Na Culttivo, fintech especializada em crédito para cafeicultores, a inteligência artificial começou a mudar não só a velocidade das análises de crédito, mas também a forma como a empresa enxerga o próprio negócio nos próximos anos.
Conhecida por estruturar crédito digital para produtores de café, vertical que somou R$ 300 milhões concedidos a cafeicultores em 2025, a empresa passou a usar - como nunca - agentes de IA para automatizar etapas operacionais que antes exigiam análise manual de documentos e validações internas.
Segundo contou ao AgFeed um dos sócios da empresa, Gabriel Santos, o movimento abriu espaço para redução de custos, ganho de escala e aceleração de novos produtos financeiros além do crédito rural.
A primeira frente automatizada foi a análise de documentos usados na concessão de crédito, como matrículas de imóveis rurais, contratos de arrendamento e declarações de imposto de renda. No primeiro, o agente reduziu de 40 minutos para apenas alguns segundos a análise.
A mudança começou a impactar diretamente a estrutura operacional da companhia. De acordo com a Culttivo, a folha do time de operações, que representou em média 18% da receita em 2025, caiu para 11% nos primeiros meses deste ano. A projeção interna é chegar abaixo de 5% até o fim da década.
“Essa é a primeira vez que vamos conseguir diminuir time mesmo crescendo operação”, afirmou Gabriel Santos.
Segundo ele, os ganhos de produtividade permitiram acelerar o cronograma da empresa para a criação de novos produtos no negócio.
Na visão do sócio, a IA está permitindo que a Culttivo avance de uma operação focada em crédito para uma plataforma financeira mais ampla voltada ao mercado de café.
Nos primeiros meses de 2026, a empresa lançou uma conta digital, consórcio com parcelas anuais e lance financiado, seguros agrícolas e derivativos para proteção contra queda dos preços do café, além de operações de câmbio para produtores exportadores. Todos são feitos com alguma empresa parceira.
“No nosso planejamento estratégico, esses produtos seriam implementados só no segundo semestre. Em março, já estavam todos de pé", disse Santos.
Ele conta que todas as novas frentes já começaram a gerar receita, embora em ritmos diferentes. Os produtos mais maduros até agora são conta digital, consórcio e câmbio, enquanto seguros ainda estão em estágio inicial de adoção.
Na vertical de seguros, Santos conta que a Culttivo passou a usar os polígonos geográficos das lavouras para construir "gêmeos virtuais” das áreas financiadas e, a partir disso, simular eventos climáticos passados e desenhar coberturas mais específicas para cada propriedade.
“Um cafeicultor não precisa de um seguro de seca para o ano inteiro. A ideia é afinar a cobertura para os momentos em que a lavoura realmente tem aquele risco”, disse Santos.
Já nos derivativos, a ideia é trazer proteção contra quedas no preço do café, usando estruturas semelhantes a opções de venda. Segundo o executivo, o objetivo é adaptar instrumentos mais comuns no mercado financeiro para produtores médios, sem exigir entrega física do café.
"Essa parte de 'seguro de preços' pode ser comum na Faria Lima ou nos grandes produtores de cereais, mas não é algo que chega no cafeicultor médio, que é nosso cliente. Eles gostam muito de não precisar entregar o café físico", disse.
"O mercado de café ainda veio de altas consecutivas e alguns produtores ficaram com um 'gosto amargo' de travar uma boa venda mas que poderia ter sido melhor. Levamos essa opção que funciona como um seguro para ele", completou.
A Culttivo ficou conhecida nos últimos anos por estruturar crédito digital para cafeicultores usando modelos próprios de análise baseados em imagens de satélite, algoritmos de produtividade e dados agronômicos.
Essa esteira de crédito também deverá ser turbinada com o uso de IA. A ideia aqui é criar um modelo preditivo de crédito, cruzando as informações do produtor, dados externos, clima e informações da lavoura, para gerar taxas personalizadas de forma mais automatizada.
Depois de conceder os R$ 300 milhões no ano passado, a projeção para esse ano é alcançar R$ 500 milhões concedidos a cafeicultores, espalhados em cinco regiões que a empresa atua: Mogiana, Sul de Minas, Espírito Santo (onde recentemente passou a atuar também com café conilon), Matas de Minas e Cerrado Mineiro.
A empresa encerrou 2025 com um faturamento de R$ 60 milhões, dobrando o montante de 2024. A meta para 2026 é dobrar novamente.
No começo do ano, a empresa recebeu aporte da Yield Lab Latam e revelou ao AgFeed planos de captar cerca de R$ 30 milhões antes de uma futura série A estimada em R$ 100 milhões.
Até agora, a empresa já somou mais de R$ 7 milhões em aportes recebidos por investidores. Na rodada seed, liderada pela KPTL e com participação da trading Eisa, levantou R$ 6,2 milhões. Posteriormente, estendeu a captação com mais R$ 1 milhão com outros investidores, incluindo Raphael Covre, empresário que vendeu a Casa do Adubo à Nutrien.
A leitura da fintech é que existe espaço para replicar no café uma lógica semelhante à observada em bancos digitais: aumentar o relacionamento com o cliente a partir de eficiência operacional e oferta integrada de produtos.
Parte dessa estratégia passa pela conta digital lançada neste ano. Segundo Santos, que cita que a Culttivo quer ser o "Nubank do agro" - em especial do café -, mais de 90% dos desembolsos históricos da empresa já aconteciam por contas vinculadas a cooperativas financeiras como o Sicoob e bancos tradicionais como Banco do Brasil com forte presença regional no setor.
“Percebemos que os produtores valorizam proximidade e multiproduto. A conta digital entra muito como parte do nosso processo e da fidelização da base”, afirmou.
A expectativa da fintech é que, até o fim deste ano, a conta digital esteja presente em praticamente 100% da base de clientes. Já para os demais produtos financeiros, a meta é que, até 2027, metade dos produtores utilize mais de uma solução além do crédito.
Resumo
- Culttivo usa IA para automatizar operações e acelerar expansão além do crédito rural
- Tecnologia acelerou lançamento de conta digital, seguros e derivativos para cafeicultores antes do previsto estratégico
- Fintech projeta conceder R$ 500 milhões em crédito em 2026 e quer virar o “Nubank do agro” no café