O movimento já está quantificado nos relatórios semanais da consultoria Céleres, uma das mais respeitadas do País na análise das safras agrícolas: nas duas últimas semanas, a comercialização da safra atual de soja avançou de 6 a 9 pontos percentuais — ritmo bem superior ao de períodos anteriores, quando o mercado estava travado.
Também as vendas futuras, para o grão que ainda será plantado para a colheita no início do próximo ano, aceleraram de 4 a 5 pontos.
“A gente está vendo como uma janela de oportunidade conjuntural e o agricultor está correndo e vendendo… Safra velha, safra colhida este ano e avançando também na comercialização da safra 2026/2027”, afirma Anderson Galvão, CEO da Céleres, em entrevista ao AgFeed.
“No curto prazo, a recomendação que a gente tem dado a nossos clientes é: ‘Trave, venda produção, faça caixa e defenda a receita, principalmente em reais’”, afirma Anderson Galvão, CEO da Céleres.
A orientação – que, como mostram os números, alguns já estão seguindo – é aproveitar uma conjunção momentânea de fatores que fizeram, nas últimas semanas, com que os preços de commodities agrícolas se recuperassem de um longo período baixista e voltassem a se mostrar um pouco mais atraentes aos agricultores.
A reação pode ser percebida tanto em índices globais como naqueles que acompanham a comercialização nas principais praças brasileiras.
O Bloomberg Agriculture Spot Index, que acompanha dez grandes culturas em nível global, por exemplo, atingiu, na quarta-feira, 22 de julho, o maior nível desde julho de 2023, depois de sete semanas consecutivas de alta.
No Brasil, a soja foi o destaque. O indicador Cepea/Esalq para o porto de Paranaguá (PR) fechou a R$ 145,45 a saca de 60 kg no mesmo dia, marcando uma valorização de 8,89% no mês. O preço médio de julho, de R$ 139,10, é o maior patamar médio do ano e zerou as perdas acumuladas em 2026.
No Mato Grosso, referência da produção nacional, os preços para a safra futura (com entrega para o período de março a maio de 2027) voltaram a ser sinalizados na casa dos R$ 105 por saca no eixo da BR-163, depois de terem caído a R$ 90.
No mercado físico, o patamar atual já supera os R$ 120 no estado. Para Galvão, esses preços "voltam a permitir preços para a safra nova na casa acima de R$ 100 no saco" — nível que, embora ainda apertado diante da alta dos insumos, já permite projetar alguma rentabilidade.
O movimento, segundo Galvão, não representa, no entanto, uma mudança estrutural de patamar, mas uma rara conjuntura que acumula de fatores de pressão que estimularam a ação de investidores no mercado externo.
O primeiro desses fatores é o climático. Galvão explica que é normal, nesta época do ano, a entrada em cena do chamado “mercado do clima dos Estados Unidos”.
“Vai chover, o preço desaba, se choveu o preço sobe. É assim que fundo de investimento roda posições em Chicago”, diz.
A presença no cenário do fenômeno El Niño ajuda a amplificar esse mercado. A Europa, por exemplo, já estima reduções relevantes em sua safra de grãos por conta de uma onda de calor extremo que afetou o rendimento de lavouras, sobretudo de trigo e milho, em países como França e Alemanha.
A previsão é que a produção do continente atinja o menor nível em 19 anos, segundo a Bloomberg, que classificou o evento climático como “o maior golpe em décadas” para os grãos europeus.
Ao mesmo tempo, os ataques no Mar Negro voltaram a ameaçar o fluxo de exportação de grãos da Rússia e da Ucrânia, injetando volatilidade nos mercados futuros de Chicago.
“O conflito Rússia e Ucrânia está mais afetando milho e trigo por conta das interrupções do fluxo de produto agrícola no Mar Negro”, explica Galvão.
O agravamento das tensões no Oriente Médio acrescenta outra camada de pressão. A alta do petróleo e do diesel impulsiona os preços dos óleos vegetais e dos biocombustíveis, o que indiretamente sustenta a soja como matéria-prima.
Outro elemento conjuntural que ajuda a explicar a recuperação de preços da soja em Chicago, de acordo com o consultor, é o fato de a China ter voltado a comprar a leguminosa nos Estados Unidos.
Galvão faz questão de separar o que é conjuntural do que é estrutural. A seu ver, os elementos estruturais do mercado de soja seguem baixistas: estoques globais elevados, agricultor brasileiro ainda expandindo área (cerca de meio milhão de hectares adicionais nesta safra, segundo estimativas da Céleres, após 1 milhão na anterior) e fazendas que mudam de dono, mas não param de produzir.
“Para fazer preço subir de forma estrutural, o agricultor do Brasil tem que parar de produzir para reduzir oferta, e não está acontecendo”, afirma.
O câmbio também é, na sua visão, uma variável central. O real, que beliscou os R$ 4,90 há 40 dias e hoje orbita perto de R$ 5,10, ajuda a sustentar os preços em moeda nacional.
Mas Galvão alerta que esse fator pode se reverter rapidamente se o cenário político-eleitoral trouxer um candidato com discurso de disciplina fiscal — hipótese que, segundo ele, faria o real despencar para a casa dos R$ 4,60, comprimindo a receita do produtor em reais.
Por ora, a safra brasileira está colhida, a pressão de frete diminuiu e o agricultor, que enfrentou meses de preços no limite do custo de produção enxerga, finalmente, uma luz no fim do túnel.
O desafio, alerta Galvão, é não confundir o clarão de uma janela que se abre com a chegada definitiva de um novo ciclo de alta.
Resumo
- Alta da soja acelera vendas da safra atual e futura, com produtores aproveitando uma janela favorável de preços
- Clima, conflitos geopolíticos, petróleo e compras da China impulsionam a recuperação das cotações no curto prazo
- Céleres alerta que a alta é conjuntural e recomenda travar preços para proteger receitas antes de nova reversão