A startup Trag, especializada em seguros paramétricos para o agronegócio, acaba de levantar R$ 2,5 milhões em uma rodada liderada pela gestora DOMO.VC.
O aporte é uma extensão do cheque de R$ 2 milhões recebido pela Trag em 2024 e eleva para R$ 4,5 milhões o total captado pela startup, que foi criada há dois anos.
Mais do que reforçar o caixa, a nova rodada marca uma evolução importante na estratégia da companhia.
Os recursos captados serão direcionados principalmente para o desenvolvimento dos modelos de IA utilizados na análise e subscrição dos riscos agroclimáticos, além da evolução das ferramentas voltadas à experiência dos usuários.
A Trag já possui uma plataforma que cruza diferentes tipos de dados de solo, planta e atmosfera, reunindo desde informações agronômicas como data de plantio, estrutura da planta e sementes utilizadas até indicadores de séries históricas de precipitação e temperatura. A ideia agora é aprimorar essa tecnologia a partir de IA e ir além.
“Começamos a aplicar bastante IA dentro da nossa tecnologia para realmente esse modelo pudesse compreender melhor o risco climático de forma individualizada e como a gente poderia ser mais eficiente indicando e subscrevendo produtos de seguro de forma específica”, explica Leonardo Maia, CEO e cofundador da Trag, em entrevista exclusiva ao AgFeed.
Após um ano intenso de operação, os fundadores da Trag perceberam que o o principal desafio do agronegócio não está apenas na falta de acesso ao seguro rural, mas na dificuldade de entender, mensurar e gerenciar o risco climático.
“Identificamos que nosso papel não era um papel puro de seguro por seguro. Trazer o conhecimento sobre risco climático para o cliente era tão importante quanto ter uma boa estrutura de produto”, avalia Maia.
A partir dessa percepção, a empresa decidiu ampliar seu foco. Ao invés de atuar apenas como estruturadora de seguros paramétricos, a startup quer se posicionar como uma plataforma de inteligência climática capaz de transformar eventos climáticos em indicadores de risco, previsibilidade e tomada de decisão para produtores, cooperativas, distribuidores, seguradoras e financiadores do setor.
"O mercado precisa de alguma infraestrutura que traga essa inteligência de risco agroclimático, que traga essa quantificação, essa qualificação do risco", explica Luís Ricci Maia, cofundador da Trag e diretor de operações da startup.
No segundo semestre, a expectativa da Trag é trazer novos produtos nessa linha para seus clientes, que levam em consideração inteligência climática – atributo que está presente na plataforma da startup, mas que não foi monetizado por si só até aqui.
“Estamos criando ferramentas para ajudar o produtor, o financiador e outros agentes da cadeia a entender melhor o comportamento climático. Isso faz parte da nossa visão de transformar risco climático em previsibilidade financeira”, afirma Ricci Maia.
A tese surge em um momento em que os eventos climáticos extremos se tornaram uma preocupação crescente para o agronegócio brasileiro – ainda mais com a chegada iminente de um forte El Niño ao longo deste ano.
A Trag utiliza dados satelitais globais desenvolvidos em programas da Nasa combinados a modelos proprietários de inteligência artificial para mensurar risco climático e estruturar seguros paramétricos.
Diferentemente do seguro agrícola tradicional, que exige vistoria em campo para comprovar perdas, o modelo paramétrico dispara indenizações automaticamente quando determinados indicadores climáticos atingem níveis previamente definidos em contrato.
Na prática, o mecanismo reduz custos operacionais, simplifica processos e permite atender regiões e perfis de produtores que muitas vezes ficam fora das estruturas convencionais de seguro.
Ao longo de 2025, a startup utilizou o período para validar sua tecnologia em diferentes regiões e culturas. O AgFeed mostrou, por exemplo, como o paramétrico funcionou para uma fazenda de pecuária de corte, onde o risco era chover ou não, em determinado volume estimado.
Atualmente, a empresa acumula operações em oito estados brasileiros e oito culturas agrícolas diferentes. Entre seus clientes, estão empresas como GDM, Culttivo, Aegro, CrediSIS, A2G Seguros, Geagro, entre outras.
O valor protegido cresceu 47% nos últimos meses, passando de R$ 55 milhões para R$ 81 milhões. A área segurada alcançou aproximadamente 20 mil hectares, enquanto a área analisada pela plataforma já supera 300 mil hectares.
O aprendizado obtido nesse primeiro ciclo ajudou na evolução da estratégia da Trag, contam os fundadores.
Um dos principais obstáculos para a adoção do seguro paramétrico continua sendo a dificuldade dos produtores em compreender como os gatilhos funcionam e qual seria o comportamento da apólice em situações reais de perda.
“Trazer o educacional, trazer o conhecimento de risco climático para o nosso cliente era tão importante quanto ter uma boa estrutura de produto de seguro”, avalia Leonardo Maia.
Foi justamente nesse ponto que a Trag decidiu aprofundar os investimentos em inteligência artificial.
A empresa passou a desenvolver ferramentas capazes de explicar de forma mais transparente a dinâmica dos riscos climáticos enfrentados por cada produtor.
Hoje, os clientes conseguem visualizar quais satélites estão sendo utilizados na análise, quais indicadores climáticos compõem a estrutura de proteção e como aquele seguro teria performado em eventos ocorridos nos últimos anos.
“A gente começou a trazer mais esse tipo de informação de conhecimento do risco climático para os nossos clientes. Quando a gente traz uma estrutura para o nosso cliente, a gente é muito transparente de como aquela estrutura teria performado nos últimos cinco, dez, vinte anos”, explica Luís Ricci Maia, diretor de produto da startup.
Viagem foi despertar
A inserção de IA na plataforma – e na estratégia – da Trag ganhou força após uma viagem dos fundadores ao Vale do Silício no ano passado.
De acordo com Leonardo Maia, a equipe ainda mantinha certo ceticismo em relação às aplicações práticas de inteligência artificial no negócio.
A percepção mudou após uma série de encontros realizados por meio da Plug and Play, plataforma global de inovação que conecta startups e investidores.
“Até aquele momento éramos muito céticos em relação à IA. A viagem nos mostrou o quanto poderíamos aplicar inteligência artificial para melhorar nossos processos, aumentar a precisão dos modelos e gerar mais valor para os clientes”, afirma Leonardo Maia.
A conexão acabou se refletindo também na composição da rodada.
Isso porque, além da DOMO.VC, participaram do aporte investidores como Ventiur, Anjos do Brasil, Renato Farias, cofundador da Azos Seguros, Mariana Bonora, fundadora da Sette e diretora da Abfintechs, além dos investidores do Vale do Silício Barker Carlock e Manuel Parra, profissionais com passagens por empresas como Tesla e Meta.
A presença desses investidores, na avalição de Leonardo Maia, foi tão importante quanto o capital financeiro.
“Buscamos muito smart money. Essa rodada vem para trazer esse peso de empregar mais tecnologia dentro das nossas soluções”, afirma.
Franco Pontillo, general partner da DOMO.VC, destaca que o potencial de construção de uma grande base de dados climáticos abre espaço para aplicações em inteligência artificial e modelos avançados de predição.
“A nossa visão com a Trag é que o expertise deles de conseguir fazer previsibilidade climática pode ser usado para além do mercado de seguro”, afirma.
A Domo já havia investido na startup por meio de seu fundo anjo, de R$ 142 milhões e que já investiu em 70 empresas, e decidiu participar da nova rodada após avaliar que a companhia avançou na validação de mercado de sua solução.
Para o investidor, o desempenho operacional da Trag reforçou a convicção de que a equipe tem condições de transformar a tecnologia em uma plataforma relevante para diferentes elos da cadeia do agro.
“A gente escolhe, basicamente, pessoas. Você sabe por onde uma startup começa, mas raramente sabe exatamente onde ela vai terminar. O que nos deu confiança foi o conhecimento que eles demonstram ter do mercado”, diz.
Diversificação de culturas
Além da maior inserção de IA em sua plataforma, a Trag também planeja diversificar culturas atendidas.
Após concentrar esforços em soja e milho durante a fase inicial, a startup fez pilotos recentemente em segmentos como café, cana-de-açúcar, feijão, sorgo e amendoim.
No ano passado, por exemplo, a startup fechou uma operação com o grupo Futurazy, de Mato Grosso, formado por três sobrinhas de Eraí Maggi e outros familiares, que buscava se proteger do excesso de chuvas no Norte matogrossense.
“Agora, a gente tem muito mais conhecimento para investir onde entendemos que tem possibilidade de maior retorno de valor para os nossos clientes”, afirma Luiz Ricci Maia.
O café aparece como prioridade para os próximos meses devido ao elevado valor agregado da produção.
"Se a gente faz um seguro de 100 hectares para soja e de 100 hectares no café, a importância segurada é muito maior na operação de café, dado que o valor agregado é maior", diz Luis Ricci Maia.
Além do café, projeto envolvendo algodão ainda este ano e cana-de-açúcar em 2027 também estão no radar da Trag.
A startup também avalia seus primeiros movimentos internacionais. Embora ainda não possua operações contratadas fora do Brasil, a companhia já realizou estudos e cotações para produtores e parceiros na Argentina e no Paraguai.
Com a nova rodada, a meta da Trag é atingir R$ 500 milhões em risco protegido nos próximos 24 meses.
Para os fundadores da startup, o objetivo não depende apenas da ampliação da base de clientes, mas também da consolidação de um novo posicionamento para a empresa.
“Agora é o momento de fazer novas apostas ou reforçar algumas apostas dentro do que a gente já tinha de premissa”, conclui Luís Ricci Maia.
Resumo
- Trag, startup de seguros paramétricos, capta R$ 2,5 milhões com investidores do Brasil e do Vale do Silício em nova rodada
- Recursos serão usados para ampliar modelos de IA voltados à análise e gestão de riscos climáticos no agro
- Startup quer ir além dos seguros paramétricos e se tornar referência em inteligência climática para o setor