O aperto no crédito do agronegócio brasileiro está criando um paradoxo para empresas que atuam na concessão e gestão de financiamentos: ao mesmo tempo em que o dinheiro fica mais escasso e o risco aumenta, cresce a demanda por ferramentas capazes de melhorar a análise dos tomadores e dar mais eficiência às operações.

É nesse espaço que a AgRisk, agtech que surgiu dentro da fintech mineira Nagro, pretende avançar.

A AgRisk nasceu como uma ferramenta interna da Nagro para consolidar informações de produtores rurais.

Mas o negócio cresceu e a fintech mineira transformou a tecnologia que havia desenvolvido para consumo interno em um negócio B2B à parte voltado à gestão de crédito para empresas do agronegócio e setores próximos à cadeia.

“A demanda nunca foi tão grande, mas o risco também acompanha a demanda”, afirma Gustavo Alves, CEO da AgRisk, que conversou com o AgFeed em meio ao Congresso Andav 2026, evento que reúne empresas do setor de insumos nesta semana em São Paulo.

Inicialmente, a AgRisk começou atendendo principalmente distribuidores de insumos e indústrias que concediam crédito aos produtores rurais, mas ampliou o escopo nos últimos anos.

Ao todo, hoje a AgRisk tem 1,6 mil clientes ativos, entre instituições financeiras, cooperativas, empresas de logística e redes de distribuição de combustíveis. Entre eles, um dos cinco maiores bancos do país, segundo Alves, sem dar mais detalhes.

Das dez maiores cooperativas agropecuárias brasileiras, oito utilizam a plataforma, segundo Alves. Entre os clientes, estão gigantes como as paranaenses C.Vale e Coamo e a paulista Coopercitrus.

A expansão da empresa ocorre em paralelo à separação da AgRisk da Nagro. Embora a tecnologia tenha sido desenvolvida originalmente como uma ferramenta interna da fintech, as duas operações foram formalmente separadas há dois anos e passaram a operar de maneira independente desde então.

Agtech estuda fundo

Neste ano, a AgRisk está focada no avanço da plataforma AgFlow, que pretende cobrir toda a jornada do crédito, do cadastro e análise inicial à aprovação, formalização, registro, acompanhamento da carteira e cobrança.

A proposta é integrar áreas que normalmente operam de forma separada dentro das empresas, como comercial, crédito, jurídico e diretoria, além de conectar a operação a cartórios e centrais digitais de registro de recebíveis e garantias. “Ele é como se fosse o integrador desse processo e das áreas em si”, explica Alves.

Somente neste ano, a plataforma já avaliou mais de R$ 10 bilhões em crédito e aprovou R$ 4 bilhões no último trimestre, de acordo com o CEO.

A empresa também começou a adicionar serviços financeiros à plataforma, como antecipação de recebíveis e gestão de garantias.

Dessa forma, uma revenda de insumos, por exemplo, pode fazer a antecipação de recebíveis dentro da plataforma. A estratégia é permitir que os ativos originados pelas empresas dentro da plataforma também possam gerar liquidez. “Isso contribui nesse momento de escassez de crédito como um todo”, diz Alves.

A frente financeira da AgRisk ainda é recente. Há cerca de dois meses, a companhia começou a estruturar operações de funding e, nesse período, recebeu aproximadamente R$ 350 milhões em carteira.

Ao mesmo tempo, já conta com parceiros de funding com capacidade de disponibilizar até R$ 2 bilhões, segundo Alves.

A companhia ainda está avaliando o perfil e a qualidade da demanda antes de definir o formato definitivo da estratégia financeira.

Uma das alternativas em estudo é a criação de um Fiagro voltado ao crédito B2B. A ideia seria utilizar a plataforma para conectar empresas que precisam de liquidez a investidores interessados em financiar recebíveis e outras operações ligadas à cadeia do agronegócio.

“A gente ainda está entendendo o que é o processo, a volumetria, como está essa demanda e a qualidade dessa demanda para que a gente escolha qual a estratégia que a gente vamos montar”, conta Gustavo Alves.

Para irrigar esse fundo, Alves diz que tem conversado com fundos de impacto interessados em financiar projetos de recuperação de pastagens e agricultura sustentável.

Nesse caso, a intenção é combinar liquidez com um custo de capital potencialmente menor para empresas que cumpram determinadas características ambientais.

Nagro reforça foco no pequeno produtor

Enquanto a AgRisk cresce com a busca por tecnologia de gestão de risco, a Nagro continua atuando em paralelo como agfintech B2C, voltada ao pequeno e médio produtor rural, emprestando recursos aos agricultores de forma totalmente on-line, via aplicativo.

A empresa, que já financiou mais de 7 mil produtores no país de mais de 40 culturas agrícolas, hoje mantém uma carteira de aproximadamente R$ 200 milhões, diz Alves, e possui três fundos proprietários.

A Nagro já recebeu recursos de diferentes investidores. Depois de ter captado com investidores-anjo e, em rodada do tipo série A, finalizada em meados de 2023, com a Kinea Ventures, da gestora Kinea, ligada ao Itaú Unibanco, e Revolution, da gestora Oasis Ventures, a startup fechou nova rodada de investimento no começo deste ano.

Dessa vez, em janeiro deste ano, captou R$ 50 milhões, em rodada liderada pela Rabo Partnerships, do banco holandês Rabobank, e também com participação da Itaú Ventures (que já era investidor através da antiga Kinea Ventures), do Itaú.

Apesar da atração dos investidores, a Nagro não ficou imune à deterioração da situação financeira dos produtores rurais nos últimos anos.

Alves afirma que a companhia começou a perceber mudanças no perfil de inadimplência entre 2023 e 2024 e sofreu com a piora dos recebimentos em 2024 e 2025.

A Nagro chegou a registrar, no período de 2023/2024, uma inadimplência em torno de 9,5%, contou um dos fundadores da agtech, Leonardo Rodovalho, em entrevista anterior ao AgFeed.

A resposta foi, então, reduzir o ritmo de crescimento do crédito e migrar de operações mais longas de reestruturação para renegociações e alternativas que permitissem ao produtor voltar ao mercado.

“Seguramos um pouco o crédito, e a gente mudou a nossa estratégia, de um crédito que era mais de longo prazo, de reestruturação, para um crédito mais focado em renegociações, em trazer o produtor de volta para o mercado, dando mais fôlego para ele”, conta Alves.

A redefinição de rota também levou a Nagro a reforçar o foco nos pequenos e médios produtores, que faturam desde R$ 500 mil a R$ 20 milhões por ano.

“A gente já tinha o mote de atender mais o pequeno e o médio produtor, e começamos a ser mais fiel a isso, porque estávamos atendendo também grandes produtores que tinham outras opções de crédito, mas o produtor pequeno não tem”, diz Gustavo Alves.

Com a entrada do Rabobank, costumeiramente associado ao pequeno e médio produtor, a Nagro também passou a concentrar ainda mais esforços nesse público.

Nesse contexto, a fintech lançou recentemente uma ferramenta chamada ID Produtor, que funciona como uma espécie de consultoria financeira e de crédito.

A proposta, segundo Gustavo Alves, é ajudar o produtor a organizar informações, melhorar seu perfil de risco, renegociar dívidas e voltar a acessar o mercado.

“Às vezes, eu não consigo dar o crédito para ele nesse momento por questão de risco, por questão de falta de estruturação de informação que ele não consegue trazer e dar visibilidade para a gente. Mas para que ele comece a entender como se estruturar em termos de perfil de risco de crédito, pensamos nessa plataforma”, explica Alves.

A aposta de Alves é que tanto Nagro quanto AgRisk consigam se beneficiar de lados diferentes do mesmo cenário.

Enquanto a Nagro precisa ser mais seletiva na concessão de crédito, a AgRisk ganha relevância justamente porque empresas e instituições financeiras precisam investir mais em tecnologia para administrar risco, garantias e carteiras.

“Quanto a gente tem que segurar um pouco o crédito, ser mais restritivo na concessão na fintech, a AgRisk acaba se beneficiando desse mercado mais desafiador”, afirma.

A lógica está no conceito de “antifragilidade”, do escritor Nassim Taleb, autor de bestsellers como “A lógica do cisne negro” e “Antifrágil: Coisas que se Beneficiam com o Caos”, que Alves diz orientar a estrutura do grupo.

Assim, a separação entre Nagro e AgRisk foi pensada, segundo ele, para criar negócios capazes não apenas de resistir a momentos de estresse, mas de encontrar oportunidades neles.

“A escolha de quebrar em Nagro e AgRisk é para ter um negócio antifrágil”, resume Alves.

Resumo

  • Com crédito escasso e risco maior, AgRisk aposta em tecnologia para melhorar a análise e gestão de risco no agro
  • Empresa é spin-off da fintech mineira Nagro
  • AgRisk já tem 1,6 mil clientes e avaliou mais de R$ 10 bilhões em crédito neste ano pela plataforma AgFlow