Enquanto o governo brasileiro posterga decisões para ampliar a mistura de biodiesel no diesel fóssil dos atuais 15% para 16%, a nova política americana para o setor de biocombustíveis começa a gerar efeitos no caixa das principais empresas processadoras de óleos vegetais.
Desde o início do ano, as ações da ADM, uma das maiores tradings de commodities agrícolas do mundo, valorizaram 35%, especialmente após o governo Trump ter determinado a ampliação dos limites para a utilização de combustíveis renováveis na combinação com os fósseis.
O “ambiente construtivo” (como classificou o CEO da empresa, Juan Luciano) nesse segmento foi uma das principais explicações da ADM para praticamente dobrar seu lucro por ação no balanço do um segundo trimestre de 2026 em relação ao apresentado no mesmo período do ano passado.
Dividido pelo número de papeis da companhia em circulação, o lucro líquido ajustado de US$ 895 milhões indica um ganho de US$ 1,84 no trimestre, alta de 98% ante os US$ 0,93 do mesmo período de 2025 — bem acima do consenso dos analistas, que esperavam cerca de US$ 1,44.
A receita da companhia no trimestre foi de US$ 22,7 bilhões, um aumento de 7% na comparação anual. O lucro operacional total dos segmentos, no entanto, avançou 75%, para US$ 1,45 bilhão. No acumulado do primeiro semestre, o lucro por ação ajustado foi de US$ 2,56, alta de 57%.
Com o desempenho, a ADM revisou para cima, pela segunda vez consecutiva, a projeção de lucro por ação ajustado para 2026, agora entre US$ 5,15 e US$ 5,60 — acima da faixa anterior de US$ 4,15 a US$ 4,70, que já havia sido elevada em maio.
Além das melhores condições para a comercialização de combustíveis nos Estados Unidos, a companhia atribuiu a melhora à execução comercial e operacional e ao "momentum na Nutrição".
O ambiente favorável aos biocombustíveis decorre, segundo o release divulgado na manhã desta terça-feira, 4 de agosto,, da finalização das obrigações anuais de volume renovável (RVO) de 2026 e 2027 sob o padrão de combustíveis renováveis dos EUA (Renewable Fuel Standard), concluída em março de 2026, apoiada pela dinâmica do comércio global e pelos preços elevados de energia.
Assim, o segmento de Ag Services & Oilseeds (AS&O), que abriga a operação de esmagamento e os negócios ligados a biocombustíveis, foi o grande destaque do relatório trimestral.
O lucro operacional do segmento saltou 129% no trimestre, para US$ 867 milhões, ante US$ 379 milhões no mesmo período de 2025. Dentro do segmento, o negócio de Ag Services mais que dobrou, com alta de 159%, para US$ 293 milhões.
O esmagamento de soja e outras oleaginosas para produção de farelo e óleo, matéria-prima dos biocombustíveisregistrou lucro operacional de US$ 363 milhões, dez vezes os US$ 33 milhões registrados um ano antes – embora a companhia tenha classificado esse salto como "não significativo" em termos percentuais por envolver base muito reduzida.
Na semana passada, a ADM informou a decisão de investir na ampliação de quatro de suas indústrias de processamento de soja nos EUA, justamente para atender à demanda maior por biocombustíveis no país. O valor dos aportes não foi revelado.
A companhia destacou, porém, que o desempenho regional foi misto. Se as fortes margens de biodiesel na América do Norte justificam o investimento, no balanço ela cita impactos negativos de marcação a mercado (mark-to-market) e por desequilíbrios de oferta e demanda na América do Sul, que pressionaram as margens locais.
O ponto tem relevância direta para o Brasil, já que a ADM é uma das maiores processadoras de soja do País, com unidades industriais que abastecem tanto o mercado interno de farelo e óleo quanto a exportação.
Nutrição
O segmento de Nutrição, que a ADM vem reposicionando como prioridade estratégica, registrou lucro operacional de US$ 172 milhões no trimestre, alta de 51% ante os US$ 114 milhões do ano anterior.
A divisão de Nutrição Humana avançou 51%, para US$ 139 milhões, e a de Nutrição Animal cresceu 50%, para US$ 33 milhões — confirmando a trajetória de recuperação que a companhia vinha sinalizando e que embasa a elevação do guidance.
Outro segmento, o de soluções de carboidratos – que processa milho para amidos, adoçantes e etanol – também avançou. No acumulado do semestre, o lucro operacional subiu 33%, para US$ 767 milhões. Também aqui o ambiente favorável aos biocombustíveis contribuiu, com o fornecimento para a produção de etanol.
Resumo
- ADM reportou alta de 98% no lucro por ação no segundo trimestre em relação ao mesmo período de 2025, bem acima do consenso de mercado
- O bom desempenho foi atribuído sobretudo ao melhor ambiente no segmento de biocombustíveis nos Estados Unidos
- América do Sul, incluindo o Brasil, segue com margens pressionadas por desequilíbrios regionais de oferta e demanda