Não-Me-Toque (RS) - Já faz tempo que as incertezas pairam sobre a agropecuária gaúcha. Os últimos anos foram marcados por períodos de seca, quebras de safra e também pela histórica enchente de 2024, que afetou toda a economia do estado.
O grande termômetro para dizer se “o pior já passou” é a 26ª edição da Expodireto Cotrijal, que começou nesta segunda-feira, 9 de março, em Não-Me-Toque (RS).
Com períodos alternados de sol e até uma chuva forte, a movimentação nos estandes não foi tão expressiva neste primeiro dia.
O destaque foi um protesto de produtores rurais nas primeiras horas da manhã, na hora da abertura dos portões, do lado de fora. O grupo mostrava cartazes com a frase “Luto pelo agro. Se não lutar, ele morre”.
A principal reivindicação é a renegociação de dívidas, já que muitos produtores ainda não teriam sido contemplados pelas medidas anunciadas pelo governo. O presidente da Cotrijal, Nei Mânica, recebeu os manifestantes e disse que “apoia essa luta”.
As últimas previsões para a safra gaúcha de soja, que está começando a ser colhida, indicam para uma produção em torno de 21 milhões de toneladas. É um volume bem superior à safra passada, quando ficou em cerca de 15 milhões de toneladas. A leitura, porém, é que o alto nível de endividamento dos produtores ainda limita a capacidade de investimento.
Nos dados da Serasa Experian, divulgados também nesta segunda-feira, o Rio Grande do Sul aparece em sétimo lugar em um ranking negativo de estados com mais recuperções judiciais, tendo registrado 159 pedidos em 2025 entre produtores e empresas do agro.
Ao AgFeed, o presidente Nei Mânica disse que apesar da melhora na produção nesta safra, em algumas regiões do estado ainda está havendo falta de chuva. Se comparado com o último ano “há um certo ânimo”, mas regiões onde ainda há quebra, a rentabilidade dos produtores vem sendo mais afetada. Mesmo assim, ele ressalta, na Expodireto o foco é tecnologia e na inovação.
“Aqui todos os visitantes, todos os produtores vão encontrar muita informação, muito conhecimento e muitas oportunidades de negócio. Todo ano é uma incógnita, porque depende muito da questão dos financiamentos, depende muito das taxas de juros e as empresas vêm preparadas com preços especiais, então muitos produtores capitalizados, com certeza, farão seus negócios. Temos muitos produtores de outras regiões do Brasil, então isso pode gerar bons negócios dentro da Expodireto”, ressaltou.
Expositores estão mais otimistas
A Expodireto Cotrijal é uma das mais tradicionais do País e conta este ano com cerca de 550 expositores, inferior à edição passada, quando foram mais de 600 empresas. Em termos de público, a expectativa é receber entre 250 mil e 350 mil visitantes.
Para atrair o público, empresas têm apostado em experiências imersivas, para que o cliente visualize, mesmo que de forma virtual, os ganhos que determinado tecnologia pode trazer para a lavoura.
A Corteva, de defensivos, por exemplo, montou um “cinema imersivo” para mostrar como é a jornada do produtor rural em busca da produtividade,
A Cibra, de fertilizantes está mostrando uma “jornada da produtividade” para divulgar produtos que buscam atender a deficiência de fósforo no solo, a partir de uma parceria feita com a gigante global do Marrocos OCP.
Na Mosaic, do mesmo segmento, foi montado o “Cubo de Biosciences”, com simulações virtuais, painéis interativos e gamificação dos produtos, para promover o portfólio de bioinsumos da empresa.
Tiago Dickel, gerente Comercial da John Deere para o Rio Grande do Sul, disse ao AgFeed que sente um clima mais otimista neste início de Expodireto “em decorrência das chuvas recentes e do estágio da lavoura, que promete uma produtividade acima dos últimos anos”.
No ano passado, a produtividade havia despencado para patamares próximos a 37 sacas por hectare. Nesta safra, consultorias ainda sinalizam um rendimento médio para a soja gaúcha acima de 50 sacas.
“Os clientes estão com outro ânimo. Entendemos que ainda temos muitos desafios com relação à safra gaúcha, mas o clima está mais otimista pelo potencial produtivo”, afirmou Dickel, da John Deere.
Sobre o mercado de máquinas agrícolas, especificamente, ele acredita que o cenário está “flat” em relação ao ano passado. “As metas ficaram parecidas devido a um clima de cautela, mas com uma expectativa boa diante da maior produtividade esperada”.
O executivo diz esperar melhores vendas de colheitadeiras, impulsionada pela sazonalidade, tanto para soja quanto no arroz. “A expectativa também é positiva para tratores, pois, além de boas condições comerciais, trouxemos taxas de juro subsidiadas pela fábrica, o que está melhorando o ânimo e trazendo o cliente novamente para as negociações."
Na feira que abriu o calendário deste ano, o Show Rural Coopavel, no Paraná, a Abimaq estimou que houve uma queda de 15% nas vendas.
O AgFeed perguntou ao presidente Nei Mânica se há risco de ocorrer o mesmo na feira gaúcha. Ele respondeu:
“É muito sazonal e é muito pontual, mas todos sabem que o Rio Grande do Sul vem sofrendo mais que os outros estados, isso reflete com certeza na comercialização. Mas as empresas sabem disso, o objetivo é mostrar seus produtos, suas marcas, fazer bons negócios e o que não acontece dentro da feira agora, nesses cinco dias, as empresas terão 360 dias no ano para realizar, junto aos seus clientes”.
Resumo
- Produtores protestaram por renegociação de dívidas na abertura da Expodireto Cotrijal, no Rio Grande do Sul.
- Situação financeira contrasta com perspectiva de safra mais promissora, que pode chegar a 21 milhões de toneladas de soja, acima das 15 milhões da safra anterior
- Endividamento ainda limita investimentos, apesar de maior otimismo de expositores com produtividade e tecnologias