Antes de uma nova semente, um biológico ou um defensivo chegar ao mercado, há um caminho longo pela frente. São anos de testes em diferentes regiões, sob variados climas e manejos - e muito recurso financeiro - até que as empresas tenham segurança para lançar um produto comercialmente.
Encurtar esse caminho é a aposta da startup argentina Calice, que atua com "ensaios virtuais", uma tecnologia que utiliza modelagem computacional e inteligência artificial para simular o desempenho de sementes, biológicos e defensivos em ambientes que ainda não foram testados fisicamente.
Depois de iniciar sua operação no Brasil em 2025, a empresa quer transformar o País em um dos pilares de seu crescimento.
O foco está nas áreas de pesquisa e desenvolvimento (P&D) das grandes companhias de sementes, biológicos, defensivos e outros insumos agrícolas, oferecendo uma ferramenta capaz de reduzir tempo, custos e riscos no desenvolvimento de novos produtos.
"O Brasil é um dos principais mercados para qualquer empresa voltada ao agro", afirmou Mauricio Garcia, diretor comercial da Calice no país, em entrevista ao AgFeed.
"Vejo que o momento de entrada da Calice é favorável. Nossos clientes são empresas de sementes, fertilizantes, biológicos e químicos, e nosso foco principal são os departamentos de P&D e, depois, as áreas de marketing quando falamos de produtos já lançados que precisam de um refinamento no posicionamento de mercado", prosseguiu.
Hoje, entre os clientes da startup estão empresas como Syngenta, BASF, Corteva, GDM, TMG, Nufarm, Nuseed e Puna.bio. Os projetos são customizados para cada companhia e abrangem culturas como soja, milho, trigo, algodão, cana-de-açúcar, cevada, canola, carinata, batata e sorgo. Há também conversas em andamento para aplicações em hortifrúti.
A tecnologia parte de um princípio relativamente simples: em vez de tratar um ambiente apenas por médias de chuva, temperatura ou produtividade, os modelos procuram interpretar como a planta "enxerga" cada sequência de eventos climáticos ao longo do seu desenvolvimento.
"É como se olhássemos o ambiente através dos olhos da planta. Uma planta de soja não reage ao mesmo efeito climático que uma de milho. O milho é mais sensível na floração, a soja no enchimento de grãos. Não é a média do ambiente que importa, mas a sequência de eventos que acontece durante cada fase da cultura", resumiu Alejo Valverde, CCO da Calice.
A partir dessa modelagem, a plataforma combina informações ambientais com os dados de desempenho dos produtos fornecidos pelos clientes para construir modelos capazes de prever onde determinado material tende a apresentar melhor resultado e onde seu potencial é menor.
Segundo Valverde, a tecnologia não substitui os ensaios de campo, mas reduz a quantidade de experimentos necessários ao longo do desenvolvimento.
"Hoje, desenvolver uma nova variedade pode levar entre cinco e sete anos de ensaios. Com um ou dois anos de dados já conseguimos construir modelos para projetar os anos seguintes", afirmou.
Além de encurtar esse processo, O CCO cita que a startup consegue aumentar a precisão na seleção dos materiais. Em um programa de soja, por exemplo, a Calice mapeou cerca de 40% mais candidatos comerciais utilizando praticamente metade dos locais de teste, ele afirma.
O uso da ferramenta também vai além do desenvolvimento de sementes. Como os modelos simulam a interação entre planta, ambiente e manejo, eles podem ser utilizados para posicionar defensivos, produtos biológicos e outras tecnologias de proteção de cultivos em diferentes condições de solo, clima e pressão de doenças.
Para Garcia, esse tipo de solução ganha ainda mais relevância em um momento em que o setor atravessa um ciclo de margens mais apertadas.
"Estamos no quarto ano consecutivo de um mercado mais desafiador para o agro brasileiro. Quando a margem aperta, cresce a necessidade de direcionar melhor os investimentos. Conseguimos mostrar onde a chance de sucesso de um produto é menor e onde vale a pena concentrar recursos".
A empresa nasceu em 2022 a partir de um grupo de pesquisadores argentinos especializados em modelagem computacional e biologia de sistemas. Inicialmente, a startup atuava em projetos ligados à descoberta de genes e edição genética, mas mudou de rumo poucos meses após sua fundação.
"Percebemos rapidamente que o maior valor da empresa não estava na edição gênica, mas nas ferramentas computacionais que havíamos desenvolvido. Fechamos o laboratório com lágrimas nos olhos para focar integralmente na modelagem computacional aplicada ao agro", contou Valverde.
Desde então, a companhia expandiu sua atuação para Estados Unidos e Brasil. Hoje, reúne uma equipe de pouco mais de 20 profissionais, a maior parte formada por cientistas, matemáticos, físicos e agrônomos.
A expansão brasileira foi viabilizada por uma rodada seed de US$ 2,5 milhões realizada no ano passado. A rodada contou com a participação do fundo Astanor, além da Draper Cygnus, Xperiment Ventures, AIR Capital, Innventure e GrainCorp Ventures.
Segundo Valverde, os recursos atuais ainda sustentam o crescimento da empresa por um período considerado confortável, embora uma nova captação já esteja no radar para acelerar a expansão. Antes desse aporte, já havia recebido cerca de US$ 1 milhão em uma rodada pré-seed.
A expectativa é que, nos próximos cinco anos, Brasil e Estados Unidos respondam por cerca de 40% da receita global cada um, consolidando os dois países como os principais mercados da Calice. "Estamos construindo esse crescimento projeto por projeto. Normalmente começamos resolvendo um problema bastante específico do cliente para construir confiança e, a partir daí, ampliar a parceria", afirmou.
Resumo
- Startup usa IA e modelagem computacional para reduzir tempo, custos e riscos no desenvolvimento de insumos agrícolas
- Após chegar ao Brasil em 2025, Calice atende gigantes como Syngenta, BASF, Corteva, GDM, TMG e Nufarm
- Com aporte de US$ 2,5 milhões ano passado, startup quer que Brasil e EUA respondam por 80% da receita em cinco anos