do avanço da inadimplência e do crescimento das recuperações judiciais no setor, Pimenta destaca que tradings e o mercado financeiro de uma forma geral passaram a ampliar o uso de inteligência artificial e análise de dados para avaliar risco no campo.

De acordo com o executivo, uma das principais mudanças vistas nos últimos cinco anos foi justamente o avanço da capacidade de se cruzar informações históricas de produção, clima, comportamento de pagamento e imagens de satélite para identificar padrões de risco antes invisíveis ao mercado.

“Hoje somos capazes de analisar o uso do solo de um produtor nos últimos 10 ou 15 anos. Quando ele teve seca, enchente, como foi o comportamento de pagamento, quais resistiram e quais não resistiram”, afirma.

Parte da crise atual, avalia Pimenta, decorre justamente da falta de visibilidade sobre o real nível de alavancagem dos produtores durante o boom dos preços das commodities entre 2020 e 2021.

"As avaliações de riscos eram bem imprecisas, não tinham a visão do todo. Você tinha uma visão do mercado financeiro, mas você tinha uma visão muito ruim do que estava em CPR, por exemplo, do que estavam em outros meios de financiamento", diz.

"Parte do que a gente vive hoje vem disso. Muitas linhas de crédito foram concedidas sem a real percepção do credor em relação ao risco que estava ali."

Pimenta destaca que boa parte dos produtores que entraram em recuperação judicial já apresentava deterioração financeira entre dois e três anos antes do pedido formal.

"Quando a gente pega as RJs, a maior parte do grupo de produtores que recorreram a elas já estava alavancada há muito tempo, há 24 ou 30 meses, e com degradação da sua capacidade de pagamento. Isso não era observado", diz o head de agro da Serasa.

“Mais de 80% dos produtores que pediram recuperação judicial tinham score abaixo de 600”, afirma.

Recentemente, a Serasa divulgou um novo levantamento que apontou recorde no número de pedidos de recuperação judicial ligados ao agronegócio no ano passado. Ao todo, foram registrados 1.990 pedidos em 2025, avanço de 56,4% na comparação com 2024.

Do total, 853 solicitações partiram de produtores rurais que atuam como pessoa física, enquanto outros 753 pedidos foram apresentados por produtores organizados como pessoa jurídica. As empresas da cadeia do agro responderam por mais 384 recuperações judiciais ao longo do ano.

Entre os estados, Mato Grosso liderou o número de solicitações, com 332 registros em 2025. Na sequência aparecem Goiás, com 296 pedidos, Paraná (248), Mato Grosso do Sul (216) e Minas Gerais (196).

Entre as grandes companhias do agronegócio que recorreram à recuperação judicial ao longo de 2025 estão o Grupo Safras, com dívidas estimadas em R$ 2,2 bilhões; a Montesanto Tavares, uma dos maiores exportadores de café do País, com débitos de R$ 2,1 bilhões; e a Rifértil, que acumulava passivos de R$ 647,8 milhões.

Também houve pedidos de recuperação extrajudicial envolvendo companhias do setor de distribuição de insumos, caso da Lavoro, que deu entrada a um pedido de REJ alegando débitos de R$ 2,5 bilhões, e da Belagrícola, que tenta renegociar um passivo de R$ 2,2 bilhões.

Mais recentemente, já em 2026, a Raízen, joint venture formada por Shell e Cosan, protocolou pedido de recuperação extrajudicial com dívidas de R$ 65,4 bilhões. Trata-se do maior pedido de REJ da história.

Resumo

  • Concessões de crédito rural e agroindustrial para produtores pessoa física caíram 17% em 2025, somando R$ 179 bilhões
  • Ao todo, queda na liberações de contratos foi de R$ 36,8 bilhões em relação a 2024
  • Empresa prevê agravamento do quadro no segund semestre deste ano