O cacau voltou ao centro do radar do agronegócio brasileiro. Impulsionado por preços internacionais ainda elevados - embora em momeno de retração - gargalos persistentes na África e um mercado global em reorganização, o cultivo do fruto começa a motivar movimentos estratégicos de empresas, fornecedores de tecnologia e grandes produtores rurais, inclusive fora de sua região mais tradicional, o sul da Bahia.
Ainda hoje, a região segue como o principal polo produtor do País, mas ainda longe do status global que possuía nos anos 1990. Dados da AIPC (Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau), entidade que tem como associados Cargill e Barry Calleubat, duas das maiores do setor, mostram que a moagem de cacau totalizou 195.882 toneladas em 2025.
Desse total, a Bahia representou 112,5 mil toneladas, quase 60% do total nacional.
Mesmo assim, na intenção de driblar a vassoura-de-bruxa e a podridão parda, duas das principais doenças do setor e que diminuiu a produção em quase 70% em 30 anos, o cacau tem ido para o Norte do País e até mesmo para regiões mais secas, como o oeste baiano e outras áreas do Cerrado.
É nesse contexto que muitas empresas redobraram suas atenções para a amêndoa. A multinacional de insumos Syngenta, por exemplo, decidiu reforçar sua atuação no segmento e firmar uma parceria com a Cargill - um dos maiores processadores de cacau do País - voltada ao desenvolvimento de soluções de manejo para a cultura no Brasil.
“O cultivo tradicional de cacau vem passando por uma necessidade clara de modernização”, afirma Ricardo Desjardins, gerente de Desenvolvimento Técnico de Mercado da Syngenta.
“É uma cultura que, por muitos anos, teve pouco investimento em tecnologia e suporte fitossanitário, apesar do valor agregado elevado do produto”, disse ao AgFeed.
A parceria com a Cargill prevê testes de campo ao longo de três anos, com o objetivo de validar um portfólio de manejo integrado de pragas e doenças adaptado a diferentes sistemas produtivos.
Os ensaios devem combinar defensivos químicos, soluções biológicas e tecnologias de aplicação, levando em conta as particularidades regionais do cultivo no País. Mesmo com a atenção crescente às novas fronteiras, o sul da Bahia continua sendo o principal polo da cacauicultura brasileira.
A região concentra tradição, conhecimento e uma cadeia estruturada, mas também carrega um histórico de produtividade baixa, muito associado à incidência de doenças e a um modelo produtivo que, por décadas, operou com baixo nível de investimento.
“A Bahia ainda é extremamente relevante, mas tem uma das menores produtividades do País”, diz Rafael Borges, analista de inteligência de mercado da StoneX. “Estamos falando de médias em torno de 400 quilos por hectare, muito próximas ou até abaixo de algumas regiões do oeste africano”, afirma.
Esse desempenho contrasta com áreas mais recentes de produção no Brasil, como Pará e Rondônia, onde a produtividade já se aproxima de uma tonelada por hectare.
Segundo Borges, essa diferença ajuda a explicar por que o eixo da cacauicultura brasileira começou a se deslocar, ainda que de forma gradual.
“Nos últimos anos, vimos uma mudança clara. Regiões que começaram a produzir mais recentemente já surgiram com outro nível de manejo e tecnologia, enquanto áreas tradicionais sofreram por muito tempo com falta de investimento e problemas fitossanitários”, afirma o analista.
Na avaliação da Syngenta, o avanço do cacau para fora da região tradicional não significa o enfraquecimento da Bahia e seu sistema produtivo à sombra, conhecido como cabruca, mas sim uma diversificação dos modelos. Desjardins explica que os desafios mudam conforme o sistema de cultivo.
“A vassoura-de-bruxa continua sendo a principal doença nas áreas mais úmidas, como o sul da Bahia e partes do Pará, com potencial de perdas de até 80%. Essas regiões não vão deixar de existir, porque têm um microclima próprio. O foco ali segue sendo o controle fúngico”, diz o gerente da Syngenta.
Já nas áreas de cultivo a céu aberto, em regiões mais secas, surgem outros desafios. Segundo ele, quando o cultivo deixa o sistema tradicional da cabruca, e passa a ser o “pleno sol”, adensando mais as plantas, quem dá a dor de cabeça ao produtor são plantas daninhas e pragas.
“A pressão deixa de ser majoritariamente de doença e passa a ser de insetos”, afirma Desjardins. Segundo ele, a Syngenta já submeteu pedidos de registro de inseticidas e herbicidas para a cultura do cacau e pretende testar, já na nova safra, três frentes principais do seu portfólio: produtos de biocontrole, bioestimulantes e soluções voltadas à eficiência nutricional das plantas.
“O produto não muda, mas o posicionamento muda conforme o perfil do produtor”. O grande produtor tende a ser mais transacional, enquanto o pequeno é muito mais detalhista no manejo”, acrescentou.
O interesse crescente pelo cacau fora da Bahia não se restringe às empresas de insumos. Grandes grupos agrícolas também passaram a enxergar no fruto uma alternativa estratégica diante da volatilidade de outras commodities.
É o caso da Schmidt Agrícola, uma das maiores produtoras de grãos do Oeste da Bahia. Com investimentos que já somam cerca de R$ 270 milhões, o grupo iniciou o cultivo de cacau em 2018 e hoje aposta no sistema a pleno sol como uma nova frente de negócios.
Em 2022, eram apenas 50 hectares. Atualmente, a área já chegou a 400 hectares, com planos de alcançar 2 mil hectares até 2026. Um dos parceiros na expansão é justamente a Cargill.
Outro exemplo vem do próprio sul da Bahia. À frente da Agrícola Cantagalo, Cláudia Calmon de Sá transformou o grupo em uma referência em cacau fino, investindo em tecnologia, sistemas agroflorestais e mecanização.
Além das áreas tradicionais em cabruca e SAF (sistema agroflorestal), a empresa adquiriu terras no oeste baiano para iniciar, a partir de 2026, o cultivo de cacau a pleno sol, com irrigação por pivô central. “Também queremos fazer parte dessa novidade”, afirmou a empresária em entrevista ao AgFeed no ano passado.
Há ainda iniciativas menores, mas igualmente simbólicas, como projetos no Pará que integram o cacau à rotação com a pecuária, financiados por fundos ligados à JBS, e programas estaduais, como o Cacau SP, que busca estimular o cultivo do fruto em São Paulo, associando produção, chocolate artesanal e turismo rural.
Do ponto de vista de mercado, o momento é visto como decisivo. Segundo a StoneX, os preços elevados do cacau desde 2023 estimularam investimentos em novas áreas e em manejo, o que deve começar a se refletir em um aumento gradual da oferta global a partir da safra 2025/26.
“A África ainda responde por cerca de 70% da produção mundial, mas enfrenta problemas estruturais, como pomares envelhecidos e doenças, e Costa do Marfim e Gana não devem voltar tão cedo aos níveis de produção anteriores a 2023”, afirma Borges.
Ao mesmo tempo, países como Equador, Brasil, Peru e Indonésia tendem a ganhar espaço. A StoneX estima que o Brasil pode superar 215 mil toneladas de produção já na safra 2025/2026, impulsionado justamente pelas novas fronteiras agrícolas.
Apesar disso, Borges alerta para os riscos do avanço acelerado, especialmente em modelos altamente intensivos. “O cacau é uma cultura perene. Quando você investe em clones em larga escala e em pleno sol, aumenta a produtividade, mas também se expõe a outros riscos. E, como a planta leva pelo menos três anos para produzir de forma consistente, existe o risco de perder o timing do preço”.
Na leitura da consultoria, o mercado global caminha para um processo de reequilíbrio. A expectativa é de safras mais cheias nos próximos anos, acompanhadas de uma recomposição gradual dos estoques, o que tende a pressionar os preços no médio prazo.
A StoneX projeta um mercado global de cacau com superávit de cerca de 287 mil toneladas na safra 2025/2026, seguido por outro excedente de 267 mil toneladas em 2026/2027.
No Brasil, a consultoria espera uma produção nacional de 215 mil toneladas já na safra 2025/2026, avanço impulsionado principalmente pelas novas fronteiras agrícolas.
Esse crescimento ocorre em um cenário em que países como o Equador devem ultrapassar 650 mil toneladas de produção em 2026/2027, enquanto grandes produtores africanos seguem abaixo dos níveis históricos: a Costa do Marfim em torno de 1,8 milhão de toneladas e Gana perto de 630 mil toneladas.
Ainda assim, o cenário segue mais atrativo do que a média histórica, sustentando o interesse por novos investimentos.
Para a Syngenta, esse movimento representa uma oportunidade rara. “O Brasil tem uma chance ímpar no cacau”, afirma Desjardins. “Se conseguirmos elevar o nível tecnológico, melhorar produtividade e adaptar os sistemas de cultivo, o País pode se tornar um fornecedor relevante para o mercado global, complementando a oferta africana”.
Resumo
- Cacau avança para fora do sul da Bahia, ganha espaço no Norte e no Cerrado e passa a atrair grandes grupos agrícolas com modelos mais intensivos e produtivos
- Syngenta e Cargill firmam parceria para desenvolver soluções de manejo no Brasil, mirando ganhos de produtividade, controle fitossanitário e adaptação do cacau a diferentes sistemas de cultivo
- No cenário global, a oferta africana segue pressionada por doenças e pomares envelhecidos, abrindo espaço para países como Brasil, Equador e Peru