Três anos atrás, em meio ao boom da biotecnologia e auge dos movimentos de proteínas cultivadas, a promessa era produzir gordura suína em laboratório. Hoje, a mesma empresa brasileira quer mexer no chocolate, mas sem utilizar o cacau.
A startup Cellva Ingredients acaba de levantar US$ 4 milhões (cerca de R$ 20 milhões pela cotação atual) em uma rodada pré-Série A que marca uma virada estratégica profunda.
O dinheiro financia a construção de uma planta semi-industrial em Manaus, reforça capital de giro e sustenta uma meta mais ousada do CEO e fundador, Sérgio Pinto: atingir o breakeven ainda em 2026.
A nova unidade dará tração à meta da empresa, de produzir mil toneladas do CoffeeCoa - um pó substituto de cacau feito a partir do fruto do café arábica e que pode ser utilizado na formulação de diversos produtos da indústria alimentícia.
A captação foi liderada pela DigiBoard, do empresário Átila Denys, dono de um dos maiores escritórios de advocacia do Norte do País, que aportou por meio do PPBio (Porgrama Prioritário de Bioeconomia), instituído pela Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus) e de investidores privados, como Air Capital (que já havia investido antes na empresa) e investidores-anjo como Rubens Pereira (vice-presidente da Gerdau que fez carreira na Cargill e BRF).
A captação ilustra um novo momento da Cellva após pivotar o negócio. “Na rodada anterior, teve muito investidor que falou que estava investindo no Sérgio. Os mesmos agora dizem que estão investindo na Cellva", contou ao AgFeed, em entrevista exclusiva dada no escritório da empresa, localizado no Bioma Food Hub - ecossistema de inovação, coworking que reúne marcas e foodtechs em São Paulo.
A frase resume a transição. A empresa que nasceu como biotech de cultivo celular hoje se apresenta como indústria de ingredientes do agro brasileiro. A tecnologia de encapsulamento continua sendo o coração da estratégia. O que mudou foi o produto e o rumo dos negócios.
Em vez de gordura cultivada a partir de células suínas, o foco agora é o CoffeeCoa, um substituto de sólidos de cacau feito a partir do fruto do café arábica, mas não do grão, e sim do que sobra dele. Foi justamente o café que, nas palavras do próprio CEO, “definiu o futuro da empresa”.
Quando a Cellva apareceu pela primeira vez no radar do mercado, em 2023, o discurso era outro. A empresa produzia gordura suína a partir de uma biópsia de cinco gramas retirada de um animal vivo. As células eram armazenadas, alimentadas em biorreatores e, após 21 dias, transformadas em gordura pronta para uso.
Este repórter participou, na época, de uma degustação do produto em restaurante vegano paulistano. Na época, a ideia da Cellva, que produzia o produto na casa das gramas, era atingir uma produção de de 11 mil toneladas até 2030.
A tecnologia funcionava, mas o modelo de negócio, nem tanto.
“Eu vim do mercado de alimentos, estou nesse negócio a vida toda”, diz Sérgio Pinto, que passou por gigantes como PepsiCo e BRF antes de empreender. “O que adianta você ter uma tecnologia onde os principais pilares de negócio não estavam fundamentados?”, questionou.
Longe do buzz, Pinto relata que era difícil conseguir matéria-prima a preços acessíveis, havia lentidão e incerteza no processo regulatorio e, principalmente, uma dificuldade do consumidor entender o produto.
"Quando consumimos alguma coisa de laboratório existe um pressuposto de cura. A nomenclatura também é difícil: gordura de laboratório", prossegue o CEO.
Por detrás das degustações e roadshows do produto, Sérgio Pinto não guardou "todos os ovos na mesma cesta", e já desenvolvia outros ingredientes na companhia, como gordura em pó e DHA encapsulado - e também a ideia de pesquisar sobre os subprodutos do café.
Porém, o insight para pivotar o negócio não veio de um laboratório, mas sim de uma feira. Em um evento em Boston, a "meca da biotecnologia", segundo o executivo, ainda no auge do entusiasmo com proteínas alternativas, ele carregava um folder sobre a empresa que falava de gordura cultivada e, discretamente, mencionava um “substituto de cacau feito a partir de café brasileiro”.
“Ninguém queria falar de gordura. Os caras apontavam [para a parte do substituto de cacau] e perguntavam: ‘o que é isso?", conta. “Eu voltei pro quarto do hotel, peguei uma tesoura e cortei o folder. Fiquei só com o cartãozinho do substituto de cacau". Ali começou a pivotagem.
De volta ao Brasil, a empresa organizou uma degustação com cerca de 70 consumidores. O resultado surpreendeu, e o produto foi preferido ao cacau. "Aí que eu me dei conta que existia algo diferente ali".
O timing não poderia ser melhor: era final de 2024 e o mundo vivia a maior crise de oferta de cacau da história recente. Decidido a mudar o rumo da Cellva, Sérgio convocou seus parceiros, conselhos e investidores.
“Eu cheguei nos investidores e falei: se a gente for pra lá, a gente vai bater na parede. E eu não sou piloto de carro que sabe que vai bater na parede. Eu posso até bater um carro na parede, mas eu não sou suicida", disse, ao propor o abandono da gordura cultivada e aposta no novo ingrediente.
Os investidores toparam. Nesse ínterim, a antiga sócia-fundadora que atuava como CSO, Bibiana Matte, deixou a empresa - a especialidade dela era a parte da gordura cultivada.
"A gente tinha produto, tecnologia, supply, comprovação de interesse de cliente e momento". Em uma nova feira, a edição de 2025 da Future Food Tech, essa em São Francisco, nos Estados Unidos, Pinto chegou com alguns quilos de chocolate produzidos para degustações e percebeu que o interesse dos participantes continuava forte.
Em meio à desconfiança de uns e um burburinho no evento acerca de uma "empresa brasileira que faz chocolate a partir de café", ele saiu de lá com 650 toneladas em carta de interesse de compra. A tecnologia, o produto, o consumidor estavam confirmados, só faltava o suprimento.
"Compro sua casca de café"
A partir dali, a Cellva deixou de ser apenas uma biotech e virou, nas palavras do próprio fundador, “uma empresa que transpira o barro”. O grão de café - o ativo nobre exportado pelo Brasil - representa apenas parte do fruto. Cerca de 50% do volume colhido vira resíduo: polpa, casca, película, exocarpo. Em geral, é descartado, fermenta ou volta como adubo.
Sérgio começou a bater de porta em porta no interior de São Paulo e Minas Gerais, áreas de produção do café arábica. “Eu comecei a visitar produtores, fazendas e falar: ‘compro sua casca de café", contou. Hoje, ou esse produtor reutiliza o subproduto como fertilizante ou vende para empresas que fazem o mesmo.
A proposta da Cellva gerava liquidez imediata para algo sem muito valor de mercado. Ele não revela o quanto paga por quilo do produto, mas cita que alguns produtores recebem cerca de R$ 3 mil vendendo cascas de café. "Ele paga a escola do filho com isso".
Hoje, a empresa trabalha com cerca de 20 produtores que somam entre 300 mil e 400 mil sacas de café de produção. Sem dar detalhes, Pinto citou que está para fechar uma parceria que dará a Cellva o acesso direto a 10 mil cafeicultores.
O processo industrial começa na colheita. Enquanto o grão segue para torrefação, o fruto é despolpado. A casca é coletada antes de tocar o chão, passa por um processo térmico para interromper a fermentação, vira extrato vegetal concentrado e, por fim, é transformada em pó por meio da tecnologia proprietária de encapsulamento.
“Se lá atrás eu usava encapsulamento para transformar gordura em pó, hoje eu uso encapsulamento para transformar extrato vegetal em pó”, explica.
O resultado é um ingrediente natural capaz de substituir sólidos de cacau em formulações de bolos, brownies, biscoitos, sorvetes e bebidas. “Onde houver chocolate, pode haver CoffeeCoa”, disse o CEO.
A transformação também aparece nos números. Em 2023, já dando os primeiros passos com esse produto, o que era degustado era praticamente o que era produzido e em 2024, a empresa processou cerca de 30 quilos. Em 2025, avançou para 30 toneladas.
“Na degustação da gordura suína em 2023, aquilo que você comeu foi o que a gente produziu. Esse ano, a gente vai pra casa de mil toneladas com o CoffeeCoa", disse Sérgio Pinto.
A planta semi-industrial em Manaus terá capacidade inicial de cinco toneladas por mês e concentrará P&D e validação industrial. São Paulo ficará com a frente comercial e parcerias fabris, que concentram grande parte da produção.
A rodada de R$ 20 milhões sucede uma captação anterior de R$ 8,5 milhões feita em agosto de 2024 e liderada pelo Fundepar, com participação de fundos de investimentos como Proveg, Rumbo Ventures, AirCapital (que investiu de novo na nova rodada) e EA Angels.
Para além do caixa reforçado, a empresa ainda montou um novo conselho. Os advisors contemplam nomes como Rubens Pereira e Átila Denys, que participaram da rodada, Estevan Sartorelli (cofundador da Dengo), Marcel Sacco (ex-vice-presidente da BRF e ex-diretor da Hershey’s no Brasil) e André Menezes (brasileiro que fundou a Tindle, empresa que atua no mercado plant based).
A meta é usar o capital para consolidar escala, estruturar a cadeia e atingir o ponto de equilíbrio ainda este ano. “Hoje a gente tem certeza que tem o supply correto, a tecnologia correta aplicada no produto correto, para um produto que o consumidor quer comer", disse Sérgio Pinto.
Menos “biotech”, mais agro
Sérgio diz que não gosta mais de se definir como empresa de biotecnologia. “Eu me vejo como empresa de agro. A gente usa tecnologia de biotecnologia. Mas o que a gente faz é muito melhor do que isso".
A guinada não é apenas retórica. A empresa já testa aplicações a partir de resíduos de açaí, abundantes na região Norte, e de subprodutos do próprio cacau.
O plano é replicar o modelo: subproduto agrícola, extração, encapsulamento para formar um ingrediente de alto valor agregado.
No curto prazo, porém, o foco é conquistar o mercado brasileiro via B2B. A estratégia privilegia “heróis nacionais”: empresas locais com ciclos de decisão mais rápidos que multinacionais globais. "Empresas de alimento, de bebidas ou até mesmo de suplementos podem trabalhar com o nosso ingrediente".
Ainda não há produto na prateleira. A empresa aguarda a nova colheita de café para formar estoque de segurança antes de contratos maiores. A projeção é que até o final do ano algum cliente já esteja com produto feito à base do CoffeeCoa no varejo.
Nas últimas semanas, a empresa fez remessas de amostras do produto para destinos diversos: Minas Gerais, Manaus, Santos e países como Japão, Suíça e Itália.
O CEO conta que ainda não conseguiu fazer o que chama de "estoque de segurança", mas vai aproveitar a safra de café deste ano para tal. Hoje ele cita ter "algumas toneladas" do ingrediente que estão sendo usados em testes nessas indústrias.
"Na produção de alimentos em larga escala industrial, algumas toneladas não são nada. Estamos num processo de fechar contratos comerciais, e para a produção futura, faremos essa colheita neste ano", disse.
Sérgio Pinto se mostra mais otimista com a empresa hoje do que há anos atrás, e chegou a dizer que 2026 é o primeiro ano que começa sem o "medo de que a empresa pode acabar no dia seguinte".
"Hoje a gente tem certeza que temos o supply correto, a tecnologia correta e aplicada no produto correto para um produto que o consumidor quer comer. Infelizmente, os leitores do AgFeed não vão poder comer ainda, mas a partir de meio ano já poderão", disse.
Este repórter provou duas barras de chocolates feitos à base do CoffeeCoa durante a entrevista. Além do pó extraído do café, a composição de um deles (feita 100% com o CoffeeCoa) ainda leva manteiga de cacau, leite em pó e açúcar demerara. Outra versão, emulando um chocolate meio amargo, leva nibs de cacau e 60% de CoffeeCoa.
O sabor é marcante, intenso e a textura derrete na boca, no estilo de um chocolate premium artesanal encontrado em micro-chocolaterias de pequenos empreendedores. Não há resíduo algum do gosto de café. Se eu não soubesse se tratar do produto em questão, não diria que se tratava de um produto sem o cacau propriamente dito em sua composição.
Segundo Pinto, a ideia é fazer um produto popular, que compense não pelo aspecto financeiro e pela ampla disponibilidade, mas sim por trazer uma performance igual ou até superior ao que um pó de cacau tradicional traz. "Eu falo que o Brasil não precisa mais de fintechs. Nós precisamos de empresas de alma verde", finalizou o CEO.
Resumo
- A Cellva Ingredients captou US$ 4 milhões e pivotou o negócio, abandonando a gordura suína cultivada para apostar no CoffeeCoa, ingrediente feito a partir da casca do café arábica como alternativa ao cacau
- A nova planta semi-industrial em Manaus deve sustentar a meta de produzir até mil toneladas em 2026 e levar a empresa ao breakeven, após saltar de 30 quilos processados em 2024 para 30 toneladas em 2025
- Com modelo baseado na compra de subprodutos do café de produtores brasileiros, a startup se reposiciona como indústria de ingredientes do agro e mira contratos B2B no Brasil e no exterior, em meio à crise global de oferta de cacau