O tormento que vive o crédito agrícola - ainda - parece longe de se encerrar. Dados divulgados há pouco pelo Serasa Experian mostram que a inadimplência da população rural atingiu 8,8% no primeiro trimestre deste ano.
No mesmo período em 2025, o indicador estava em 7,6%, e ao final de dezembro, em 8,2%. Essa foi a maior alta em pontos percentuais comparando trimestres subsequentes desde então: 0,6 ponto percentual.
O índice da datatech considera dívidas de pessoas físicas da população rural brasileira que estejam vencidas há mais de 180 dias e tenham sido contraídas com empresas de setores relacionados ao agronegócio.
“A alta gradual da inadimplência mostra que, no início de 2026, os produtores rurais ainda enfrentam desafios para recompor sua capacidade financeira", disse, em nota, Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian.
Segundo ele, mesmo com uma perspectiva mais favorável para alguns segmentos do agronegócio, os efeitos de ciclos anteriores, com custos elevados, oscilações de preços e restrição ao crédito, seguem impactando o fluxo de caixa e a capacidade de pagamento no setor.
O Serasa identificou que os produtores rurais sem informação de registro rural, ou seja, possíveis arrendatários ou participantes de grupos familiares e econômicos, registraram o maior nível de inadimplência, de 11%. Em ordem decrescente estavam os grandes proprietários rurais, com 9,9%, seguido pelos de médio porte (8,6%) e os pequenos (8,3%).
Na comparação com os números de dezembro de 2025, a maior alta se deu justamente nessa primeira categoria, que somava 9,9% de inadimplência naquele momento. Os demais registraram altas de menor intensidade ou estabilidade.
Na análise por faixa etária, a população rural entre 30 e 39 - considerada "economicamente mais ativa" anos soma os maiores calotes, com 13,6% de inadimplência.
Essa faixa é seguida pelos produtores de 18 a 29 anos e de 40 a 49 anos, com inadimplências de 12,4% e 11,3%, respectivamente. A partir dos 50 anos, o que se vê é uma queda gradual no indicador. A menor inadimplência foi registrada na população acima de 80 anos: 3,6%.
Na análise regional, o Norte registrou a maior taxa de inadimplência entre os produtores rurais pessoas físicas no primeiro trimestre de 2026, com 13,2%. Na sequência aparecem o Nordeste (10,2%) e o Centro-Oeste (10,1%). Já o Sudeste (7,3%) e o Sul (6,2%) apresentaram os menores índices do País.
Observando por estado, o Amapá segue na liderança com 21,2% de inadimplência, seguido no top 3 por Amazonas, com 15%, e Roraima, com 14,4%. Na ponta inferior, os três estados sulistas - Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul - registraram, ao final de março, inadimplências de 6,4%, 6,4% e 5,8%, respectivamente.
Os estados de maior produção de grãos, Mato Grosso e Goiás, ficaram próximos da média nacional, com 11,3% e 9,6%, respectivamente.
O Serasa ainda pontuou que a análise feita pelo Agro Score, solução de inteligência de crédito desenvolvida pela empresa e que avalia o risco de inadimplência de produtores rurais com notas de 0 a 1000, mostrou redução no primeiro trimestre.
A pontuação média dos produtores rurais caiu de 606 pontos, no primeiro trimestre de 2025, para 591 pontos no mesmo período de 2026, o que, na visão da empresa, indica uma "maior percepção de risco de crédito e reforçando a necessidade de análises mais precisas para a concessão de crédito ao setor".
Para montar esse indicador de inadimplência, o Serasa cita que considerou, além do período de vencimento superior a 180 dias, dívidas que somam pelo menos R$ 1 mil e que estejam relacionadas ao financiamento da atividade rural.
As categorias de credores utilizadas foram Instituições Financeiras (bancos, fundos de investimentos, cooperativas de crédito e outras descritas como "atividades de serviços financeiros" pelo IBGE), Setor Agro (agroindústria de transformação e comércio atacadista agro, serviços de apoio ao agro, produção e revendas de insumos e de máquinas agricolas e produtores rurais) e Outros Setores (seguradoras, transporte de carga e armazenamento).
O percentual de inadimplência é calculado sobre 11,3 milhões de pessoas físicas mapeadas na população rural, que possuam registro no CAR, Cafir (Cadastro Federal de Imóveis Rurais) ou registro de produtor rural no Sintegra.
Resumo
- Inadimplência rural subiu para 8,8% no 1º trimestre, ante 8,2% no fim de 2025 e 7,6% um ano antes, estima Serasa
- Produtores sem registro rural lideram os calotes, com 11%; entre estados, o Amapá tem a maior taxa, de 21,2%
- Agro Score caiu de 606 para 591 pontos em um ano, indicando aumento do risco de crédito no campo