Após o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) ter alterado recentemente a forma de inspeção de cargas de soja para exportação nos portos, as tradings passaram a reagir nesta semana em uma tentativa de pressionar o governo para modificar as regras.
O estopim para a discórdia se tornar pública foi a decisão da multinacional Cargill de suspender a exportação de soja para a China e também as compras de grãos de produtores brasileiros que seriam destinados aos chineses, segundo informações divulgadas inicialmente pela agência Reuters.
"Temos um sistema de inspeção padrão no setor, com amostragem. O Ministério da Agricultura do Brasil começou a fazer seu próprio tipo de análise", disse o presidente da Cargill no Brasil, Paulo Sousa, à agência.
O líder da gigante global das commodities no País afirmou que, em vez de usar a amostra padrão para inspeção que o mercado usa, o Mapa está fazendo sua própria amostragem e que isso gera discrepâncias. "Com essas discrepâncias, os certificados fitossanitários que acompanham a carga, que são emitidos pelo ministério, em alguns casos não estão sendo emitidos...", disse Sousa.
Sousa disse que os certificados sanitários que precisam acompanhar as remessas até o destino não estão sendo emitidos e que, dessa forma, os navios para a China não conseguem viajar.
Uma fonte do mercado disse ao AgFeed que não apenas a Cargill mas também a Bunge e a Cofco não estão fazendo negócios no mercado da soja. "Quem está comprando um pouco é ADM, NovaAgri e Louis Dreyfus de forma pontual", disse essa fonte.
As tradings também justificam o movimento pelo cenário de maior incerteza, que envolve a alta nos preços de fretes, tanto no mercado interno, em função da alta demanda nesta época do ano, quanto no mercado internacional.
A situação é agravada pela guerra no Irã e pela alta nos preços do barril de petróleo – que nesta sexta-feira, 13 de março, chegou a superar a marca de US$ 100 no tipo Brent. O frete marítimo já teria subido entre US$ 10 e US$ 15 por tonelada. "Usaram esses argumentos para parar de comprar", afirma.
"E a prova de que não estão comprando do produtor é que, em determinado dia desta semana, o preço em Chicago subiu 20 centavos por bushel e o farmer selling só foi 400 mil toneladas. E o normal seria rodar 1 milhão e meio de toneladas num dia de alta assim", sustenta a fonte.
O movimento das tradings, na avaliação dessa fonte, envolveria pressionar o governo brasileiro para ajustar as regras.
O governo chinês teria pedido ao governo brasileiro que reforçasse as políticas sanitárias ainda em novembro passado, após uma carga que teria chegado muito avariada à China.
No fim daquele mês, o governo chinês suspendeu de forma temporária as importações de soja de cinco unidades brasileiras – duas da Cargill, uma da Louis Dreyfus Company, uma da CHS e outra da 3tentos – após detectar resíduos de pesticidas em uma carga de 69 mil toneladas de soja enviada à China.
"E alguém do Mapa disse: 'Tá bom, vai ser tolerância zero'", afirmou a fonte.
Desde então, a política de inspeção fitossanitária teria mudado, com inspeções físicas nos navios que vão para a China.
Mas ainda assim o processo tem falhas: os testes são feitos, mas o certificado é emitido depois que as embarcações já estão em alto mar. "Em função dos processos burocráticos, o certificado fitossanitário normalmente é emitido aqui, mas quando o navio já saiu", afirma.
Com a possibilidade de o protocolo ser negativo, há o risco de que as embarcações não consigam descarregar no seu local de destino. "Em fevereiro teve um barco da Cofco que, quando chegou à China, não teve o certificado fitossanitário emitido. Precisou ser direcionado para a Coreia", disse. "Agora está todo mundo no risco".
Pelo menos 20 navios carregados com soja para a China já teriam tido embarque comprometido, segundo informações do site Globo Rural.
Para a fonte ouvida pelo AgFeed, a política de "tolerância zero" pode trazer complicações para o mercado. "Não tem como ser tolerância zero, senão não vai exportar nada. Tem que ter uma porcentagem de avariado, claro, mas não tolerância zero", diz.
Todas as tradings estão com problemas e o mercado de exportação está parado, avalia a fonte. "A Cargill está peitando a política, como se dissesse: 'Enquanto vocês não resolvem isso, eu saio do mercado.'", afirma.
Em entrevista à CNN, o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, criticou a Cargill. "Não gostei da postura da Cargill quando começa dizendo que o Ministério da Agricultura muda os procedimentos. Isso é mentira”, afirmou.
“A Cargill deveria ser mais responsável. A postura da empresa não foi legítima. O que precisa ser feito é ajustar a limpeza da soja brasileira”
Fávaro disse ainda que a empresa "sabe muito bem que há algum tempo o governo chinês reclama de que há algumas cargas de soja brasileira chegando sem o cumprimento do protocolo".
O ministro disse ainda que, recentemente, o governo identificou que 19 navios estavam carregados com soja com sementes com ervas daninhas. Isso, segundo Fávaro, não prejudica o padrão de qualidade, mas descumpre o protocolo fitossanitário acordado com a China.
Ao AgFeed, o Ministério da Agricultura e Pecuária disse, em nota, que a exportação de soja brasileira e seus coprodutos “segue normas e protocolos estabelecidos pelos países importadores”.
A nota prossegue dizendo que o Mapa, por meio da Secretaria de Defesa Agropecuária, “possui papel central nesse processo, tendo em vista ser a autoridade nacional competente para certificar o atendimento das exigências fitossanitárias dos países que adquirem a soja brasileira.”
A pasta disse ainda na nota que “a robustez do sistema de defesa agropecuária brasileiro, reconhecido internacionalmente, reside dentre outras características na sua capacidade de certificar o cumprimento dos requisitos sanitários e fitossanitários.”
“A abertura de novos mercados e a manutenção dos já abertos dependem da credibilidade do sistema de defesa agropecuária, que vem atuando de maneira responsável e técnica”, diz o Mapa.
O ministério afirmou também que “reforça seu compromisso com o agronegócio nacional” e que “trabalha com a certeza do comprometimento dos produtores e exportadores brasileiros com os critérios já estabelecidos para manutenção da confiabilidade e a competitividade da soja nacional no mercado externo”.
Por fim, a pasta lembrou que o Brasil conta 550 mercados abertos para produtos agropecuários em 84 destinos. “Esse resultado reflete não apenas o fortalecimento das relações diplomáticas, mas também a credibilidade do sistema de defesa agropecuária brasileiro, que sustenta a confiança internacional na produção agropecuária do país”, concluiu o Mapa.
À reportagem, a assessoria de imprensa da Cargill disse que se manifestaria apenas via Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove).
Em nota conjunta, a Abiove e a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (ANEC) disseram que estão acompanhando, “de forma atenta e com preocupação” o assunto embarques de soja destinados ao mercado chinês.
As associações disseram “que seguem atuando de forma colaborativa e mantendo diálogo constante com as autoridades competentes e com as demais entidades da cadeia produtiva para buscar soluções que garantam a fluidez do comércio, a previsibilidade das operações, prezando pela segurança jurídica e fortalecimento das relações comerciais internacionais e pela garantia dos requisitos de fitossanidade.”
Nos próximos dias, uma comitiva do Mapa desembarca na China e o assunto deve estar na pauta. A viagem já estava prevista antes mesmo de esse tema vir à tona e, entre outros temas, discuturia as exigências de tolerância zero para pragas quarentenarias. "Com essa crise, a viagem ganhou mais importância", afirmou ao AgFeed uma fonte ligada às tradings, que preferiu se manter no anonimato.
Colaborou Alessandra Mello