Piracicaba (SP) - Assim como nas edições anteriores, um dos espaços mais disputados do Rural Summit voltou a ser o Agrimatching, competição promovida pela Rural que conecta startups do agro a investidores, corporações e potenciais parceiros comerciais.

Com os pitches realizados um dia antes da abertura principal do evento, o programa reuniu neste ano 45 startups finalistas, selecionadas entre 90 inscritas, divididas em três estágios de maturação: pré-seed, seed e Série A.

As apresentações aconteceram diante de cerca de 30 profissionais que incluem investidores, executivos e representantes de grandes empresas do setor, em uma dinâmica que mistura competição, rodada de negócios e vitrine para o ecossistema de inovação do agro.

Além da visibilidade, as vencedoras receberam benefícios como US$ 150 mil em créditos da Microsoft, participação em eventos do setor e acesso a redes de relacionamento e potenciais parceiros comerciais.

“O que a gente pode prover para eles que pode gerar negócio é esse acesso. Vamos abrir a porta para terem acesso a locais que não teriam usualmente”, afirmou Fernando Rodrigues, CEO da Rural. As vencedoras desta edição foram, respectivamente por estágio, a Herdian, Cadoma e a Umgrauemeio. No ano passado, venceram a Guarda, a Certificafé e a BemAgro.

Os vencedores do Agrimatching 2026 também refletem um dos temas mais recorrentes do Rural Summit deste ano: o avanço do uso de dados, monitoramento e inteligência artificial no agro.

Apesar de atuarem em segmentos bastante diferentes - suinocultura, piscicultura e combate a incêndios - as três startups têm em comum o uso intensivo de sensores, visão computacional, conectividade e análise de dados em tempo real para apoiar decisões operacionais e reduzir riscos.

O tema, inclusive, ganhou espaço em diferentes painéis do evento, especialmente nas discussões sobre crédito rural baseado em dados e monitoramento individualizado das operações agrícolas.

Campeã da categoria pré-seed, a Herdian desenvolveu uma plataforma de pecuária de precisão voltada, inicialmente, para a suinocultura.

A startup utiliza inteligência artificial, visão computacional e sensores para monitorar em tempo real o comportamento das matrizes e leitões dentro das granjas.

Na prática, câmeras instaladas sobre as baias acompanham os movimentos dos animais e identificam situações de risco, como possibilidade de esmagamento de leitões pelas fêmeas durante o parto e os primeiros dias de vida.

A empresa também atua no monitoramento sanitário contínuo dos lotes e recentemente expandiu a solução para silos de ração, automatizando o controle de insumos nas granjas.

Segundo a startup, uma operação com mil matrizes e cerca de 33 mil leitões anuais conseguiu reduzir perdas relacionadas à mortalidade pré-desmame de 13% para cerca de 3% após a adoção da tecnologia.

O modelo de negócio combina venda da estrutura de câmeras e processamento com uma mensalidade baseada em alertas, relatórios de sanidade e monitoramento contínuo.

De acordo com o sócio e diretor comercial e de marketing, Eduardo Dapper, a startup projeta faturar R$ 250 mil em 2026 e pretende focar inicialmente em produtores independentes de maior porte antes de avançar para integradoras, responsáveis pela maior parte da produção brasileira de suínos.

Na categoria seed, a vencedora foi a Cadoma, startup fundada em 2018 e que atua no que os próprios fundadores chamam de aquicultura 4.0. Na prática, a empresa desenvolveu uma estrutura automatizada para alimentação de peixes em tanques.

O sistema utiliza câmeras conectadas, visão computacional e algoritmos próprios para detectar o comportamento dos peixes e identificar o melhor momento para liberar ração nos tanques.

Segundo a startup, o modelo consegue ajustar automaticamente a dosagem em caso de sobra de alimento ou situações de estresse alimentar, reduzindo desperdícios e aumentando eficiência.

Toda a estrutura funciona com energia solar, possui visão noturna e pode operar mesmo sem conexão constante à internet. Hoje, a agtech estima que a base ativa de clientes representa cerca de 5% do mercado brasileiro de piscicultura.

A Cadoma estima faturar R$ 1,2 milhão neste ano, um forte avanço frente aos R$ 549 mil de receita obtida em 2025. A expectativa é alcançar R$ 3,4 milhões em 2027 e superar R$ 10 milhões em 2028.

Além da expansão nacional, a startup já mira internacionalização. O CEO e fundador André Augusto, inclusive está atualmente na China participando de um programa de aceleração da Plug and Play, uma das maiores plataformas globais de inovação corporativa.

“Estamos numa etapa de expansão nacional e também de internacionalização. Queremos evoluir para além da automação e virar um ecossistema da cadeia”, afirmou.

Segundo ele, o volume de dados coletados pela plataforma pode abrir espaço futuramente para soluções ligadas a análise de risco, crédito, produtos financeiros e inteligência de mercado para piscicultura.

Na categoria Série A, a vencedora foi a Umgrauemeio, startup focada em monitoramento e combate a incêndios florestais.

Fundada há 10 anos no interior de São Paulo, a empresa estima que já monitorou mais de 17 milhões de hectares - 10 milhões de florestas nativas e 7,5 milhões em áreas agrícolas. Hoje, possui mais de 130 torres de moniotramento em operação - mapeando diariamente, com uso da IA, focos de incêndio e mobilizando equipes de brigadas de forma mais automatizada.

A cartela de clientes da Umgrauemeio conta com Suzano, BP Bioenergy, Atvos, JBS e Irani.

No ano passado, o fundador Rogerio Cavalcante deixou o cargo de CEO e passou a ser presidente do conselho, num momento de profissionalização da direção. A empresa contratou Tiago Menezes, executivo que fez carreira na Xerox e passou 26 anos na Ambev.

"O momento atual requer minha presença ativa na visão e estratégias do negócio, somada à experiência do Tiago Menezes à frente das decisões do dia a dia. Estamos muito confiantes e alinhados aos resultados de sucesso que estão por vir", justificou Cavalcante, na época do anúncio da troca de comando.

Depois de sair da empresa de bebidas, virou investidor e conheceu a Umgrauemeio. Em 2024, a startup captou R$ 18,7 milhões, sendo essa a última rodada feita pela companhia. Participaram do cheque a Indicator Capital, a Baraúna Investimentos, Yield Lab Latam e a Rural Ventures.

Resumo

  • Agrimatching reuniu 45 startups e premiou Herdian, Cadoma e Umgrauemeio em três estágios de maturação
  • Soluções vencedoras usam IA, sensores e visão computacional para reduzir perdas e otimizar operações no agro
  • Umgrauemeio já monitora 17 milhões de hectares e captou R$ 18,7 milhões em rodada liderada por fundos há dois anos