Retomada do mercado de insumos e operações de barter batendo recorde. Essas são algumas das projeções feitas pela consultoria Céleres para o agronegócio em 2026. No caso dos insumos, a expectativa é que as vendas voltem à casa dos R$ 300 bilhões na safra 26/27, patamar atingido pela última vez na safra 22/23.

A consultoria projeta um valor de R$ 309 bilhões em vendas na próxima safra, o que representa um avanço de 8% em relação aos R$ 285 bilhões da safra 25/26. Na safra 22/23, o volume registrado foi de R$ 314 bilhões.

Dessa vez, há uma diferença importante em relação ao cenário visto há quatro anos. Enilson Nogueira, analista da Céleres, afirma que o mercado de insumos está mais maduro após a crise vivida nos últimos anos.

“Agora, o que temos é um nível de estoques dentro da média histórica, o que permite às indústrias e às distribuidoras praticarem preços melhores. Nada espetacular, mas melhor do que aconteceu recentemente”, afirma.

Em relação ao crescimento do volume, a Céleres aponta que ele acontecerá principalmente em função do crescimento de área plantada. “Tivemos um aumento próximo de 4 milhões de hectares na soja nos últimos três anos, e de quase 2 milhões no milho”.

Mesmo com margens ainda pressionadas, as perspectivas para o segmento de insumos são positivas para os próximos anos, segundo Nogueira.

“O mercado aprendeu muito com as dificuldades. Preços não devem subir tanto, mas começam a existir argumentos para valores mais sustentáveis para a cadeia”, explica.

Segundo a Céleres, as operações de barter vão seguir essa tendência de crescimento. Isso porque a troca de grãos por insumos tem benefícios para as duas partes.

“Para o produtor, é uma forma de fugir dos juros altos, e manter seu negócio rodando. Do outro lado, também evita que a distribuidora tenha problemas, com mais garantia, fugindo inclusive de uma eventual recuperação judicial do produtor”, diz Nogueira.

A consultoria projeta que a safra 25/26 terminará com o barter representando quase 30% das negociações de insumos agrícolas do país.

O analista afirma que, hoje, é muito mais viável para o vendedor correr os riscos atrelados às commodities que aqueles decorrentes de juros altos.

“Claro que existe a questão de saber o momento de travar preços dos grãos, mas hoje existem ferramentas que ajudam muito nesse processo. E o vendedor acaba tendo a segurança de que vai receber”.

Além do recorde no barter e da “luz no fim do túnel” para os insumos, a consultoria apontou outros 8 temas relevantes para o agro em 2026

Um deles é o crédito limitado e mais caro, que deve persistir ao longo deste ano. A Céleres apurou que nas mais de 1.500 operações de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) feitas entre 2015 e 2025, o custo estimado de originação supera os 20% ao ano.

“Cabe ressaltar que esse patamar reflete apenas parte do custo de capital para players com boa governança. Quem não acessa os CRAs tende a apresentar custo ainda maior, diz o relatório da consultoria.

Enilson Nogueira afirma que o produtor “hoje simplesmente não consegue margem para fazer frente a esse nível de juros. E mesmo com a taxa básica em 12% a 13%, como projetamos, vai continuar muito caro”.

Margens em queda

Outro ponto levantado pelos consultores é a margem ainda baixa para o produtor. O  analista da Céleres afirma que a safra 24/25 foi atípica para os produtores de soja. Portanto, a projeção para o resultado do período 25/26 é uma volta à realidade.

A Céleres projeta que a margem para os produtores de soja em Mato Grosso caia de 10,7 sacas por hectare para 6,4 sacas por hectare.

“Tivemos a China deixando de comprar soja dos Estados Unidos e recorrendo ao Brasil, e essa obrigatoriedade acabou. O câmbio também deixou de ser tão favorável de um ano para o outro”, diz Nogueira.

O milho também deve ter uma margem menor, mas com uma queda menos intensa. A projeção da Céleres é que a margem recue de 5,9 para 4,6 sacas por hectare.

“Tanto na soja quanto no milho, é a produtividade que tem sustentado as margens. Na soja, há um avanço de produtividade média nos últimos anos, de cerca de 50 sacas para até 65 sacas por hectare. No milho é ainda mais importante esse avanço, que passou de 100 sacas para até 130 sacas por hectare”, explica Nogueira.

A Céleres aponta outro risco para as margens da soja. “Somente 37% da produção de soja 25/26 está vendida, contra aproximadamente 50% na média de cinco anos. O mercado comprador sabe que haverá excesso de produto no início de 2026”, diz o relatório.

Uma quinta tendência para 2026 é uma “retomada mais lenta” no mercado de sementes de soja. A Céleres aponta que, nos últimos anos, houve um aumento importante na capacidade de beneficiamento, enquanto a demanda por sementes certificadas registra estabilidade.

Por isso, a consultoria afirma que o cenário é de guerra de preços e redução de margens, algo que deve continuar em 2026.

Na logística, enquanto os preços da soja continuam pressionados, os custos de frete devem subir significativamente em 2026, inclusive pela aplicação do piso de frete pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

Segundo o relatório, o peso dos custos logísticos totais chegará ao maior nível desde 2018.

Entre os pontos levantados pela consultoria estão a importância da produtividade para garantir margem no atual cenário e a maior competição entre as empresas de defensivos agrícolas, em meio à concorrência com players asiáticos e aumento do endividamento.

Empresas de insumos precisarão investir mais na base de clientes atual e extrair mais valor, de acordo com o texto.

Por último, a consultoria ressalta que, apesar das margens menores, a área plantada de soja no Brasil cresceu quase 4 milhões de hectares nos últimos três anos. São áreas que agora evoluem para a maturidade do potencial produtivo, que garante um aumento de produção, mesmo que o crescimento de área desacelere.

Resumo

  • Consultoria Céleres mostra que a indústria de insumos deve faturar R$ 309 bilhões na safra 26/27, perto do recorde de 22/23.
  • Relatório aponta 10 tendências para 2026, com destaque para temas como queda nas margens e crédito ainda caro.
  • Cenário no setor de sementes de soja é de guerra de preços e redução de margens, algo que deve continuar em 2026.