Xô, mau humor. O mercado de Fiagros parece que de fato está voltando a pegar tração após dois anos sem muitos follow-ons. Enquanto tenta captar R$ 450 milhões para um novo fundo fechado e dedicado ao agro, a gestora Valora resolveu reforçar o caixa de seu Fiagro listado e negociado na B3, o VGIA11.

Em prospecto publicado nesta semana, a gestora anunciou uma quinta emissão de cotas mirando R$ 400 milhões. Dessa forma, o patrimônio líquido do fundo pode saltar dos pouco mais de R$ 842 milhões atuais (considerando caixa e CRAs que compõe o portfólio) para cerca de R$ 1,24 bilhão em PL.

A gestora ainda trabalha com um cenário de demanda adicional, o que poderia fazer a emissão somar outros R$ 100 milhões extras. Serão emitidas, inicialmente, 42,1 milhões de novas cotas ao preço de R$ 9,50 por cota. As cotas serão distribuídas pela XP.

Nesta tarde, cada cota do fundo era negociada por volta de R$ 10,18, o que implica num desconto de cerca de 8% frente ao preço de tela.

O último follow-on - a quarta emissão de cotas - do VGIA11 ocorreu em março de 2023, quando a empresa captou cerca de R$ 127 milhões, abaixo do valor inicial pretendido na época.

O Fiagro aloca principalmente em cooperativas como Cotribá e em distribuidoras de insumos como a Fiagril. O portfólio ainda conta com CRAs da Ubyfol, Languiru e Belagricola.

Nos últimos anos, parte desse portfólio foi alvo de problemas financeiros. A primeira empresa desse rol foi a Languiru em 2023, que repentinamente pediu uma carência aos credores. Depois de muita negociação, a Valora fechou acordo sem deságio sobre valor da dívida.

Já no final de 2025, empresas que continham dividas dentro do fundo começaram a ter problemas, ou pelo menos foram alvo de boatos.

A primeira foi a Belagrícola, que protocolou seu plano de recuperação extrajudicial no inicio de dezembro. No último relatório gerencial do VGIA11 disponível no site da gestora, referente à novembro, a Valora cita que negociou nos últimos meses com a companhia novas condições, mencionando que a Belagrícola sofreu "desafios econômicos nos últimos dois exercícios por fatores micro e macroeconômicos".

"Uma das vantagens de controlarmos operações estruturadas como esta é exatamente a capacidade de adaptá-las a novas condições que se façam necessárias em situações como a presente", cita a Valora no relatório de novembro.

A empresa tem como principal acionista a chinesa Pengdu, controladora da Fiagril, também envolvida em rumores de dificuldades financeiras no final do ano passado. A Fiagril, entretanto, negou publicamente esses rumores e e citou que "as obrigações vinculadas aos CRAs lastreados em direitos creditórios da companhia permanecem vigentes e integralmente adimplentes".

A cooperativa gaúcha Cotribá é outra que não vive seus melhores dias. Entre o final de novembro e o início de dezembro do ano passado, a empresa viveu um cenário de crise financeira, atraso nos pagamentos e pressão nos produtores, que culminou em uma tutela cautelar.

No prospecto definitivo da nova emissão, a empresa cita um pipeline possível de aquisição de ativos, num indicativo que prefere investir em CRAs de produtores rurais.

Cerca de R$ 230 milhões são indicados como possíveis investimentos em títulos do tipo. O pipeline ainda conta com distribuidores de insumos, usinas sucroenergéticas, distribuição de combustíveis e frigoríficos.

Os dois movimentos da Valora somam-se a outras casas voltando a captar recursos com investidores para fundos de agro.

Do segundo semestre de 2025 para cá, a Riza Asset captou R$ 400 milhões em um fundo de terras, a Suno levantou quase R$ 60 milhões em um follow-on do seu Fiagro de fazendas e a XP colocou de pé um Fiagro de R$ 150 milhões.

Resumo

  • A Valora lançou a 5ª emissão de cotas do VGIA11, buscando captar R$ 400 milhões (com possibilidade de mais R$ 100 milhões), o que pode elevar o patrimônio do fundo para cerca de R$ 1,24 bilhão
  • A oferta sai a R$ 9,50 por cota - cerca de 8% abaixo do preço de tela - em meio a um histórico recente de estresse em empresas que possuem CRAs no portfólio atual
  • O novo pipeline indica foco maior em CRAs de produtores rurais, num momento em que outras gestoras também retomam captações e sinalizam reativação do mercado de Fiagros