Na pequena Suíça, com apenas 41 mil quilômetros quadrados de área – o equivalente à superfície do Estado do Espírito Santo e boa parte dela montanhosa –, cada centímetro agricultável é importante.
Por isso, o mesmo apreço pela precisão, que o país alpino tornou como uma de suas marcas registradas em áreas como a relojoaria e a robótica cirúrgica, tem se transformado em artigo de exportação quando o assunto é a tecnologia aplicada na produção de alimentos.
Que o diga a agtech Ecorobotis, fundada em Yverdon-les-Bains, na região francófona da Suíça. Em março passado, a companhia comemorou dois marcos. Um deles, a venda da milésima unidade do pulverizador ARA, hoje operando em cerca de 30 países, de hortas europeias a fazendas nos EUA e Austrália.
O segundo é o desembarque em um dos mercados que considera mais promissores para os próximos anos. Desde 2 de março a agtech se estabeleceu oficialmente no Brasil, com um time comercial focado em introduzir no País o equipamento que utiliza sensores e câmeras para fazer, segundo o a empresa promete, aplicações de “pulverização de ultraprecisão”.
Como o nome sugere, a Ecorobotics surgiu com a proposta de desenvolver robôs agrícolas autônomos, que operassem sem interação humana nas lavouras. Mas dificuldades técnicas e de segurança levaram a companhia a mudar de rota no início desta década.
Em 2021, a agtech decidiu embarcar toda sua visão de precisão em um implemento a ser acoplado, como outros pulverizadores, em um trator.
O diferencial da Ecorobotics estaria justamente na tecnologia que chama de “Plant by Plant”, que se propõe a tratar cada planta individualmente, diferenciando as culturas das plantas daninhas e restringindo a área tratada.
O ARA usa flahes de luzes e câmeras RGB e 3D, combinadas a sistemas de Inteligência Artificial para identificar cultivos e daninhas pela cor e arquitetura. Os bicos aplicadores, uma vez acionados, limitam a área pulverizada por cada jato a um quadrado de 6x6 centímetros ("pixel-level").
"Ele faz reconhecimento não só do verde, mas com a arquitetura da planta também", explica Samyra Baldassin, gerente de marketing e comunicação da Ecorobotis no Brasil.
“Com isso, nosso algoritmo consegue formar uma espécie de zona de segurança, evitando que os herbicidas, inclusive não seletivos, entrem em contato coma lavoura instalada”. O próprio agricultor pode configurar, em um aplicativo no tablet fornecido com o equipamento, a área que deseja deixar protegida.
O software da companhia é capaz de reconhecer os cultivos em plantas com tamanhos a partir de 2 centímetros. No caso das daninhas, essa identificação se dá a partir de 2 milímetros.
Os dois tanques do pulverizador têm capacidade para 600 litros (o de água) e 300 litros (para os produtos usados nas aplicações).
Para o melhor funcionamento do sistema, que depende de boa iluminação das plantas para sua identificação, a Ecorobotics “encaixotou” o sistema de aplicação. Com isso, cria um ambiente escuro, onde os flashes atuam com mais eficiência em qualquer momento do dia ou da note.
E, por ser fechado, com uma espécie de saia na parte interior, evita quase que totalmente a deriva dos defensivos, reduzindo custos em até 95%, segundo a companhia, e contaminação ambiental no entorno.
É com esses diferenciais que a Ecorobotics tenta abrir espaço no mercado de pulverização de precisão, hoje já com competidores relevantes, como a tecnologia holandesa Weed-It ou a See & Spray, da americana John Deere.
“O principal benefício que a gente vem trazendo aqui é poder aplicar herbicidas não seletivos, mesmo com a cultura instalada”, diz Samyra Baldassini a respeito da concorrência.
Desenvolvido na Suíça, o ARA atendeu, como público inicial, os horticultores europeus – e é esse o primeiro foco da empresa também no Brasil.
A executiva diz acreditar que, embora boa parte da produção de hortifrutis hoje no País esteja nas mãos de agricultores familiares, já existe um contingente de produtores um pouco mais estruturados e tecnificados, capazes de investir em um equipamento como o esse.
Segundo a empresa, o pulverizador ARA terá um custo estimado em R$ 1 milhão (o equivalente a 200 mil euros). Ela destaca que o equipamento pode ser utilizado no manejo de hortaliças para aplicação de herbicidas - inclusive não seletivos - fungicidas, fertilizantes e bioestimulantes.
E observa que, em um futuro breve, a empresa quer estar disputando mercado com as outras tecnologias também em grandes lavouras de soja, milho e algodão, por exemplo.
Há alguns desafios nessa direção, como o tamanho da barra de pulverização e a velocidade em que é feita a aplicação. O padrão do equipamento é de 6 metros de barra, com aplicação a 7,2 quilômetros por hora.
“A gente já vem trabalhando algoritmos para os grandes cultivos. Pensando na velocidade que a gente tem e o tamanho da barra, no Brasil a gente não consegue atender com esse tipo de maquinário”, afirma Samyra.
“Estamos trabalhando também no desenvolvimento de barras maiores, de 24 metros, para cobrir uma maior área. Quando a gente fala em velocidade, é um pouco mais complicado, porque se a gente quer ser ultrapreciso, quanto mais rápido a gente vai, menos preciso a gente acaba sendo”.
Os primeiros equipamentos da Ecorobotics devem desembarcar no Brasil a partir de setembro próximo, segundo a expectativa da empresa. As vendas serão feitas através de distribuidores, cujos contratos ainda estão em fase de formalização.
Presença global
Depois do início na Europa, a Ecorobotics avançou, a partir de 2002, para os Estados Unidos e, posteriormente, Canadá e Austrália. Em 2023, chegou a fazer uma incursão pela Argentina, mas não chegou a montar uma operação comercial no país.
Hoje presente em 30 países, afirma já ter seus pulverizadores operando em 138 mil hectares.
A presença global se dá também no quadro de investidores da agtech. Em 2023, a empresa levantou US$ 52 milhões, em uma rodada liderada pela AQTON Private Equity e pela Cibus Capital, com foco na expansão global e desenvolvimento de produto.
Entre 2024 e 2025, novas rodadas (séries C e D) captou mais US$ 150 milhões (Series C e Series D), com recursos destinados à aceleração da inovação e à consolidação internacional. As gestoras Highland Europe, ECBF e McWin Capital Partners foram as líderes.
O captable da agtech conta também com aportes de gigantes do agro como Basf e Yara, através de suas estruturas de corporate venture capital (CVC), entre outros nomes.
Para este ano, além da chegada ao Brasil, sua outra aposta é o lançamento de um novo produto, o Alba, voltado especificamente para o mercado de tratamento de gramados de campos de golfe – um segmento milionário nos Estados Unidos e na Europa.
Resumo
- Agtech suíça Ecorobotix entra no Brasil com pulverizador ARA de ultraprecisão
- Tecnologia “plant by plant” usa IA, sensores e câmeras para reduzir até 95% o uso de defensivos
- Foco inicial da empres é em produtores de hortifrúti, com planos de expandir para soja, milho e algodão nos próximos anos