Na missão de expandir sua tese de "marketplace e one-stop-shop da pecuária" e desafiando o momento escasso de captação nas startups do agro, a erural acaba de captar R$ 5 milhões com a gestora Lighthouse.

O aporte, revelado em primeira mão ao AgFeed, terá seus recursos direcionados para ampliar os investimentos em tecnologia, inteligência artificial, crédito e logística da companhia fundada pelo baiano Matheus Ladeia há quase 10 anos.

O investimento marca uma nova etapa na trajetória da empresa, que nos últimos dois anos passou por uma transformação em seu modelo de negócio.

Depois de mais de uma década funcionando principalmente como uma solução complementar para leilões tradicionais de gado, a companhia decidiu abandonar esse formato e concentrar todas as transações dentro de sua própria plataforma, assumindo o papel de marketplace da pecuária.

A mudança exigiu uma reestruturação relevante. Segundo Matheus Ladeia, a empresa abriu mão de uma parcela importante da receita no curto prazo para construir uma infraestrutura própria de transação.

“Em 2024 tomamos uma decisão importante. Deixamos de atuar como um plug-in dos leilões tradicionais e passamos a concentrar 100% das transações dentro da erural. Foi um movimento que reduziu nossa receita naquele momento, mas permitiu construir um negócio muito mais escalável”, afirmou.

A estratégia parece ter começado a dar resultado. A empresa encerrou 2024 com faturamento duas vezes superior ao registrado em 2023. Em 2025, repetiu o crescimento e, para este ano, projeta uma receita 2,5 vezes maior que a do ano passado.

Segundo Ladeia, apenas nos primeiros meses de 2026 a companhia já alcançou um faturamento equivalente ao registrado durante todo o ano de 2024, período que marcou a transição.

"Agora com a visão clara, tese comprovada e consolidada, captamos para acelerar o crescimento da companhia. Não é mais uma captação com objetivo de amadurecer a tese de negócio", disse.

Ao longo de sua trajetória, a erural já movimentou cerca de R$ 300 milhões em negócios envolvendo animais. Apenas em 2026, esse volume já supera R$ 100 milhões.

A captação ainda reforça uma relação construída ao longo dos últimos anos entre a startup e a Lighthouse. A gestora acompanha a companhia desde os estágios iniciais e vê a erural como uma das principais apostas para digitalizar um mercado ainda marcado por informalidade, fragmentação e baixa adoção tecnológica.

Para Alexandre Darzé, sócio-diretor da Lighthouse, a empresa passou os últimos anos resolvendo um dos principais desafios enfrentados por marketplaces: construir confiança suficiente para concentrar toda a jornada do cliente dentro de uma única plataforma.

“A tese de marketplace é difícil porque exige relevância dos dois lados da operação. Você precisa convencer quem vende e quem compra. O que vemos hoje é que a erural conseguiu construir os elementos necessários para isso. Ela reúne a parte comercial, jurídica, financeira e logística em uma única operação”, afirmou.

Hoje, a plataforma é especializada na comercialização de animais de genética bovina de corte, especialmente exemplares chamados de Puro de Origem (PO), que possuem registro genealógico e são utilizados para reprodução.

Segundo a empresa, aproximadamente 4% de todas as transações de genética bovina de corte realizadas no Brasil já passam pela plataforma.

O modelo de negócios atual envolve ainda a criação de novos serviços ao redor da transação - que serão ainda mais otimizados com o novo recurso.

Nos últimos anos, a empresa lançou o eruralpay, braço financeiro responsável pela gestão de pagamentos e crédito, além do eruralway, operação logística voltada ao transporte dos animais comercializados na plataforma.

Mais recentemente, a companhia passou a expandir o chamado modelo Full, no qual assume praticamente toda a operação de venda para o produtor.

Nesse formato, a erural coleta informações do rebanho, realiza a divulgação dos animais, intermedeia a negociação, processa os pagamentos e organiza a entrega.

O modelo "one-stop-shop" representava cerca de 15% das transações realizadas pela empresa em 2025. Neste ano, já responde por aproximadamente 60% dos negócios.

“Recebemos relatos de produtores dizendo que simplesmente entregam a chave da fazenda para a erural cuidar de toda a operação comercial. Isso mostra que estamos deixando de ser apenas um canal de venda para nos tornarmos uma infraestrutura de mercado”, afirmou Ladeia.

A ampliação da atuação também abriu espaço para novas frentes de monetização. Um dos focos da companhia é justamente o mercado de crédito, considerado um dos maiores gargalos da genética bovina.

Diferentemente de outros segmentos do agronegócio, as vendas de touros e matrizes de reprodução costumam ser parceladas em prazos longos, muitas vezes superiores a 30 meses. Segundo a empresa, o valor médio de um animal comercializado atualmente é de R$ 17,6 mil.

Historicamente, cabia ao próprio vendedor emitir boletos, acompanhar pagamentos, cobrar inadimplentes e administrar o fluxo financeiro da operação.

Com o erural Pay, a startup passou a centralizar esse processo e, posteriormente, começou a oferecer antecipação de recebíveis para os vendedores. Até o momento, a plataforma já processou aproximadamente R$ 142 milhões em operações financeiras.

Os produtos ainda funcionam de forma separada. Ladeia cita que existem casos em que um produtor faz uma venda e destina todo o fluxo de pagamento e recebimento à plataforma da empresa, mesmo sem ter feito a compra por lá inicialmente. A mesma lógica se aplica à logística.

A partir dessa relação mais próxima com os fluxos financeiros da cadeia, a empresa começou a estruturar operações de crédito. Em um modelo já utilizado pela plataforma, produtores podem antecipar até 40% do valor de uma venda futura, enquanto os 60% restantes da carteira funcionam como garantia da operação.

Na prática, um pecuarista que comercializa R$ 1 milhão em animais parcelados pode receber antecipadamente parte desses recursos para financiar a própria atividade, seja na compra de ração, reposição de matrizes ou preparação de novos lotes para venda.

Esse funding hoje é feito com fundos parceiros, mas a ideia é também internalizar esses recursos com um fundo próprio no futuro.

“Hoje temos uma visão muito detalhada sobre o comportamento de pagamento dos produtores. Isso cria oportunidades para desenvolver produtos financeiros muito mais eficientes para o setor”, afirmou Darzé, da Lighthouse.

Segundo Ladeia, CEO da startup, a erural pretende utilizar inteligência artificial para aprimorar modelos de análise de risco, automação comercial e concessão de crédito.

A tecnologia também deve ser utilizada para melhorar a experiência dos usuários na escolha dos animais.

Em um mercado onde milhares de touros e matrizes são ofertados simultaneamente, a empresa quer usar inteligência artificial para aproximar compradores dos animais mais adequados ao perfil produtivo de cada fazenda.

“Existe uma enorme quantidade de informação genética disponível, mas nem sempre ela é fácil de interpretar. O objetivo é transformar esses dados em recomendações mais precisas para o produtor”, afirmou.

Antes do cheque atual, a erural levantou em 2023 uma rodada de R$ 10 milhões liderada pela SP Ventures, com participação da DOMO Invest, Prana Capital e da família Cunha Guedes.

Para além de desenvolver a plataforma com serviços que se complementam, a ambição da startup vai além do mercado de genética bovina de corte, segmento que atualmente concentra 100% das operações.

No longo prazo, a empresa pretende se tornar uma plataforma mais ampla para a pecuária, incorporando categorias como genética leiteira, animais destinados à cria, recria e engorda, além de produtos, insumos, serviços e soluções financeiras.

“Estamos construindo uma infraestrutura para a pecuária. A transação do animal é apenas o ponto de partida”, concluiu Ladeia.

Resumo

  • erural capta R$ 5 milhões com a Lighthouse para acelerar expansão de marketplace
  • Startup já movimentou R$ 300 milhões em negócios e deve superar R$ 100 milhões só em 2026
  • Modelo "one-stop-shop" já responde por 60% das transações e avança em crédito e logística