O cacau nunca foi manchete. Era uma commodity agrícola discreta, previsível, quase invisível fora da indústria do chocolate. Até deixar de ser.

Entre 2023 e 2024, o preço disparou na bolsa de Nova York, negociado na Intercontinental Exchange (ICE). Saiu da faixa de US$ 2.800 para mais de US$ 12.000 por tonelada, com picos de negócios ainda acima disso.

Não foi capricho do mercado. Foi choque de oferta, clima extremo, lavouras envelhecidas, doenças e estoques globais comprimidos. O mercado sentiu pela primeira vez o efeito de não se dar o devido valor a produção primária. Faltou produto. O preço reagiu.

O mercado financeiro ampliou o movimento. Com pouca liquidez e muita incerteza, cada notícia negativa virou combustível especulativo.

O cacau não subiu só porque faltava grão. Subiu porque o mundo passou a temer que ele pudesse faltar por mais tempo. Quando o medo entra na equação, os preços deixam de refletir apenas o presente e passam a precificar cenários extremos.

Depois veio a correção. Safras um pouco melhores e retração da moagem aliviaram a pressão. Os preços caíram, mas não voltaram ao passado.

O mercado aprendeu uma lição: o cacau é mais escasso e mais vulnerável ao clima do que se imaginava. A volatilidade não foi um acidente; é parte do novo ambiente.

É aqui que o debate brasileiro entra — e, como tantas vezes, entra pelo atalho errado.

Parte dos produtores defende elevar o imposto de importação para sustentar o preço interno. O raciocínio é direto: se o valor internacional cai, a concorrência externa pressiona o mercado doméstico. A tarifa vira um escudo.

Esse escudo é velho conhecido da economia brasileira. E quase sempre termina do mesmo jeito.

Para reforçar a tese, parte do setor invoca o argumento sanitário, sugerindo risco de doenças vindas de fora. Mas o País não importa fruto fresco e sim amêndoas secas e derivados processados.

O risco é baixo, sob o efetivo controle do Mapa e não há evidência concreta de que isso represente ameaça relevante às lavouras. O discurso técnico vira verniz para uma pauta essencialmente comercial.

O problema é que o cacau não termina na porteira. Ele entra em moageiras, fábricas de chocolate, exportadores de derivados, supermercados e chega ao consumidor.

Quando se sustenta preço por decreto, encarece-se o insumo de toda a cadeia. A indústria perde competitividade, reduz margens, posterga ou cancela investimentos. O consumidor paga mais. Protege-se um elo enfraquecendo os demais.

E ninguém quer falar dos próprios deveres de casa. Produtores alegam que historicamente não investiram em tecnologia por falta de margem. Nos anos de rentabilidade recorde, porém, a transformação estrutural foi modesta, nossa produtividade é baixa e a profissionalização um sonho.

A indústria mantém relações frágeis de parceria com fornecedores, salvo poucas exceções, longe dos modelos de integração vistos em cadeias como algodão, soja ou cana.

Investem em modelos pilotos, mas falta escala evolutiva enquanto sobram cerealistas e atravessadores. O poder público segue falhando em infraestrutura, logística, políticas que garantam acesso a financiamento competitivo e assistência técnica.

Ainda assim, a solução proposta é a mesma de sempre: tarifa.

A experiência histórica é implacável. Proteção prolongada raramente cria setores fortes. Cria setores dependentes. Reduz o incentivo à eficiência, à inovação e à adaptação. O empresário deixa de competir com o mundo e passa a competir por favores domésticos. Quando a barreira cai — e ela sempre cai — o choque é maior.

Pior: ao encarecer o insumo básico, o País compromete a própria capacidade de competir em produtos de maior valor agregado. Em vez de fortalecer a indústria de derivados e chocolates, empurra-se a cadeia para a estagnação.

No fim, o produtor volta a depender do mercado externo, recebendo justamente os preços que hoje critica. Não há vitória estrutural, só redistribuição de perdas.

Há também o custo político e reputacional. Usar tarifas para sustentar preços internos fragiliza a posição do País em negociações comerciais e reforça a imagem de economia que prefere se fechar a competir. Para quem deseja ser player global relevante, o sinal é contraditório.

O rali do cacau foi real. O choque foi global. Mas a resposta doméstica insiste em ser pequena. Em vez de discutir produtividade, genética, manejo, dados confiáveis, informações críveis (quase uma raridade) crédito acessível, infraestrutura e integração de cadeia, discute-se imposto. É a solução rápida que adia o problema estrutural.

Torçamos para que, em ano eleitoral, o governo resista a essa tentação simplista e, que as partes interessadas voltem à mesa de diálogos. Precisamos construir um modelo profissional e rentável para o setor do cacau no Brasil. Isso se quisermos mesmo ser um player mundial como somos em mais de uma dezena de comodities.

O cacau deixou de ser apenas um ingrediente do chocolate. Virou símbolo de como choques de oferta afetam mercados e se transformam em decisões econômicas, e depois em disputas políticas. O doce continua nas prateleiras. Mas a economia por trás dele está cada vez mais amarga. Precisamos de profissionais competentes.

Marcello Brito é diretor acadêmico na FDC-Agroambiental.