O Brasil está a um passo de destronar os Estados Unidos do posto de maior exportador agrícola do planeta — e tudo indica que a virada deve ocorrer ainda em 2026.
A constatação é de uma reportagem especial publicada nesta terça-feira, 21 de julho, pelo influente jornal britânico Financial Times, que traça o declínio da hegemonia americana no comércio global de alimentos diante da ascensão brasileira.
Segundo destaca o FT, no ano passado, os Estados Unidos exportaram US$ 171 bilhões em produtos agrícolas — apenas US$ 2 bilhões a mais que os US$ 169,2 bilhões embarcados pelo Brasil.
A diferença, de apenas 1,2%, é a menor já registrada e equivale a pouco mais de quatro dias de exportações brasileiras. No primeiro semestre de 2026, as vendas externas do agro brasileiro subiram 6% na comparação anual, atingindo um recorde de US$ 87 bilhões.
"Se essas tendências continuarem, o Brasil poderá ultrapassar os Estados Unidos como o maior exportador agrícola do mundo em 2026", afirma o FT.
Queda de um império agrícola
De acordo com a reportagem, por mais de um século, os Estados Unidos beneficiaram-se de solo fértil, mecanização avançada e uma rede de transportes eficiente para dominar o comércio agrícola global.
Esse domínio, porém, está se desfazendo, diz a publicação. Margens cada vez mais apertadas, tarifas imprevisíveis e a expansão acelerada do Brasil estão redesenhando o mapa do agronegócio mundial.
"É um momento sombrio para muitos agricultores", aponta Aaron Lehman, presidente da Iowa Farmers Union, em declaração ao Financial Times.
O Brasil já é o maior produtor mundial de soja e um dos líderes globais em carne bovina, frango, café, açúcar e suco de laranja. O País também desbancou os Estados Unidos como maior exportador de algodão.
O jornal destaca o papel da China nesse contexto. Maior comprador de produtos agrícolas do mundo, o país asiático acelerou essa migração ao deslocar compras de soja e algodão dos EUA para o Brasil.
Esse movimento que se intensificou a partir de 2018, quando a primeira guerra comercial de Donald Trump levou Pequim a retaliar os produtos agrícolas americanos.
"Já não somos mais o fornecedor mundial de soja. Somos o fornecedor residual", afirmou, também em entrevista ao FT, Corey Goodhue, agricultor no estado americano de Iowa.
Milho (ainda) como exceção
Os Estados Unidos seguem como maiores exportadores globais de milho, após retomarem o posto do Brasil em 2024. Mas sua participação no comércio mundial do grão caiu de 68%, duas décadas atrás, para cerca de 30% hoje.
O encolhimento da vantagem americana é estrutural e acelerado, segundo o texto. Em 2005, os EUA geravam 137% mais receita com exportações agrícolas que o Brasil. Vinte anos depois, essa vantagem despencou para 1,2%.
Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços do Brasil mostram que, entre 2020 e 2025, a liderança americana encolheu de US$ 50 bilhões para meros US$ 2,1 bilhões.
O ambiente geopolítico de 2026 pode favorecer ainda mais a ultrapassagem. O agravamento das tensões entre Estados Unidos e China e os impactos do conflito no Oriente Médio sobre o comércio global criam ventos favoráveis ao Brasil, que mantém uma relação construtiva com Pequim e continua a diversificar mercados — incluindo o recente acordo Mercosul-União Europeia.
Para os agricultores americanos, a era da hegemonia indiscutível parece estar chegando ao fim. Como resumiu o FT, o declínio do "superpoder agrícola" americano é um processo em curso — e 2026 pode ser o ano em que a balança pende definitivamente para o lado brasileiro.
Resumo
- Financial Times projeta que o Brasil deve superar os EUA como maior exportador agrícola mundial em 2026
- Diferença entre os dois países caiu para apenas 1,2%, com exportações brasileiras em nível recorde
- China, guerra comercial e competitividade do agro brasileiro aceleram a perda da liderança americana