Quando lançou seus primeiros CRAs voltados a produtores rurais de médio porte, no fim do ano passado, a gestora GCB ainda testava uma tese pouco explorada pelo mercado de capitais brasileiro.
Sete meses depois, a gestora já soma R$ 100 milhões em operações de CRAs estruturadas para produtores rurais utilizando a norma 88 da CVM, a mesma que rege o crowdfunding de investimentos, financiando desde reorganizações de dívida até investimentos em irrigação e expansão agrícola.
A CVM 88 permite ofertas menores, com menos custo e menos burocracia do que a 160. Na prática, viabiliza operações que não caberiam no modelo tradicional e abre espaço para que empresas médias acessem o mercado de capitais.
O avanço da GCB em meio ao agro acontece em um momento de crédito ainda restrito no campo e, segundo a empresa, vem sendo impulsionado por duas estratégias que sempre ditaram o ritmo rural: a indicação entre produtores e a presença física entre quem capta e quem financia juntos, apertando as mãos no campo.
O caso mais recente é um CRA de R$ 20 milhões para o produtor Wolney Wagner de Siqueira, da Fazenda Canaã, localizada nos municípios de Bela Vista de Goiás e São Miguel do Passa Quatro, em Goiás. A propriedade soma pouco mais de mil hectares, sendo 800 agricultáveis, onde Siqueira cultiva soja, milho e tomate.
A operação prevê recursos tanto para reorganizar seus passivos bem como instalar novos pivôs de irrigação, aumentando a previsibilidade da produção em uma região que tem convivido com maior irregularidade das chuvas.
"A gente faz a primeira operação, ela funciona, o produtor recebe o recurso, os pagamentos acontecem, e outros produtores começam perceber que outro fazendeiro, de um tamanho parecido conseguiram acessar o mercado de capitais, e começam a questionar se eles também podem", contou Victor Moura, diretor de DCM da GCB, ao AgFeed.
O CRA Fazenda Canaã tem um prazo de 48 meses e remuneração prevista de CDI + 5% ao ano, com pagamento semestral de juros e amortização anual.
No caso específico da Canaã, a aproximação com o produtor começou em das viagens de prospecção realizadas pela equipe da GCB pelo interior do País.
Em vez de limitar a análise a documentos enviados remotamente, executivos da GCB passaram um dia inteiro na propriedade, percorrendo as áreas produtivas, conversando sobre a operação agrícola e entendendo os planos de investimento do produtor.
A confiança, segundo ele, foi construída aos poucos. "No começo existe uma desconfiança natural. Somos uma empresa de São Paulo chegando para falar de mercado de capitais e de uma estrutura que muitos produtores nunca utilizaram", afirmou.
Ao longo das horas, porém, as conversas deixaram de ser exclusivamente financeiras. Houve almoço na fazenda, troca de histórias. Em algumas viagens, a prospecção vira até partidas de bocha na fazenda com produtores rurais e a equipe da GCB.
A relação avançou a ponto de o próprio Wolney Wagner de Siqueira, ainda durante o primeiro encontro, colocar os executivos da gestora em uma reunião presencial com a empresa responsável pela instalação dos novos pivôs de irrigação.
"Ele chamou a empresa e falou: 'São esses caras que vão financiar', mesmo sem nada ainda fechado. Já começamos ali a conversar sobre cronograma de instalação, fluxo de pagamentos e como a operação seria estruturada", contou Moura.
"É importante a visita e estar no campo, com produtores mostrando que os negócios conosco funcionam. É a forma mais orgânica para continuar nosso crescimento", disse.
Embora a Fazenda Canaã seja uma das menores propriedades financiadas pela gestora em termos de área, Moura afirma que o perfil operacional chamou atenção pela menor alavancagem e pelo elevado nível de irrigação já existente na fazenda.
"A irrigação permite mais estabilidade de produção, reduz dependência do clima e melhora inclusive a qualidade das garantias. Uma terra irrigada vale mais e gera um fluxo de caixa mais previsível", disse.
A operação da Fazenda Canaã é a mais recente de uma sequência de emissões realizadas pela gestora desde dezembro, incluindo financiamentos para produtores e grupos agrícolas na Bahia, Maranhão, Pará e São Paulo.
Em 2025, ainda tateando o mercado, a GCB estruturou um CRA de R$ 11 milhões para a Sojal, revenda que atua em Paragominas (PA), e outro de R$ 2,7 milhões para o grupo agricola Rio Bonito, de Avaré (SP).
No final do ano passado, estruturou um CRA de R$ 30 milhões para a Avanço Agrícola, que atua com soja, milho e pecuária no Mato Grosso e no Matopiba. O recurso foi utilizado para financiar a safra e reorganizar o passivo.
Em 2026, dois CRAs chamam a atenção: um de R$ 30,5 milhões para estrutura dívida do Grupo Rizzi, produtor rural com atuação na Bahia e no Maranhão, e outro de R$ 15 milhões para a Lazarotto Agro, que cultiva soja, milho e trigo.
Segundo Moura, parte relevante da demanda atual está ligada à reorganização de passivos acumulados nos últimos anos.
"Hoje, de maneira geral, entre 70% e 80% das operações têm algum componente de reestruturação de dívida. Muitos produtores se alavancaram para comprar terras ou expandir a operação e agora buscam um passivo mais aderente ao fluxo financeiro do agronegócio", afirmou.
Embora a GCB já tenha estruturado R$ 100 milhões em operações, nem todo o recurso foi desembolsado de fato. Moura estima que até agora, cerca de R$ 60 milhões foram efetivamente liberados, enquanto o restante permanece condicionado ao cumprimento de etapas previstas em contrato.
A lógica é desembolsar os recursos em tranches, à medida que o produtor comprova a quitação de passivos ou a execução dos investimentos planejados.
"Nem sempre o produtor precisa de todo o dinheiro de uma vez. Liberar os recursos aos poucos melhora o perfil financeiro da dívida e cria uma disciplina maior de acompanhamento do crédito", afirmou Moura.
A gestora pretende atingir R$ 1 bilhão em operações estruturadas nos próximos dois anos. Além dos R$ 500 milhões dos CRAs, a ideia é ter um montante equivalente nos CRIs.
Do lado dos investidores, a demanda pelas operações tem sido dividida até agora entre fundos da própria GCB e investidores pessoa física que acessam os CRAs pela plataforma da gestora.
Segundo Moura, os investidores institucionais foram os primeiros a aderir à tese, atraídos por operações lastreadas em ativos reais do agronegócio, normalmente acompanhadas por garantias como alienação fiduciária de terras e cessão de recebíveis.
"Em termos de crédito, faz muito sentido. São operações com garantia real, fluxo de recebimento conhecido e ativos ligados a um setor essencial", afirmou.
A adesão da pessoa física, porém, vem ocorrendo de forma mais gradual. Na avaliação do executivo, parte dos investidores ainda carrega a memória das RJs, inadimplências e outras dificuldades enfrentadas por parte do agro nos últimos anos.
Segundo ele, a percepção de risco começou a mudar à medida que as primeiras operações passaram a devolver recursos aos investidores conforme o cronograma originalmente previsto.
"As primeiras emissões já fizeram um, dois ou até três pagamentos de juros e amortizações. O investidor começa a ver o dinheiro voltar e entende melhor como funciona a estrutura", disse.
O avanço da tese levou a GCB a ampliar o pipeline de operações. Segundo Moura, a gestora já trabalha na estruturação de mais dois ou três CRAs que devem ser lançados nos próximos meses, muitos deles originados justamente a partir das viagens de prospecção e das indicações entre produtores rurais.
Além de continuar expandindo a atuação em grãos - setor que concentra as operações até agora, mesmo que diversas geograficamente - a empresa também prepara sua entrada em uma nova frente de crédito.
"Estamos modelando uma tese para pecuária que está bastante interessante. É um ciclo de recebíveis diferente da agricultura e traz mais uma camada de diversificação para o investidor", afirmou.
Fundada em 2009 por Gustavo Blasco, a GCB é uma empresa de investimentos especializada em crédito privado, que já soma R$ 3 bilhões em crédito concedido e aproximadamente R$ 2,5 bilhões em ativos sob custódia.
Resumo
- GCB alcançou R$ 100 milhões em CRAs via CVM 88, financiando produtores médios e projetos de expansão e irrigação
- Entre 70% e 80% das operações têm algum componente de reestruturação de dívidas acumuladas nos últimos anos
- Gestora mira R$ 1 bilhão em operações estruturadas em dois anos e prepara entrada no crédito para pecuária